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[CCCrítica] Sex Education

25.1.19Taiany Araujo


Acredito que uma boa forma de explicar essa série seja dizer que é uma espécie de American Pie que deu certo. Ou melhor, um American Pie que realmente está preocupada em passar uma mensagem. 

Logo de cara pensamos estar assistindo um besteirol, mas então, os personagens começam a ganhar forma e passamos a entender que a narrativa estereotipada tá ali como uma ferramenta para contar uma história séria e necessária. Como uma amiga professora disse, infelizmente as escolas não estão prontas para receber a indicação de uma série dessas para seus alunos adolescentes. 

A série trata de assuntos relacionados a sexo e sexualidade de maneira responsável, mesmo com todo o "teatro" performático dos personagens. E eles estavam tão conscientes da mensagem que queriam passar que até uma coreógrafa sexual foi contratada para instruir e conduzir os atores nas cenas de sexo.

Também há uma preocupação com a diversidade e a quebra de algumas "normas". Um núcleo em especial é um tapa na nossa cara, uma vez que somos obrigados a desconstruir uma impressão errada que criamos a partir de estereótipos que não necessariamente dizem sobre uma pessoa ou grupo. Além disso, durante pequenos gestos a série vai naturalizando as coisas.  Por exemplo, quando uma menina aparece vestida com um belo terninho para o baile da escola ou quando um menino coloca maquiagem e peruca para ir ao cinema com o amigo ou ainda quando um cara tá dirigindo seu carro com roupas "masculinas", mas, de brincos, batom e esmalte. Sua roupa não responde sobre sua sexualidade, sua roupa é uma expressão da sua personalidade ou ainda apenas algo que você usa sem pensar muito. Atrelar um simbolismo entre roupas e sexualidade é estreitar muito as possibilidades de significantes.

Durante o desenrolar dos episódios, somos apresentados a personagens extremamente interessantes e muito fáceis de se identificar, mesmo que no começo pareçam caricatos, quando olhamos uma segunda vez percebemos que são adolescentes como quaisquer outros, cheios de medos, verdades e sonhos. Dito isso, um dos pontos altos da série é o ator Ncuti Gatwa, que interpreta o personagem Eric, melhor amigo do protagonista. Ncuti consegue fazer com que nos empatizemos com o personagens que ao longo da temporada vai do cômico ao dramático numa trajetória de autodescoberta, preconceitos e posicionamento. 

Entre os assuntos abordados, está é claro, o sexo, mas também temas como aborto, orientação sexual, aceitação, entendimento - tanto de si quanto dos outros - pressão social e moralidade, cuja cola talvez seja a amizade e o fato de todo mundo está no mesmo barco. Os temas foram trabalhados de uma forma bem jovem e atual (e também crua), sem deixar tudo muito pesado ou dramático, conseguindo passar a mensagem de maneira direta e bem humorada.


Muita gente falou sobre os clichês que o roteiro assumiu como um ponto negativo. Eu particularmente não me importo com clichês, até gosto. E nessa série especifica, acredito que eles estavam lá para enfatizar o exagero de como tudo é tratado ali, sem medo de ousar nas imagens e linguagem.

Se for para falar de algo que me incomodou, foram duas coisas. Uma é o recurso narrativo que não gosto, no qual um personagem é inserido apenas para fazer com que os protagonistas percebam que querem ficar juntos. Me sinto mal com esse tipo de "estratégia" e acho desnecessário. E a outra, e acredito ser até um discurso perigoso - no sentido de justificar ações que precisam ser punidas e estigmatizar um grupo já estigmatizado - é (vou ser bem sucinta para não dar spoiler) a explicação do porque determinado personagem comete bullying. Conversando com uma amiga, ela disse não ter visto problema nessa história especifica e que fazia muito sentido, mas ainda acho que eles poderiam ter desenvolvido de outra forma, porque ficar perpetuando a mesma história acaba por torná-la uma verdade.

De toda forma, eu não poderia deixar de falar de um dos pontos fortes da série que é a trilha sonora e essa pegada meio oitentista, presente no gosto musical dos personagens, nos figurinos e até mesmo no cenário. Enquanto eu assistia, ficava lembrando de filmes como Clube dos Cinco e A garota de rosa choque. Tudo isso sem perder o timing das tecnologias e a importância do celular na vida dos jovens de hoje.


Eu, que comecei a assistir com desconfiança, devo admitir que "Sex Education" me ganhou na primeira cena, uma transa que parece não tá dando muito certo, e só sosseguei depois de assisti todos os oito episódios que compõem essa primeira temporada. Super recomendo!

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