Anders Bateva assexualidade

O problema de fazer sexo sem reciprocidade de atração ou desejo

8.8.18Colaboradores ConversaCult


Eis mais um texto traduzido pelo Anders sobre assexualidade que eu, Bells, me identifiquei horrores e tenho certeza de que muitos outros aces vão se identificar também. Vamo que vamo

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Talia recentemente escreveu sobre como a ausência de atração sexual dela levou a um problema no relacionamento com um ex-parceiro. Mesmo eu não sendo favorável ao sexo, isso me atinge como um dos problemas que me mantém afastada do sexo. Mesmo sem nenhuma experiência prática, eu já me dei conta de que as pessoas se excitam em serem desejadas por seus parceiros/suas parceiras sexuais. E, na direção contrária, quando alguém sente que seus parceiros/suas parceiras não lhe desejam sexualmente fica desconfortável, e pode machucar a ambos os lados. 

Eu tive aulas de Saúde (grande parte desta sendo Educação Sexual) durante meu primeiro semestre do ensino médio. Porém, a maioria dos estudantes no ensino médio não tiveram aulas de Saúde antes de seu último ano, o que significou que eu era uma pessoa de 14 anos em meio a um grupo de pessoas de 17 ou 18 anos, e nós estávamos estudando/discutindo sexo juntos. Eu lembro particularmente de uma conversa sobre orgasmos: um aluno  falou sobre como suas parceiras sexuais sempre tinham orgasmos, mas outra aluna disse que alguns destes orgasmos eram provavelmente fingidos. O aluno disse que ele acreditava que sempre era real, mas a aluna respondeu que ela mesma fingia orgasmo com bastante frequência e que, por extensão, um grande número de mulheres fingem um monte de orgasmos. 

Provavelmente esse aluno ficou assim
Por que fingir orgasmos? Bem, não é difícil adivinhar, ao menos não com tamanha abundância de dicas espalhadas por toda a cultura: as pessoas têm expectativa de que seus parceiros/suas parceiras sexuais desfrutem do sexo, e se isto não ocorre, eles/elas consideram isto uma falha pessoal, e se eles/elas pensam que seu parceiro/sua parceira lhes faz se sentir uma falha pessoal, eles/elas podem descontar isto em seu parceiro/sua parceira. Então, para muitas pessoas, é melhor fingir prazer do que arriscar entrar numa fria. Neste ponto, duas observações devem ser feitas:
  1. a maioria das pessoas mistura atração sexual, com desejo sexual, e até certo ponto, até mesmo com prazer sexual. Então, mesmo estes conceitos sendo diferentes no discurso assexual, não é feita distinção por muitas pessoas;
  2. os papeis de gênero têm um grande impacto. Na cultura heterossexual, presume-se que os homens têm o poder de usar o sexo para controlar o prazer e a dor das mulheres. Em outras palavras, usar o sexo para fazer outra pessoa sentir prazer pode ser um ato de dominância. Quando um homem faz sexo com uma mulher, com a intenção de fazê-la sentir prazer, e ela não sente, isto pode fazê-lo sentir-se impotente. De forma similar, se alguém claramente não está sentindo atração sexual/desejo (lembre-se, estas ideias são com frequência misturadas) em relação a seu parceiro/sua parceira sexual, bem, em nossa cultura isto implica que: ou o parceiro/a parceira sexual não é bom/boa o suficiente; ou que ao menos está lhe faltando o poder.
Emily Nagoski escreve bastante sobre desejo espontâneo vs. desejo responsivo (isto é, apenas sentir desejo quando já em uma certa situação sexual), e a estigmatização de sentir principalmente desejo responsivo, bem como isto se relaciona com a flibanserina ("viagra feminino"). Eu suspeito fortemente que a idealização de desejo espontâneo e estigmatização do desejo responsivo está conectada a estas ideias culturais de que as pessoas querem provocar desejo sexual nas outras. Falando da flibanserina, este artigo da New York Times Magazine apontou que "E os homens, se eles estiverem afim de encarar a verdade, poderão não ficar muito felizes com o lembrete de que, conforme suas parceiras buscam o frasco de pílulas, que suas mulheres necessitam de assistência química para desejá-los."

E onde me encaixo nisso tudo?

Com bastante preparo - digamos, um bom diretor, um roteiro bem-escrito, e tempo para ensaiar - eu provavelmente poderia fingir atração sexual e desejo sexual bem o suficiente para tapear uma audiência de teatro. Numa situação da vida real? Eu provavelmente nunca seria capaz de fingi-lo. Eu nem ao menos saberia o que fingir. O mesmo vale para fingir orgasmos (nota: eu nunca tive um orgasmo). Eu provavelmente enganaria bem poucas pessoas sexualmente experientes. E então, pode me ocorrer de entrar numa fria e ter que lidar com todo o drama emocional. Em segundo lugar, eu não iria querer fingir nada disto. Se não estou tendo atração/desejo/orgasmo, eu gostaria de ser honesta a respeito disto. Se isto é um problema, bem, eu estou totalmente OK com viver sem sexo. Esta possibilidade toda de ser arrastada para drama emocional devido a um parceiro/uma parceira ver que não estou tendo atração/desejo/prazer sexuais e tomar isso como pessoal, é uma das razões pelas quais não farei sexo a menos que haja uma razão super-forte para experimentar.

Sexo? Tô fora.
Pego minha bike e vou embora


Autora: Sara K., em 23/10/2015. Tradução: Anders Bateva.


CC0O texto deste post de Anders Bateva está liberado sob domínio público. Baseado no trabalho disponível no The Notes Which Do Not Fit.

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