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Quem não é da minoria não entende (de verdade) o que a minoria passa

21.6.18João Paulo Albuquerque


Quem de uma minoria já tentou explicar algo para alguém que não era e não se sentiu estranho? Como se, de algum modo, aquilo que você estava falando parece não afetar a pessoa na sua frente, parece que ela não entende totalmente, ela só consegue imaginar, se colocar no lugar, mas não compreender, sentir o que você sente? Esse texto é pra essa pessoa que não sente como você se sente. (não importa qual seja a minoria, só trocar por LGBTQ (ou informações sobre LGBTQs), já que eu vou estar falando da minha experiência)

Infelizmente, nem as pessoas que eu mais amo na vida de fato entendem como eu me sinto. É simples: quem não é daquela minoria, daquele recorte, não entende o que eu passo, não sente como eu sinto, o máximo que consegue é se colocar no meu lugar, imaginar e sentir empatia, mas sentir o que eu sinto sendo daquela minoria e vendo algumas coisas que eu considero ofensivas, essa pessoa não vai entender mesmo. E acho que me toquei sobre isso após toda a treta sobre fantasias de Carnaval que são ofensivas.

E tudo bem. Ninguém precisa carregar a cruz comigo. Mas eu gostaria de não ser chamado de louco ou de chato quando falo que algo é ofensivo para aquela minoria. Se eu, que sou da minoria, estou falando isso, não é à toa, não é sem propósito, sem sentimentos. No entanto, eu sei que isso não vai mudar, eu ainda vou ser visto como chato, ainda vou ser chamado de extremista ou até mesmo de babaca, quando na verdade não sou eu quem está sendo babaca.

E exatamente por isso que eu quis fazer esse texto, para deixar claro de uma vez por todas que não importa o quanto vocês achem isso chato, pra mim não é chato, é uma questão de luta por direitos, luta pelo fim do estereótipo, luta pelo direito a vida (viver sem medo por ser quem eu sou) e pelo respeito.


Vocês acham que eu gosto de ter que ficar fazendo textão sobre coisas que na verdade já eram para ter parado de ocorrer há muitos anos - não, séculos - atrás? Não, eu não gosto. Eu não gosto de lembrar que os estereótipos ainda reproduzem ideias erradas sobre quem eu sou. Não gosto de ter que explicar para as pessoas que ser gay não vai fazer com que eu queira dar em cima de qualquer cara que se aproxime de mim. Eu não queria ter feito um texto explicando o porquê de ser ofensivo uma fantasia do que eu sou. Não gosto de pensar que em 2017 foram mais de 440 mortos (só por ser LGBTQ). Caralho, eu só queria viver em paz sem ter esses problemas.

Mas vocês questionam, acham que tem o direito de questionar o que eu sinto e como isso me ofende, falando que não deveria me ofender, que foi só uma brincadeira, era só uma festa, foi só uma palavra, foi só uma expulsão, foi só um tapa, foi só um chute...

Eu sei que talvez algumas coisas não vão mudar agora, beleza, eu não posso mudar o mundo num piscar de olhos, mas até que eu respire pela última vez, eu ainda vou lutar pelo que se trata de respeito ao ser humano. Eu ainda vou lutar pelo reconhecimento que minha dor, você pode não entender ou ver, mas é séria, é pelo o quê vocês fazem e precisam aprender porque não é legal, porque que reclamamos, porque estamos aqui, gritando, as vozes roucas, a mente perturbada pelo medo e cansaço, o pequeno fio de esperança vivo enquanto milhares dizem pra desistirmos.

Vocês se recusam a aprender e ver o que a história fez conosco, o que vocês fazem com a gente, o que a ciência fez com a gente. Um dia eu sei que isso vai mudar porque tem que mudar, o ser humano tende a evoluir, um exemplo é o tempo, a ciência, história e o mundo. A gente tem que evoluir, tem que mudar, é a natureza.

Ou pelo menos é o que se espera....

Eu sei que eu sou da Geração Mimimi, mas é esse mimimi que faz as coisas andarem, é esse mimimi que me concedeu os - poucos - direitos que eu tenho hoje, foi esse mesmo mimimi que eu preparei o campo pra poder me assumir para quem eu mais amo, esse mesmo mimimi que me lembra que eu não sou doente, não sou errado e sou um humano que merece direitos tanto quanto qualquer outro, é esse mesmo mimimi que me faz olhar pra quantos LGBTQs se suicidaram por medo, nojo de serem o que são e continuar aqui lutando por mim e por eles. É esse mimimi que fez muitas pessoas ganharem consciência sobre as coisas preconceituosas que falavam ou faziam, ou que ainda reproduzem.

É por esse mimimi que eu ainda estou vivo. E pode parecer meio extremo falando assim, mas vamos ser honestos? Nosso país é um dos que mais matam LGBTQ (não é por acaso, é justamente por serem LGBTQ), em três anos o número (isso só dos registrados porque eu sei que tem muito mais) só veio aumentando (318 em 2015, 330 em 2016 e 440 em 2017). Quem é LGBTQ sabe o que pode acontecer na próxima esquina, sabe que do nada pode vir uma lâmpada na cara, sabe que pode encontrar um bando de cara no Carnaval se "fantasiando" de gay pra nos outros dias ser mais um homofóbico agressor - sem falar que se fantasiam assim porque é cômico, super engraçado ser gay né - (seja verbal ou fisicamente), sabe que na escola pode ser espancado ou humilhado por professores e colegas. Então eu tenho consciência do que pode acontecer, mas eu não vou abaixar minha cabeça, não vou ficar no chão quando for derrubado, eu vou levantar mesmo que esteja chorando e vou continuar essa luta, mesmo que eu perca batalhas, a guerra eu não perco.


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