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Felica x Limantha: afinal, foi ''justo'' o final de Lica em Malhação?

3.4.18Colaboradores ConversaCult


A recém-finalizada temporada de Malhação, intitulada “Viva A Diferença”, se destacou das demais e cativou o público não somente pelos vários temas importantes que foram abordados, mas pela maneira como isso foi feito e, sobretudo, pelas protagonistas: cinco garotas, vindas de realidades completamente diferentes, que se tornaram melhores amigas quando se viram presas em um vagão de metrô, com uma delas prestes a dar à luz. O nascimento do Tonico – o filho da Keyla – uniu as Five e, arrisco dizer, que mais que qualquer casal, a amizade entre elas é a relação mais importante da novela. Tudo começou e terminou com elas.

Fives

Uma dessas garotas, a Lica, assim como em todos os aspectos da vida da personagem, passou por relacionamentos bastante conturbados: desde um namoro disfuncional e por conveniência, até “roubar” o namorado da meia-irmã e, enquanto estava com ele, se apaixonar por seu professor. Para, no fim, terminar com uma garota que, no começo da novela, ninguém imaginava que algum dia ela se envolveria: Samantha.

Limantha

O casal conquistou uma fanbase enorme e, por ser um casal LGBTQ+ (afinal, carecemos de representatividade), muito dedicada. Todos os dias, a fandom subia tags para os trending topics do Brasil no Twitter, muitas vezes chegando até aos Mundiais. Foi algo muito gostoso de se acompanhar, mas claro, nada nessa vida é unânime. Fãs que shippavam a Lica com seu ex-namorado, Felipe, não gostaram nada quando em vez de optarem por uma volta de Felica, resolveram seguir pelo caminho de colocá-la para se envolver com a Samantha.

Desde o surgimento de Limantha, muito se discutiu e, até o momento em que se tratava de preferência, estava tudo bem. Ninguém é obrigado a shippar o mesmo que eu. Felica teve sim toda uma história e tempo de tela que, apesar de não ter acontecido comigo, cativou sim várias pessoas. Só que o problema começou, quando não só passaram a desmerecer Limantha por não ter beijões, como me vieram com o argumento de que “não era justo” que Lica terminasse com a Samantha.

Felica
E, bem, eu não sou obrigada a ouvir que não é justo com o casal hétero clichê que já vimos em Malhação várias vezes, tenha perdido espaço de tela para o primeiro casal LGBTQ+ da história da novela, que já está no ar há mais de vinte anos! Porque, com erros e acertos, Limantha representava muito mais do que só um casal fofo – mas vale dizer que elas realmente eram um – pois trazia algo capaz de, literalmente, ajudar uma pessoa a se entender consigo mesma. A se aceitar enquanto LGBTQ+, a ver que, na verdade, não há nada de anormal em ser quem é... Injusto seria se terminassem a temporada com Felica, depois de terem nos dado Limantha. Porque passaria a impressão de que, para a Lica, a Samantha foi só uma “fase”, uma “diversão”, algo que é, justamente, um dos grandes estereótipos que existem sobre uma relação homoafetiva, ainda mais quando se trata de duas mulheres. E, mesmo hoje, depois de Limantha ter sido endgame, ainda tem Felica que diz que a Lica eventualmente acabou superando a “fase” com a Samantha e voltado para o seu “grande amor”, o Felipe.

Como se isso já não fosse estúpido o bastante, ainda vem com o papo de que a Lica nunca “aparentou” ser LGBT e que fazê-la se relacionar com uma menina foi forçado, o que só piora ainda mais a situação, pois mostra que eles realmente não entendem. A parte que mais me frustra é que já vi pessoas que são LGBT e Felica shippers reproduzindo os mesmos discursos.

Eu tentando entender a lógica desse pessoal
Euzinha, esse ser que vos fala, que hoje em dia é toda problematizadora, não nasci assim não. Até conseguir me aceitar como bissexual, passei por um processo longo e complicado. Quando eu estava começando a me descobrir, costumava dizer para mim mesma: “Ah, mas isso que eu sinto é só desejo, atração... Namorar mesmo é só com homem.”. E por quê? Na época, eu já era até que bem desconstruída para a minha idade (onze anos). Mas, no fim, no auge da minha pré-adolescência, eu podia até dizer “ei, gay também é gente, vamos respeitar” só que lá dentro da minha cabecinha confusa, uma relação entre mulheres se resumia a sexo, à diversão, porque a visão que eu tinha era justamente a visão que me foi passada. No pornô, o sexo lésbico além de irrealista, é totalmente voltado para o prazer masculino e, até então, eu não havia assistido a nenhuma série que tivesse um casal de mulheres. Foi só graças à Brittana (Glee), que eu percebi que a “parte romântica” também existia.
Brittany e Santana
E, assim como em MVAD, Glee teve muitas falhas, porém, teve coisas ótimas quando analisamos a representatividade. Comparo os dois, porque têm vários pontos em comum: voltado ao público “teen”, celebram a diferença porém depende (rs), a química das atrizes que interpretam os casais de meninas muitas vezes acabou fazendo o papel do roteiro e preenchendo as lacunas do mesmo...

Porque, assim como Brittana, houveram algumas “derrapadas” no meio do caminho de Limantha, mas em um âmbito geral, a representatividade foi muito bem-feita. Apesar, é claro, de algo que nem eu, nem os próprios Felicats (shippers de Felica) entenderam, que foi voltar com “clima” Felica do nada, para agirem como se a dúvida da Lica nunca tivesse existido na semana seguinte. Pareceu um grande furo no roteiro, mas confesso, quando ela voltou com a Samantha foi tão fofo que eu até consegui ignorar isso.

Quanto à Lica “nunca ter aparentado” ser LGBT, isso é algo totalmente sem noção. Então, para ser bissexual, ela precisaria do quê? Seguir um manual de comportamento, ou sei lá? Não existisse isso! Agora, a parte é engraçada: na verdade, se o que dizem são “sinais”, a possibilidade sempre esteve ali. Ela não só beijou K1 (selinho) e Samantha (a câmera desfocou, mas rolou) no comecinho da novela, em uma balada, muito antes de Limantha, como também deu um selinho em outra five, a Ellen. E, inclusive, já havia o ship “Ellica”, bem antes da personagem ser oficializada como LGBTQ+.

Lica beijando K1 e Samantha na Balada Anos 80
Ellen e Lica nunca chegou a rolar de fato, mas a Ellen até chegou a perguntar: “Você vai me beijar, Heloísa?”, a Lica respondeu que “Achava que não”. Ficar com meninas nunca foi algo realmente descartado para a personagem da Lica. Só que a heteronormatividade das pessoas talvez as tenha feito fechar os olhos para essa possibilidade.

Ellen e Lica
Outro ponto levantado pelas Felicats, foi de que a Samantha “não merecia” ser o endgame da Lica, devido ao seu passado. O que é ridículo. Eu não sou uma fã cega e não nego os erros da Samantha no passado, enquanto uma pessoa que carregou consigo um preconceito enorme dentro de si, para com a personagem da Benê. Apesar de ser bem desconstruída em muitas questões, como sendo uma pessoa adepta do amor livre, ela teve muita dificuldade em entender o jeito da Benê (que é a personagem que é asperger). Chamou ela de “esquisita”, “bizarra”, dentre outros, em sua fase “mean girl” e mesmo depois de já ter se tornado uma pessoa melhor, cometeu o erro de dizer que seu amigo, Guto, merecia uma menina “mais normal”, o que causou a primeira briga de Limantha. Só que, após o ocorrido, ela se mostrou verdadeiramente arrependida e nunca mais repetiu nada que fosse ofensivo à Benê.

Sem falar que a Samantha sempre tratou a Lica da melhor maneira possível
O Felipe, aliás, não é nenhum santo. Pois em uma das vezes que a Samantha praticou bullying com a Benê, ele e o MB estavam lá, rindo. Ou seja, não faz sentido usar isso, quando o favorito deles também não nasceu sabendo. E Felica começou com o Felipe traindo a Clara, meia-irmã da Lica, o que já mostra uma falha de caráter por parte do rapaz, que foi extremamente “glorificado” ao longo da temporada.

Sobre merecer a Lica propriamente dita, sejamos sinceros: o Felipe pode até tê-la apoiado em vários dos piores momentos da garota, mas assim que as coisas deram errado entre eles, o menino não perdeu a oportunidade de compará-la com o pai, que havia traído a mãe dela e, mais para frente, também a mãe da Clara: “O seu Edgar é rápido né? Você tem a quem puxar, Lica...”. E ser comparada com o Edgar foi algo que sempre teve um impacto muito grande na Lica. Enquanto isso, a Samantha disse justamente o contrário, que ela não tinha nada a ver com o pai.

Antes mesmo de rolar, Limantha já era lindo
Os Felica shippers dizem que é hipocrisia comparar as duas situações (Felipe comparando e Samantha dizendo que não tem nada a ver), porque o coitadinho do Felipe estava magoado, e porque a Samantha já havia falado mal da Lica anteriormente, mas a questão é justamente essa. A Samantha falou mal antes das duas serem, sequer, amigas próximas. Eram conhecidas. Se conheciam desde pequenas, mas ainda assim, apenas conhecidas. E o que a Samantha disse de tão “terrível”? Coisas como: “Abre o olho Felipe, a Lica não é esse anjo que você pensa, não... Conheço ela desde pequena, não dá pra confiar” e “A Lica é das minhas, não consegue ficar com um só não”. Basicamente, dizendo que o Felipe não deveria confiar demais na Lica, porque ela o trairia, ou algo parecido. Só que, depois que as duas se aproximaram, a Samantha conheceu a Lica de verdade e, mesmo quando terminaram e ela estava “magoada”, ela era só elogios para a Lica. Diferente do Felipe, que bastou ter o coração partido, para que toda a defesa que ele fazia da Lica desaparecesse.

E ela ficou bem mal com isso

Anteriormente, o pai havia chegado até a dar um tapa na garota, em público
Quem vacilou foi a Lica, que só foi demonstrar real / oficial seus sentimentos nos últimos capítulos, depois de ter ficado num chove-não-molha com o Felipe, quando ela e a Samantha deram um tempo. Isso de colocar o Felipe no meio de duas das tramas LGBTQ+ da novela foi um dos pontos negativos, inclusive. Porque além dele ter roubado os holofotes no plot do Gabriel (que é o personagem gay) quando os dois foram agredidos na rua, ainda cismaram de insistir em Felica para fazer “mistério” se Limantha seria ou não endgame. Felizmente foi, mas não dá para ignorar que pisaram feio na bola nesse ponto. Ainda mais porque acabou sendo como se os flertes entre Lica e Felipe nunca tivessem acontecido, porque numa semana a Lica estava em dúvida e, de repente, na outra ela já estava “Felipe? Tô fora, pego minha Sammy e vou embora”. No fim, o Felipe acabou com uma figurante aleatória que só apareceu no último capítulo. O que, confesso, fez com que eu me sentisse vingada, mas também acabou ficando meio sem sentido. Só que, como eu disse, a reconciliação delas foi tão fofa que eu mesma acabei esquecendo do ocorrido.

Samantha: “O mundo gira, gira... E você continua sendo a musa dos Lagostins.”

Lica: “Se eu for só sua musa como você é minha, já tá ótimo...”

* Gay silence *
São muito meus amores, sim
Não podia faltar beijinho em público na Feira do Cora né?
No que diz respeito aos casais, Felica nunca me cativou. E, mesmo revendo a temporada toda na Globo Play, minha opinião permaneceu a mesma. Não nego que existiu um sentimento ali, que os dois tiveram uma história e tudo mais, mas é algo que para mim, pessoalmente, sempre foi bem desinteressante. Vários outros casais sempre foram muito mais interessantes. O destaque sendo, óbvio, Gunê, que é o casal do menino assexual com a menina que têm asperger. No quesito de desenvolvimento, é de longe o melhor e mais bonito casal da novela, ainda que o meu favorito seja Limantha (Gunê vem como o segundo na minha “lista”). Felipe e Lica era mais do mesmo. Ela pegou ele para fazer pirraça para a meia-irmã e ops, acabou que rolou um sentimento. Transavam toda hora, brigavam em excesso, mas ficavam tendo recaídas a todo instante. Ela se incomodava com o “grude” dele e ele sempre gostou dela, mesmo namorando com outra e blá-blá-blá. Quantas vezes já vimos essa história? E feitas de uma forma muito mais envolvente? Sério, é algo pessoal, mas comigo não funcionou.
Sempre dou risada nessa cena.

Felipe: “Surpresa! Eu posso dormir aqui!”

Lica: “De novo?” *cara de desgosto*
Já Limantha, além de ser o primeiro casal de meninas de Malhação, ainda transbordava química e nem precisava de pegações loucas para ser lindo, com um olhar transmitiam tanta coisa, uma energia... Eu sempre tive a sensação de que as duas se complementavam, de uma maneira única e especial. Muito disso se deve ao excelente trabalho das atrizes, que entraram de cabeça no romance das duas. Mesmo com pouco tempo de desenvolvimento (surgiu em Dezembro de 2017 e a novela acabou no começo de Março desse ano), elas conseguiram fazer história como um dos melhores casais que já passaram pela novela. E, portanto, terminarem a temporada oficializando o namoro não foi somente justo, como o final perfeito para as duas.

Sam: “Cê falou “namorada”?”

Lica: “Você tem alguma dúvida?”

Sam: “Nennhuma.”

***

Sobre a autora: Isabela Duarte, a maior Gleek e Faberry shipper que você respeita. Estou no nono ano do fundamental e faço quinze anos agora em Maio. Meu grande e verdadeiro amor é a escrita e, depois dela, vêm meus passatempos favoritos, que são assistir séries e ouvir música. Militante de causas sociais e a problematizadora do rolê. Gorda e felizmente bi. Tenho os melhores amigos do mundo inteiro e se discordar é porque não os conhece.

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