CCAnálise Dana Martins

A autonomia das mulheres na ficção

27.1.18Dana Martins


A gente vive numa época que mulher não tem o direito nem de decidir o que fazer com o próprio útero, e isso se reflete na ficção: histórias onde as mulheres não só não são donas das próprias narrativas, como ainda enfiam homem salvando o dia por elas, nos filmes delas. Essa é uma análise que eu fiz pra o Batdrama (minha newsletter), e agora vou compartilhar aqui porque acho que é importante pra conversar sobre representatividade. 

Enquanto eu escrevia minha análise feminista de Little Witch Academia, eu conversei com o meu irmão sobre o momento que a protagonista Akko enfia a mão na cara do garoto e pede pra ele ficar do lado de fora enquanto ela ia se arriscar sozinha. Eu falando da cena:



Meu irmão:



E ele ainda disse "mas tem uma leitura de que ela tá se sacrificando pra proteger homem."

Eu (agora, nesse texto, porque no momento não tive a presença de espírito pra explicar):



É que não é só isso. Ela poderia estar fazendo isso pra proteger o garoto? Sim. MAS MESMO SE FOSSE, ONDE VOCÊ VÊ UMA MULHER PEDIR PRA O HOMEM FICAR PRA PROTEGÊ-LO ENQUANTO ELA VAI FAZER ALGO PERIGOSO? 

Eu tenho algum rascunho em algum lugar que é sobre como, no caso de uma mulher branca, chega a ser revolucionário ter a personagem se sacrificando. É uma forma radical de dizer "a vida é minha e eu faço o que quiser." Até se matar? "Sim, ou você acha que eu não sei o que é melhor pra mim?"

E parece extremo, mas se a gente parar pra analisar, o conceito básico de heroísmo é o sacrifício. O que mais tem é herói morrendo pra salvar alguém. (gente, qual é a história de Jesus???) Então se o tempo todo homem pode fazer o que bem entender com a própria vida, até querer se matar, e ainda ser celebrado como um herói por esse gesto nobre, por que parece tão errado quando uma mulher - sozinha - toma essa decisão? Por que a gente sente como se ela fosse burra?

(aí a gente abre espaço pra lembrar que não é tão simples assim, porque há outros fatores envolvidos como o constante trope da mulher morta (fridged women), e como minoriais étnicas morrem em maiores proporções não ficção do que gente branca. Quase não dá pra assistir uma história de Hollywood sem começar com mulher morrendo. Então tem que tomar cuidado, mas se feito direito pode ser um trope "revolucionário" justamente por deixar clara a autonomia da mulher sobre a própria vida). 

Encerrado essa parte sobre o direito de se matar, voltamos pra autonomia no geral. Muitas vezes as personagens estão ali só pra sustentar a história do homem, até mesmo as heroínas fodonas, que chegam a chutar bundas, mas não fazem nada de importante pra trama em si - isso é chamado de Síndrome Trinity. Foi daí que surgiu o post que eu traduzi pra o ConversaCult em 2014!! Eu levei anos pra começar a entender o que, de fato, era essa questão da autonomia. 

E um dos momentos onde você vê isso numa história é perto do final, quando chega no clímax. Tem sempre o momento H que o personagem faz algo pra salvar o dia. Aí existe um mito que diz "O protagonista deve fazer isso sozinho, ele precisa disso pra fechar a jornada dele." Afinal, o clímax acontece porque o protagonista passou pela jornada do herói, transformou, e agora vai colocar em prática o que aprendeu pra salvar o dia, comprovando que ele se tornou essa pessoa capaz de resolver o problema (o que antes não era). (toda história é meio que alguém, que arranja um problema, aí sofre, sofre, sofre até aprender e a resolver o problema, e aí termina uma versão melhorada da inicial - uma com a capacidade de resolver o tal problema) Então faz sentido que se você tá contando a história sobre essa pessoinha, é essa pessoinha que tem que resolver (ou não) o problema, né?

Então quando chega lá na hora H, os amigos são varridos pra fora. Tu vai ver, sempre acontece alguma coisa. Alguém cai e quebra a perna, aí os outros precisam ficar pra ajudar enquanto o herói, pobrezinho, precisa fazer o esforço de salvar o dia sozinho! Cada livro do Harry Potter é um exemplo disso. Ex: Na Câmera Secreta cai umas pedras (!!!) no caminho só pra o Rony ficar do lado de fora e o Harry ir lidar com a cobra sozinho (a hermione já tinha virado pedra antes). 

O problema é que, já não bastando o machismo na escrita que tira a autonomia da mulher, a maioria das histórias tem homens protagonistas. Resultado? Todo final de história é a mesma ladainha de mulher sendo empurrada pra o canto só pra o homem brilhar. E quando os escritores tentam fazer a tal Mulher Forte, isso se torna pior ainda porque eles criam uma mulher brilhante, competente, que é elogiada 70 vezes a cada 1 segundo de filme, só que na hora H ela é esquecida em churrasco. Vê a Gamora em Guardiões da Galáxia 2, por exemplo. Ela é literalmente boicotada pelo guaxinim, porque se não ela salvava o dia. Em Homem Formiga apesar da Vespa ser SUPER COMPETENTE E LITERALMENTE TREINAR O PROTAGONISTA, o pai decide dar pra ele o traje de homem formiga (a pobrezinha é muito preciosa pra poder arriscar a própria vida!!). 

Ou seja, a história de protagonistas heroicos se torna uma história sobre um bando de mulheres boicotadas para não serem elas quem salvam o dia. 

Tu acha que a Hermione não ia pegar a espada e enfiar na cobra se ela tivesse lá? Tu acha que ela não ia enfiar uma varinha no rabo do Voldemort? Ela podia se cagar de medo, mas ela ia, porque ela é grifinória, incrível e competente. E muitas vezes o Harry só consegue vencer no fim do dia com o conhecimento dela. Ela só não tá ali, porque... porque tá virando pedra, sei lá.

É claro que a JK não fez por propósito, mas aparentemente ninguém faz de propósito e a gente acaba nessa situação cheia de herois que salvam o dia e mulheres boicotadas. 

Aí você acha que acabou? Não. 

Era uma tarde ensolarada de dezembro e eu fui assistir Rogue One.

Esse filme mudou a minha vida.

Mudou porque quando chega o momento H, a batalha final, começa o clássico: vamos varrer geral pra escanteio que é a hora do protagonista brilhar.

Só que dessa vez o protagonista é uma mulher!


Aí começa: vai um, vai outro, vai indo um a um dos 50 milhões de homens do elenco e até o robô é jogado pra escanteio. Resta a Jyn e o Cassian. Eles estão fugindo e ele cai e se machuca, pede pra ela ir sem ele. É ISSO! 

É AGORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

a menina chega lá, o vilão a encurrala e ela fica parada até o Cassian brotar outra vez e matar o vilão no lugar dela. 



você tá me dizendo que ESSE TEMPO INTEIRO a mulher poderia ter chegado lá e matado o vilão? 

Que "ela não é a protagonista" era só uma desculpa pra justificar centrar a história no homem? 

PODERIA TER SIDO DIFERENTE ESSE TEMPO TODO?

A única coisa que a Jyn faz é apertar o botão. Ela podia ter morrido que não faria diferença. A personagem rebelde que discute com o robô que a gente vê no início foi esquecida em churrasco. Eu podia pensar em 50 jeitos que essa cena poderia ter sido diferente e todas que envolviam ela ter a autonomia e não ser um abajur incompetente. A autonomia da menina foi roubada no filme dela. 

eu assistindo. 

A pior parte é que mostra que quando a situação é o contrário (a mulher é protagonista e o homem é secundário), eles não têm o menor problema em criar um homem com autonomia e que contribui de forma gigante pra o final da história. Não existe desculpa pra não fazer. Eles socam o homem no nosso cu e foda-se.

E ninguém nem percebe.

Foi aí que eu tive 100% certeza de que qualquer Justificativa Lógica™ pra não fazer representatividade de verdade é só desculpa. Com boa vontade e intenção não só dá pra fazer, como a história fica melhor.

Então você tem o meu irmão, lindo, fofuxo:



você tem eu, já acabada de depois de tanto ver uma vez após a outra as mulheres terem sua autonomia roubada na cara de pau:



E aí a gente assiste a mesma cena de Little Witch Academia, uma cena que quando chega o momento H, eles nem inventam uma desculpinha esfarrapada pra tirar o garoto do caminho, a protagonista literalmente enfia a mão na cara dele e fala "fica aí, vlw flw" e VAI.

OLHA A MÃO NA CARA DELE QUE OBRA DE ARTE



E ele só fala "tudo bem" NÃO TENTA DISCUTIR NÃO QUESTIONA A DECISÃO DELA NÃO TEM DRAMA DE "EU FAÇO ISSO POR VOCÊ", SÓ TUDO BEM.

SENDO QUE ANTES ELA JÁ TAVA INDO CONSIDERANDO QUE IA SOZINHA E FAZER TUDO SOZINHA. NEM PENSOU NELE.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH



E olha que antes disso tem um draminha de "QUEM ENTRAR AÍ VAI SER AMALDIÇOADO PRA SEMPRE", o que pode levar à leitura de "ela fez isso pra proteger ele." Só que quando tu olha o contexto geral da série, em nenhum momento ela tá fazendo as coisas por causa dele (pelo contrário, ele começa a fazer as coisas por causa dela) e fica óbvio que isso da maldição foi só uma pista pra uma reviravolta que acontece depois. E o episódio é literalmente ela indo salvar outra garota, que salva ela em troca, que as duas completam uma missão, que envolve mais 6 mulheres. Você olhar pra isso e falar "ela tá fazendo por causa de homem" é ignorar bem a realidade, e isso acontece, porque a gente assiste as coisas de uma ótica machista e aprende a imaginar que uma garota fazendo algo provavelmente é por causa de homem, mas pra mim tá bem longe do que Little Witch Academia é.

Eu escrevi esse texto originalmente no Batdrama, a minha newsletter (clica aqui pra se inscrever), e decidi publicar ele agora no ConversaCult porque a autonomia da mulher, e entender esse momento perto do final quando o protagonista age pra completar a jornada - e como existe esse histórico de mulheres jogadas pra escanteio, enquanto homens são enfiados nas histórias delas -, é uma parte importante de entender representatividade de mulher. 

Também porque eu assisti Star Wars: Os Últimos Jedi, e é exatamente o que acontece com a Rey. Coitada, nunca vi alguém tão esquecida em churrasco no próprio filme EM UMA BATALHA FINAL. Ela não faz nada. Ela aparece e mandam ela embora outra vez, enquanto rola uma batalha épica do Luke vs. Kylo. A Rey nesse segundo filme de Star Wars é só um dos problemas dessas histórias que tiram a autonomia da mulher ao mesmo tempo que centralizam nos homens, até quando é filme delas. Eu falo melhor sobre isso na minha análise (com spoilers) da Rey no filme

E só pra fechar, já que eu usei a Mulher Maravilha na capa (aqui o artista da imagem), no filme dela de 2017 não tiram a autonomia dela. Pelo contrário, ela constantemente passa por cima de tudo pra fazer o que quer, e até a mãe chega a respeitá-la quando a Diana decide sair da ilha. O filme é um banho de autonomia. Ao mesmo tempo, na hora H eles ainda dão um jeito do Steve ser útil e brilhar, o que é só um outro exemplo de que quando a mulher é protagonista, não usam desculpa pra jogar o homem pra escanteio. E ainda teve aquilo dele cochichar algo pra ela, que ela usa pra vencer o vilão. Poderíamos ter passado sem isso. 

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