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Minha namorada é japonesa

15.8.17Colaboradores ConversaCult


Minto: é descendente de japoneses. Acho que isso faz toda diferença, já que ela me corrige toda vez. A questão é: ela tem uma relação sanguínea de algum grau com os japoneses. Isso significa que, vez ou outra, ela vai parar o que estiver fazendo e me contar uma curiosidade da cultura nipônica. Não sei se faz isso de propósito — meio que pra reafirmar o quanto ela conhece e respeita a cultura da qual descende –, mas de qualquer forma eu acabo sendo vítima disso.

— Tá vendo aquilo ali? — ela pergunta.

— O quê?

— Ali — ela aponta.

— O gatinho?

— Aham.

É a escultura de um gatinho fofo no balcão da entrada do restaurante. É todo dourado e fica levantando e abaixando a pata esquerda, como se estivesse numa batalha de rap ou coisa do tipo.

— Que que tem? — pergunto.

— É o Gato Solar, ou Maneki Neko. Os japoneses geralmente colocam ele na entrada de lojas e restaurantes pra trazer sorte, tipo como tá esse aí. Quando é a pata direta levantada, é pra atrair dinheiro, enquanto a pata esquerda é pra atrair clientes.

— É um puta gato capitalista, isso que eu digo.

Ela revira os olhos.

— E eu pensando que a cultura oriental era diferente…

— Cala a boca.

Eu rio. Ela dá um risinho também, mas tenta disfarçar.

É a terceira vez que vamos a um restaurante de comida japonesa em dois meses. É um lugar chamado Jappa Sushis e ele é ambientado da forma como todos os restaurantes de comida japonesa são — me poupe de dar os detalhes, você sabe como é –, com a diferença de que não tem nenhum japonês aqui, ou pelo menos alguém visivelmente descendente deles — além dela, claro. Acho que isso é uma coisa que devia ser corrigida no ramo dos restaurantes de comida japonesa: a verossimilhança. Não adianta pôr quadros com escritos em japonês nas paredes, luzes diferenciadas e uma faixa ao redor da cabeça de cada funcionário, se você não vê um mísero olhinho puxado quando entra no restaurante.

A questão é: eu não gosto de comida japonesa. Aliás, não é que eu não goste, eu simplesmente não entendo o que há de tão bom nelas. Elas são bonitas nas fotos, coloridas e tudo o mais, mas que comida não é? Pense no seguinte: um prato de sushis e um balde de frango frito entregue diretamente pelo KFC, o que você escolhe? Calma, é uma pergunta retórica.

A diferença, você pode dizer, é que a comida japonesa é saudável. Isso é verdade, mas já que eu não como aquelas coisas cruas — que são 90% do cardápio — e acabo ficando só com as coisas fritas, esse argumento não faz muita diferença. Aliás, o fim de semana é o momento que eu aguardo ansiosamente para comer coisa boa, e não saudável, então é indiferente.

O que eu quero dizer é que eu não gosto de comida japonesa e preferia estar comendo um hambúrguer agora, mas não é assim que o mundo funciona nesse relacionamento. Todo fim de semana nós comemos num lugar diferente e, a cada vez, um de nós escolhe. Essa semana foi a vez dela. Semana passada fomos a um daqueles food-trucks de cachorro quente, a maior decepção da minha vida. Não sejam bobos: cachorro-quente na chapa é como qualquer outro cachorro-quente e continua sendo difícil de comer, com a diferença de que é muito mais caro.

O garçom chega para anotar nosso pedido.

— Vai querer o quê? — ela me pergunta.

— Escolhe aí você — digo.

Pela terceira vez ela revira as páginas do cardápio em busca do que escolher.

— É tudo tão gostoso — diz. — Fica difícil escolher.

— Você consegue, acredito no seu potencial.

O problema é que eu não posso incentivá-la a pegar muita coisa, porque no fim nós vamos dividir a conta meio a meio e eu vou ter certeza de que só mereço pagar por 20% do que foi cobrado. Isso porque, na maior parte do tempo eu só como um yakisoba e engulo uns hot philadelphias à força, no máximo, enquanto ela alterna entre sashimis, sushis, harumakis, temakis, makimonos, uramakis e todos aqueles outros nomes estranhos que ela diz com confiança pro funcionário que nos atende, anotando o pedido. É verdade que meu coração aperta ao imaginar a conta, mas eu entendo a importância do que ela está fazendo, assim como ela não me embarreira quando peço um Subway de 30 centímetros só pra mim e ainda como o que sobra dela.

— E pra beber? — o garçom pergunta, depois que ela termina de fazer o pedido.

— Uma Coca de 600 tá bom? — ela me pergunta.

— Não existe nenhuma bebida japonesa ou sei lá?

O garçom dá uma risada.

— Uma Coca de 600 tá bom? — ela repete.

— Sério que a gente vai pedir quase o cardápio inteiro só com comida japonesa e vamos beber… Coca?

— Uma Coca de 600 tá bom — ela diz pro garçom.

— Ok.

Então, ele faz uma saudação provavelmente de origem japonesa e segue em direção à cozinha.

— Olha só esse cara — digo.

— O quê?

— Ele fez um corte no cabelo com um Nike na parte de trás… Vê se pode um cara desses fazer uma saudação japonesa. Ele não merece, merece?

— Tanto faz, pô.

— Ah, mas a Nike é japonesa, né?

— Claro que não. É dos Estados Unidos, porra.

— Ih, pode crer. É que confundi com as criancinhas chinesas da Nike e tudo o mais. São tudo igual mesmo.

Ela revira os olhos só que dá uma risadinha, mas tenta disfarçar.

— Mas os japoneses devem ter alguma marca famosa de tênis, né? Alguma coisa que ele poderia ter escolhido pro cabelo ao invés de Nike pra pelo menos homenagear a cultura que paga o salário dele.

— Eu sei lá.

— Como você sabe sobre gatos da sorte mas não sabe sobre a indústria japonesa de calçados?

— Eu não fico no wikipedia do Japão o dia todo não.

— Não é o que parece… — digo, em voz baixa.

Ela me dá um soco no braço e ri, mas tenta disfarçar.

— É porque sei lá, eles fazem uma caralhada de carro foda, devem saber fazer sapato também.

— É, devem saber fazer sim.

Uns minutos depois, o garçom chega com os pratos de cada um e põe à nossa frente. Depois, volta com o yakisoba e os hashis.

— Pode trazer um garfo, por favor? — peço ao garçom.

— De novo? — ela me pergunta.

— Hã?

— Você não disse que dessa vez ia aprender a usar os hashis?

— Eu não tenho coordenação motora pra isso.

— Todo mundo tem.

— Ok: eu não tenho força de vontade pra aprender a usar isso.

Ela dá de ombros. O garçom ri e troca os meus hashis por um garfo.

— Sabe, um dia a gente vai pro Japão — ela diz.

— Que que tem?

— É bom você já ter aprendido a comer com hashi até lá.

— Eles vão ter que me aguentar comendo de garfo.

— Garfos nem devem ter sido inventados lá.

— Eles inventaram garagens circulares e não inventariam garfos?

— Só sei que ninguém vai te dar garfo nenhum nos restaurantes de lá.

— Eu levo daqui.

— Touché.

Comemos o yakisoba. Eu disse que não gostava de comida japonesa? Minto: eu não gosto de comida japonesa mas amo yakisoba. É a única ocasião da minha vida onde não me importo em comer legume e onde miojo parece sofisticado. O problema é que, pelo visto, isso aqui não é essencialmente comida japonesa.

— Hum — ela fala.

— Aham — digo –, tá bom, né?

— É… tá sim…

— Você não tá gostando? — pergunto, sem entender.

— É que… é miojo, sabe?

— Ué, mas yakisoba não é isso?

— Só que os japoneses fazem de um jeito diferente. Por aqui eles só misturam miojo e carne e chamam de yakisoba, é quase ofensivo.

— Pô, eu achei bom.

— Um dia você vai entender.

E é isso que ela sempre diz: um dia você vai entender. Pra toda mordida que eu dou em comida japonesa, qualquer que seja, e digo que não gosto, ela diz que isso não é comida japonesa de verdade, que por aqui eles não fazem do jeito certo, que um dia eu vou entender. E aí nos meus momentos de apreciação degustativa de yakisobas e, finalmente, apreciação à cultura nipônica, tudo que recebo é um não é isso tudo e um dia você vai entender? De qualquer forma, eu como tudo que eu posso, já que tem mais inúmeros pedidos pra chegar que ela basicamente vai comer sozinha.

Ela enfia os hashis em pé no meio do yakisoba.

— Sabe o que isso significa? — pergunta.

— O quê?

— Os hashis em pé no meio da comida.

— Significa que você vai ter mil anos de azar no amor? — brinco.

Ela me encara.

— Como você sabe? — pergunta, surpresa.

— É sério que é isso? — Eu rio. — Eu só falei uma daquelas consequências de de “não repassar essa corrente para vinte amigos em menos de dez minutos”.

— Não é exatamente isso — ela ri –, mas eles realmente acreditam que dá azar deixar o hashi em pé assim na comida, eles são muito supersticiosos.

— Ah, então foi realmente deles que vieram as correntes do WhatsApp. Eu preciso agradecer então: obrigado, japoneses, pelos seus carros, televisões e correntes.

Ela dá outro soco no meu ombro. Ri, mas tenta disfarçar. Sorrio ao perceber isso.

Ficamos comendo em silêncio por um tempo. Continuo com um pouco do sorriso no rosto, e percebo isso só depois de uns minutos. Olho pra ela discretamente pra checar se também está assim. Concluo que está. Me sinto bem. Como se eu estivesse vivendo o melhor momento da minha vida. Acho que isso acontece com frequência quando estamos felizes de verdade. Deve ser porque quando vivemos algo muito bom e tentamos lembrar de como nos sentimos na ocasião, sei lá, duas semanas depois, não conseguimos lembrar da intensidade do quão bom foi e aí meio que a memória perde força. Mas, nesse momento, aqui e agora, eu admito pra mim mesmo que isso é absurdamente bom e não vou me permitir esquecer disso. Eu estou feliz e o motivo é ela.

Mesmo sabendo que daqui a pouco eu vou ter que engolir arroz enrolado em peixe cru e dizer que Nossa, é bom mesmo ainda que eu saiba que não é, eu estou feliz.

Sinto vontade de falar com ela e romper o silêncio. Penso em dizer que a amo, assim mesmo, repentinamente, mas verbalizar isso nunca é tão satisfatório quanto parece na minha mente. Sinto que não importam quantas palavras eu diga ou quanta intensidade eu ponha nas palavras Eu… Te… Amo…, nada disso vai conseguir chegar próximo do que eu realmente sinto por ela.

Penso na primeira curiosidade japonesa que ela me disse. Era sobre o seu sobrenome. Eu havia perguntado o que significava, já que é em japonês. Eu esperava que fosse primavera ou algo do tipo, mas não era. Ela me disse que, na verdade, é o equivalente à lenda urbana da “Loira do Banheiro”, só que dos japoneses. Nós dois rimos disso na época, enquanto imaginávamos um grupo de japoneses no banheiro da escola falando o nome dela de frente pro espelho enquanto tremiam de medo. E, naquela ocasião, aquilo havia feito tanto sentido pra mim: não precisava haver nada poético, porque a realidade não é tão poética quanto tentam dizer, ela é apenas simples, com a particularidade de que vez ou outra você consegue sorrir diante dela. E é só disso que precisamos.

— Mas por que dá azar? — pergunto, de repente, dando uma garfada no yakisoba.

— O quê?

— O negócio dos hashis em pé no meio da comida.

— Porque é isso que fazem com os mortos.

— Enfiar um hashi neles?

— Acho que… sim.

— Por quê?

— Não sei, pergunta pra eles.

— Podia pelo menos me dar a informação completa, né.

— Se quiser saber o resto vê no Google, ué.

— Tá bom então.

Pego o celular. Abro o Google. Procuro “como dizer eu te amo em japonês”.

— Suki Desu — digo.

— Hã?

— Pesquisei e achei isso.

— E o que é?

— Vê aí.

Ela estranha, mas pega o celular e procura. Então olha pra mim e sorri, só que dessa vez não tenta disfarçar.


Sobre o autor: 

Elvis Gomes (favor evitar piadinhas), natural do Rio de Janeiro, é só mais um daqueles jovens recém-saídos-da-adolescência que escrevem porque não têm nada melhor para fazer. Quando não está perdendo tempo preciso de vida com isso, alterna entre música, Psicologia e tentar entender Twin Peaks. Você pode ler mais textos no seu Medium e ouvir suas composições na sua página no Soundcloud.

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