CCSociedade guerra

A guerra é aqui

31.3.17Isabelle Fernandes



Ontem uma menina de 13 anos morreu dentro da escola, na periferia aqui do Rio.

Ela estava no meio de uma aula de Educação Física.

Ela tomou pelo menos três tiros. Morreu na hora. Imagens mostram o corpo dela todo coberto na quadra da escola.

E isso não é raro. Não é uma exceção. Tanto é que ninguém se incomoda. A mídia faz umas reportagens, entrevista a família revoltada e emocionada, chama o representante da Polícia Militar pra entrevista. E vida que segue. Outras pautas. Tudo normal. Quem não assiste a tv e não mora por perto simplesmente nunca vai saber o que houve. A vida segue normal.

Mas não existe mais normalidade na vida dessa família.

Não existe normal pra quem vive a realidade de uma guerra. Porque é isso que acontece nas favelas periféricas do Rio de Janeiro. Você tá dentro da escola, tendo aula e é assassinado. Chamam de "bala perdida" mas esse termo é ESCROTO, porque dá a ideia de não intencionalidade. A questão é que quando a polícia ou o tráfico dispara com o seu fuzil de grosso calibre, ele tem a intenção de matar.

A intenção de matar é tanta que num vídeo, mostra aquilo que quem vive essa realidade já sabe, já viu: homens no chão, se mexendo, provavelmente feridos, as armas caídas a alguma distância. Policiais se aproximam e terminam o serviço, à queima roupa. A sangue frio. Assim como dezenas de policiais também foram assassinados seja no front (é esse o termo que o próprio representante da PM usou na entrevista), seja indo comprar alguma coisa num mercado que no momento está sendo assaltado, é identificado e aí ou reage e morre.

Acredito que todas as pessoas que moram em regiões dominadas pelo tráfico assim como eu, quando se deparam com uma notícia como a do assassinato da Maria Eduarda, pensam: podia ter sido eu. Podia ter sido minha mãe, meu filho, minha avó, meu tio, meu aluno, meu colega de trabalho. Ela morreu dentro de uma escola. Eu moro numa escola. Minha avó mora e trabalha numa escola. Quantas vezes ela, os funcionários e as crianças correram pra se esconder por causa de um tiroteio? Quantas vezes as vidraças das janelas foram trocadas por causa das marcas de balas? Quantas vezes a escola deixou de funcionar por causa de confrontos? Quantas vezes funcionários passaram mal de nervoso e crianças caíram no choro porque o medo era demais?

Quantas vezes eu me joguei no chão da minha casa por causa de um tiroteio? Quantas vezes eu acordei de madrugada ouvindo pessoas sendo executadas? Quantas vezes eu estava na rua e minha avó me liga me avisando que está acontecendo um tiroteio e eu penso se vou conseguir chegar em casa viva? Quantas vezes eu e minha avó fomos surpreendidas na rua por um tiroteio e simplesmente não sabíamos o que fazer?

Quantas pessoas que vivem essa realidade morreram por "balas perdidas"? Quantas crianças? Quantos adolescentes, como a Maria Eduarda? Eu não preciso mostrar as estatísticas, elas estão aí. Só procurar. É só isso que nos tornamos: estatísticas. Segue o baile.

Mas claro, isso é na periferia. No subúrbio. Pode vir pro Rio e andar pelos bairros nobres e áreas turísticas com o mesmo cuidado que teria em qualquer outra grande cidade do Brasil. Se acontecer alguma coisa, como o médico que foi esfaqueado na Lagoa, você pode ter certeza que vai se resolvido. Indignação coletiva, a mídia fica em cima. Uma coisa dessas não pode acontecer NA LAGOA, como as autoridades disseram em entrevista. Rapidamente acham o autor da facada. É preciso mostrar serviço.

A guerra é aqui, na periferia. Nas favelas. Onde polícia chacina e é chacinada, onde tráfico chacina e é chacinado, onde a população precisa contar com a fé ou a sorte pra não ser a próxima nas estatísticas.

Enquanto isso, o resto da cidade vê as notícias, lamenta e segue o baile.

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