a bela adormecida a bela e a fera

A evolução do papel das personagens femininas na Disney

9.3.17Colaboradores ConversaCult


*Texto publicado originalmente na página Um Filme Me Disse.

Oito de março de 2017. Dia de comemoração e luta: comemorar o que conquistamos e lutar pelo o que nos ainda é devido historicamente.

Falar sobre o dia internacional da mulher não é uma tarefa simples, mas resolvi torná-la, ao menos, um pouco mais fácil pra mim: como fã da Disney desde muito pequena, sempre me vi envolvida em suas histórias e hoje, como adulta, assistindo às novas animações e reassistindo às antigas, consigo claramente visualizar uma grande mudança de postura em relação às personagens femininas.

Perdoem-me se o texto acabar por fazer um recorte muito pequeno. Escrever sobre minhas experiências como mulher e como fã torna tudo mais natural, eu acho.

Não é tão recente quanto podemos supor, mas tendo em vista o primeiro longa-metragem, Branca de Neve (1938), e o último, Moana (2016), há de se considerar que houve abruptas adaptações à visão de mundo atual em diversos aspectos, mesmo para filmes que não retratam dias atuais, como A Princesa e o Sapo (2009) e Valente (2012), por exemplo.

Aqui, gostaria de traçar o perfil da maioria das primeiras personagens femininas marcantes, todas princesas: jovens brancas, delicadas, puras e passivas, que esperavam por um mágico resgate, a fim de que tenham um final feliz, qual seja, devidamente casadas com seus príncipes. Essas jovens, das quais cito como exemplo, a própria Branca de Neve, bem como a princesa Aurora, de A Bela Adormecida (1959) ou a Cinderela (1950) tem pouca ou nenhuma participação ativa em seus filmes e, se abrem a boca, é, majoritariamente, para cantar.

Cantando de boas enquanto me apaixono por um TOTAL ESTRANHO QUE APARECE
NO MEIO DA FUCKING FLORESTA

O sucesso dessas animações reforçava a visão do papel da mulher na sociedade desde os ternos anos da infância das meninas: afinal, quem não quer ser uma bela princesa?

Nascida nos anos 90, eu gosto de pensar no filme A Bela e a Fera (1991) como um começo de quebra de paradigmas: a garota que não quer saber da vida de dona de casa, nem de casamento, mas se interessa por leitura e aventuras. Sim, você vai vir me dizer que ela tinha Síndrome de Estocolmo (o que eu particularmente acho bem controvertido considerando que ela passa a maior parte do filme brigando com a Fera e, somente após desenvolver uma amizade, se apaixona, mas pode ser que eu esteja só defendendo a minha princesa favorita) ou que ela não quebra, por exemplo, o padrão de beleza da princesa branca e magra (nisso eu concordo). Mas foi uma pequena, importante e atual mudança: você não precisa ser o que todos são. Você pode ser o que escolher ser e pode ser uma princesa mesmo assim.

"O que eu mais amo no mundo são meus livros."
Nós também, Bella.

Como eu precisaria fazer uma tese de doutorado pra falar de todas, pulemos pra 1998: Mulan. É quase uma unanimidade entre as meninas de hoje em dia, Mulan foi um marco de força feminina. Uma história de amor de uma filha pelo pai, que a fez ir contra tudo e todos e a tornou heroína, não princesa. O romance com o general Chang foi apenas um detalhe dentro da história de uma garota que só queria honrar a sua família e o fez de uma forma bem inusitada, transgredindo as leis para lutar pelo o que achava certo. A mulher que escreveu sua história.



Daí pra frente, temos exemplo cada vez mais empoderadores e me remeto a outro que pode ter marcado a sua infância ou adolescência como marcou a minha: Lilo e Stitch (2002). Aqui, além de termos a pequena Lilo em evidência, a história sobre uma família constituída de duas irmãs e um extraterrestre é tão encantadora quanto importante. Nani Pelekai mostra a sua força lutando pela guarda da irmã o tempo todo e o relacionamento de duas garotas, como irmãs, na minha opinião, nunca tinha sido retratado de forma tão real (quem tem irmã mais nova sabe que, às vezes, dá vontade de trocar por um coelho). Duas moças fortes que perderam os parentes cedo, parentes que deixaram a lição mais valiosa do filme: “Ohana”. Além disso, elas são as primeiras a terem corpos, digamos, um pouco mais fora do padrão de princesa (não sei se vocês repararam, mas a Nani anda com a barriguinha aparecendo e tem umas gordurinhas que se ressaltam quando ela se senta e a Lilo é bem rechonchuda).



Vou dar um pequeno salto temporal para falar de outro xodó, que não se popularizou tanto: Valente. Aqui, a princesa faz o seu destino. Ela não quer esperar por príncipe, se revolta com as “tarefas de princesa” e com a mãe, que as impunha. No fim, um filme sobre a relação mãe e filha e como precisa haver compreensão e harmonia. Vários pretendentes, nenhum casamento. A princesa Merida pode escolher se vai casar ou não e quando. Há uma completa mudança da personalidade da princesa-que-espera das primeiras animações, pra essa que é destemida e decide o que é melhor pra ela.



Então, temos que falar da febre: Frozen (2013)! Também sobre duas irmãs, acredito que a quebra de expectativa de Frozen ficou pelo fato de remeter aos clássicos Disney: uma rainha e uma princesa, são irmãs, há um interesse amoroso, príncipe, logicamente, muitas músicas, inclusive românticas... Mas o desfecho remete ao amor de irmãs abordado em Lilo e Stitch. Não teve o resgate do príncipe e muito menos a passividade. Em 2013, as princesas já são donas de suas vidas.



Por fim, e eu espero não estar dando spoiler, Moana! 



Como ela deixa claro no filme, ela não é princesa, é a filha do chefe. Porém, diferentemente da Pocahontas (1995), ela não tem interesse amoroso. Ela habita uma ilha, mas tem uma forte relação com o mar, que parece chamá-la o tempo todo. Ela, com os conselhos da avó, uma forte, engraçada e sábia figura feminina, decide ir atrás desse chamado que sente vir do oceano. Sem príncipe, porque não é princesa, buscando seus objetivos com a cara, a coragem e um franguinho muito engraçado, Moana é determinada e lutadora e espero que ela, assim como muitas personagens recentes da Disney, sejam o reflexo das mulheres que encontraremos na rua daqui pra frente.

***

Sobre a autora:
Sou Bruna, filha dos meus pais, a não delicada, mãe dos unicórnios, rainha dos memes, primeira do meu nome. Formada em Direito, Potterhead, flamenguista, louca por Disney, louca por Ed Sheeran, música latina e algumas bizarrices.

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