cabelo cabelo crespo

Representatividade gerando mudança

11.2.17Taiany Araújo


Eu tenho uma sobrinha de 3 anos que tem cabelos cacheados, tipo molinhas e o fio dela seria um 3A ou próximo (veja aqui os tipos de cabelo). Já meus cabelos, ao contrário, são crespos, apesar de também formar cachos (entre 3C /4A). E os cabelos da mãe dela são ondulados (2B), aquele cabelo que você acorda e vai pra rua que tá tudo certo. Pois bem, certo dia estávamos sentadas na sala e conversávamos sobre algo que não me lembro, em dado momento da conversa a mãe pergunta para minha sobrinha se quando ela crescesse ela iria ter um cabelo como o da mãe ou da tia. A resposta rápida: da tia.

Minha cunhada continuou insistindo na pergunta, indagando se ela não queria ter os cabelos da mamãe, mas a resposta continuava "o da tia", e isso me deixou bem feliz. Não só por ser tia coruja, mas por perceber como eu fiz uma diferença, mesmo que pequena. Ela vive me ouvindo falar que bom e ruim não são características para qualificar cabelos, ela me vê cuidando dos meus, percebe o quanto eu gosto deles e os valorizo. Mais: eu sempre tento deixar claro quanto os cachinhos dela são bonitos e que não precisa fazer nada para mudá-los. Ao que parece, ela anda prestando atenção.

Nós somos “orientadas” a achar que cabelos bonitos precisam ser lisos, ou se cacheados, que esses sejam comportados, lustrosos, conseguidos a base de babyliss etc etc etc. O crespo Black é o cabelo relaxado e mesmo hoje, quando essa realidade está mudando, ainda vemos que quando se trata de ir numa festa importante (num casamento, numa formatura), um dos primeiros passos é marcar uma escova no salão. Andar com seu cabelo solto e armado na rua é lindo, mas ir para eventos assim ainda é sinal de desleixo, talvez não tão velado, no entanto, a dúvida tá lá. Aqueles minutos de insegurança de ir com os cabelos naturais ou não, e essa dúvida é resquício do que aprendemos a vida toda em casa, na rua e nas mídias. Pense nos filmes adolescentes fofinhos que já vimos alguma vez na vida, quando a garota lá tá sendo “transformada” em alguém legal, descolada, bonita. A primeira coisa que fazem é alisar os cabelos e tirar os óculos (coisa que também merece um post).

Mas voltando à minha sobrinha, não sei se daqui a alguns anos ela vai continuar querendo ter os cabelos crespos da tia, não sei se ela vai continuar me imitando quando penteá-los, não sei se ela vai passar a achar que cabelos lisos é que são bonitos. Mas por agora estou feliz que meu exemplo fez uma pequena diferença, e se depender de mim, vai continuar assim.

Falar sobre uma criança de 3 anos que acha bonitos cabelos crespos/cacheados pode não ser nada importante, mas quando você já viu o outro lado, quando você já viu o quão triste é a situação inversa, isso é algo importante sim. Tenho uma priminha de 6 anos que vira e mexe fala como seus cabelos são feios, que acha feio cabelos curtos, crespos e qualquer outro que não sejam liso e compridos. Uma criança de 6 anos que se olha no espelho e se acha feia por causa do tipo de cabelo é algo muito triste de se ver.


E acontece, mais do que imaginamos. Toda vez que tô com essa priminha tento conversar sobre isso, na linguagem dela, mas mostrando que somos lindos, seja com cabelo lisos ou não. Já perdi as contas de quantas fotos de cabelos como os dela foram baixados por mim, só que não é fácil fazer isso sozinha quando tantas outras pessoas dizem ao contrário. Contudo, minha sobrinha de 3 anos veio me mostrar que representatividade faz diferença, e que quem sabe a geração dela vai festejar todos os tipos de cabelos, corpos, raças...

...e pessoas.


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