Alice Oseman assexualidade

[Resenha] Radio Silence, de Alice Oseman

22.10.16Dana Martins


Eu deixei pra fazer a resenha desse livro depois, mas eu não sei se posso fazer uma resenha boa. Ou expressar o quanto eu gostei dessa história.

Primeiro, porque a minha emoção de terminar foi canalizada num Batdrama.

Segundo, porque muita coisa é spoiler.

Aviso de Representatividade:
  • Protagonista bissexual. mas no livro também tem vários personagens que são gays, fala de assexualidade e demissexualidade, heteronormatividade, e ser agender. 
  • Protagonista negra, uma das amigas dela é descendente indiana e o outro coreano.
  • Também fala de depressão. 



Acho que Radio Silence é uma história sobre "aprender a se dar conta", e aos poucos enquanto outras coisas acontecem, os personagens vão mudando, vão aprendendo e no final a mensagem geral é fixada e, boom, a história está completa. 

Mas eu posso falar o básico, que é: Radio Silence é YA contemporâneo, ou seja, uma garota (Frances) que vive hoje em dia como a gente, e está em seu último ano da escola (aka. DESESPERO PRA ENTRAR PRA FACULDADE). A única coisa fora da sua vidinha pacata de máquina de estudos é seu podcast preferido: Universe City. 

Universe City se passa em uma faculdade futurista bizarra de onde Radio está tentando escapar. O podcast é feito como mensagens de Radio pedindo socorro a seja lá quem esteja ouvindo, se alguém está ouvindo. Isso se encaixa perfeitamente na narrativa quando Frances vira amiga do criador do podcast, e essa pessoa... bem. Talvez essa pessoa também precise de ajuda. 


Frances, Aled e Daniel fazendo cosplay de Doctor Who, não tem no livro, mas.


Radio Silence foca na amizade, no último ano de Frances na escola, e um pouco de como é fazer parte de fandom online e criar um podcast famoso no youtube. Eu sempre fico com pé atrás quando tem fandom, e internet nos livros, com medo de que seja aquela coisa de tiazona falando merda, mas Radio Silence bate bem perto da realidade, e é legal ver o impacto de hate e de fandom na vida dos personagens. Isso sem ser nenhum tipo de "mensagem sobre a internet!!!". Não, é só que Frances vive na mesma época que a gente, e a internet e tudo o que a gente vê por aqui é uma parte da vida dela. Ponto.  

trecho
"Eu meio que quero dizer algo antes que a gente continue.
Você provavelmente pensa que eu e Aled Last vamos nos apaixonar ou algo. Já que ele é um garoto e eu uma garota.
Eu só quero dizer-
Nós não.
Isso é tudo."

Meu capítulo preferido - o momento que a personagem para a história pra jogar na nossa cara que não é só porque tem um garoto e uma garota e eles são amigos, que eles vão se apaixonar. 

Eu não sei nem o que tem na história em si, porque não é uma aventura do tipo VAMOS SALVAR MEU AMIGO. Mas são várias linhas narrativas como pequenos mistérios - ela vai conseguir entrar pra faculdade? o que aconteceu no passado dela? como vai ser a amizade dela com o Criador? 

E enquanto nós vamos descobrindo, nós aprendemos sobre a vida dela na escola, sobre algumas pessoas ao redor e merdas acontecem. 

trecho
"Eu tenho certeza de que você acha que eu estava reclamando de nada demais. Você provavelmente pensa que eu sou uma adolescente chorona. E sim, tudo isso estava só na minha cabeça, provavelmente. Isso não significa que não era real. Então vai todo mundo se foder."

Um dos meus quotes preferidos, nem lembro sobre o que é, mas tinha algo deixando a Frances mal e seria algo que gente idiota viria com o típico "mas tem gente sofrendo mais no mundo" ou "é bobeira se importar com isso", e essa é a resposta. Parem de desvalidar sentimentos das pessoas só porque não são importantes pra você 2k16, Parem de desvalidar o que adolescentes sentem 2k16, Parem de desvalidar adolescentes 2k16. 



Eu não sei. Eu sei que eu estava procurando um livro pra ler, um que fosse desses tão bons que você não quer parar, e Radio Silence foi isso. De algum modo, a história reflete bem o momento de "o que fazer com a minha vida?" que surge quando você está terminando a escola, e também fala disso em um nível mais pessoal, voltado pra o "quem eu sou?" Eu não sei explicar, mas é como se quando você tivesse na escola, às vezes você não fosse você. Você tivesse essa versão de você que tá na escola, mas é separada de "quem você é", por uma mistura de razões. Às vezes você tem vergonha de falar o que gosta, ou existe aquela expectativa dos 18 anos - o momento que você vai ser adulto e, finalmente, ser dono da própria vida! 

Eu tô me sentindo velha agora, mas acho que uma das maiores mudanças entra os 17 e os 24, pra mim, é a forma como a gente leva a sério regras sociais e "adultos". Eu nunca levei a sério pra valer, mas existe um certo medo que vem de não entender realmente o outro lado. Existe aquilo de achar que você precisa se encaixar, ou ser alguém. 

Acho que a melhor maneira de explicar isso é calouro da faculdade vs. veterano. Calouro tira xerox de tudo, se preocupa com nota, tem medo de faltar, compra material escolar e só falta perguntar se pode sair pra ir ao banheiro. Veterano chega no último de aula só pra fazer prova e ainda pede caneta emprestado. E essa preocupação como um todo, que vem da escola, é algo que muita gente carrega nesse período e acaba escondendo quem você realmente é.



Então Radio Silence também aborda esse processo de encontrar a liberdade pra gostar do que você gosta, e pessoas que gostam do que você gosta, e descobrir que a vida não precisa seguir um roteiro.

Preciso comentar que "Aled Last" É UM NOME MUITO BOM. Diversas vezes durante a leitura eu corri pra o twitter e pesquisei nomes como "Aled Last", "Universe City" e "Radio Silence" pra ver se tinha alguém gritando porque FDSSOISOAIP. (o sistema de pesquisa do app do twitter é uma merda, me deu todos os tweets que alguém escreveu "Last", ou seja...). 

trecho de Universe City
"Há muito tempo uma terrível predisposição para nunca dizer uma palavra tem me afligido, e honestamente eu não consigo entender por que ou como isso aconteceu. C'est la vie."



Os personagens também são muito parecidos comigo, de diversas maneiras. Dá até um pouco de medo.

E no final acontece umas coisas tão legais que eu tava FDSHJUASOAAPASKASKDASOSAKSAOk quase jogada no chão. 

Enfim, esse é um YA contemporâneo que eu indico muito. Infelizmente, não tem em português. Ainda não saiu nem nos EUA (é da Inglaterra). Mas se você puder ler, faça isso. 




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Agora eu envio o Batdrama por email, só se inscrever nesse link. Falo sobre vida, cultura pop, representatividade, escrita e... aparentemente sobre os livros que eu estou lendo além da resenha. 

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