Bahia Carol Cardozo

Notas Brasileiras #16 - Levante!

29.9.16Carol Cardozo



Criada em 2013, em Salvador (BA),  durante as grandes manifestações em que a população foi às ruas contra (inicialmente) ao aumento das passagens de ônibus, a banda Levante! vem com um propósito maior do que apenas fazer música; eles querem questionar os valores atuais da sociedade e propôr novos jeitos de pensar e se comportar.

O nome Levante! tem variados significados: o verbo no imperativo, pode ser entendido como um chamamento à ação, ao movimento; Significa ainda "motim", "revolta"; Por fim, guarda também o sentido de "Oriente", "Leste", o ponto cardeal do sol nascente. E é desta "nascente revolta imperativa" que surge esta banda, cujo objetivo principal é contribuir para revolucionar as mentes e a sociedade, por meio de mensagens de busca por uma nova consciência ao seu público.

Eles participaram do WebFestValda esse ano e ficaram em terceiro lugar, entre centenas de bandas independentes inscritas. Então não é pouca coisa não. Eu e meu namorado ficamos absolutamente hipnotizados com aquela banda que chegou chutando a porta cantando Gonzaguinha, tudo o que eu queria saber era "CARALHO, QUEM SÃO ESSES CARAS???".

 Nós conversamos com eles, vem saber mais um pouco sobre a banda e suas influências.


1 - Como vocês definiriam sua música para alguém que nunca ouviu? 

Nossa música mistura algumas das influências mais fortes que tivemos ao longo de nossas vidas, resultando num som que, segundo quem escuta, se torna surpreendente e dinâmico devido à variação de ritmos envolvidos. Somos uma banda que canta rap, pela estrutura lírica e pelos temas que abordamos nas letras, com rock’n’roll, funk, samba, reggae, baião e até mambo. Agregando essas influências, o resultado é o som da Levante! . 


2 - Dentre as suas músicas, qual sua favorita? 

Apesar de ser um clichê, essa é uma escolha muito difícil de fazer, pois sou muito grato ao Universo por cada música que brotou da inspiração e pelos arranjos maravilhosos desenvolvidos pelos músicos. Numa escolha arbitrária, vou ficar com Procedimento Padrão, por ter nascido de uma experiência concreta que nós sofremos na praia do Porto da Barra, em Salvador-BA, e ser uma fala, um grito que ficou entalado na garganta naquele momento. Virou música e ficamos muito felizes de ter sido ela a nos levar para a Fundição Progresso e ao 3º lugar no WebFestValda 2016. 


3 - Como a banda se juntou? 

Eu (Valente) trabalho como professor de História e fazer música profissionalmente era apenas um sonho. Em setembro de 2013, esse sonho começou a se realizar quando May Pitanga (guitarrista e cofundador), um então conhecido distante meu, estava encerrando um projeto musical de 7 anos, mas não queria parar de fazer som. Fomos colocados em contato e fundamos a banda apenas nós dois. A partir daí, com seu conhecimento da cena musical alternativa de Salvador, May foi convidando músicos para o projeto, até que após algumas formações, chegamos a essa atual, que é um time que está junto há apenas seis meses, mas já mostra que veio pra um trabalho duradouro. Nossa chegada ao Aldeia Coletivo Cênico, grupo de atrizes, atores, músicos e compositores sediado no Largo Dois de Julho, no Centro Antigo de Salvador, foi determinante nisso, pois amadurecemos nossa musicalidade com a realização do desejo antigo de termos vocais femininas e trazer a percussão ancestral para nosso som contemporâneo. Nesse amadurecimento, passamos a ter concepção de maquiagem, feita por Thiago Romero, figurino e direção artística, assinados por Luiz Guimarães, e hoje vemos o quanto isso faz diferença em nosso trabalho.


4 - Como foi o processo de definir a sua identidade sonora? 

Esse foi um processo que nunca nos preocupou, porque aprendemos com nossos grandes mestres da Música que não há fronteiras para a poesia e para a música. Nossas composições acontecem de forma muito orgânica, espiritual, e isso se deve à sintonia fina que existe entre eu, que componho as letras, e May, que capta a essência do que está dito ali e “traduz” para a linguagem musical. Assim, damos à música tudo aquilo de que gostamos, que temos em nós e que sentimos que cada música pede. Então, terminamos sendo uma banda que toca estilos variados e,ainda assim, ou talvez por isso mesmo, tem uma identidade sonora que o público consegue identificar.


5 - Uma lembrança querida da carreira? 

Temos uma carreira relativamente curta, com 3 anos (setembro de 2013), mas nosso primeiro show foi mais de um ano depois, em novembro de 2014. As estreias têm sido muito marcantes pra nós: a primeira apresentação, cantando três músicas no festival Desafio das Bandas 2014, no Portela Café (conceituada casa de Salvador); O primeiro show “à vera”, abrindo a noite para uma banda que nós acompanhamos desde a adolescência e que nos influenciou muito a fazer som, a banda Scambo (banda baiana participante do programa SuperStar, da Rede Globo, em 2015); mas sem dúvidas, o primeiro show da gente fora de Salvador, em pleno Rio de Janeiro, no último dia 08/07, na Fundição Progresso, Lapa, sentindo o calor do público carioca e ainda, de quebra, levando o 3º lugar do WebFestValda 2016, é a lembrança até agora mais querida. Acreditamos que vamos viver muito mais futuras lembranças queridas nos próximos tempos! 


6 - Qual vocês acham que é a maior dificuldade do cenário musical brasileiro atualmente? 

Sinceramente, a gente não gosta muito de pensar em dificuldades, embora saibamos que elas existem. Diante das dificuldades que a maioria esmagadora do povo trabalhador brasileiro sofre cotidianamente, ganhando salário mínimo, a juventude das periferias sem direito a sonhar, sem perspectivas de futuro, as dificuldades de quem sofre com a violência urbana, com o medo, com as consequências nefastas da corrupção endêmica de nosso sistema político, não enxergamos o cenário musical como algo à parte. Acho que conseguir chegar aos ouvidos, corações e mentes do público é um desafio, mas temos tido ouvidos generosos e atentos por onde passamos. Poder ganhar nosso pão, nossa habitação e nossas condições de dedicar mais tempo à arte que amamos, mostrando nossa identidade, aquilo que pensamos e que sentimos necessidade de partilhar com mais pessoas, é o projeto de vida. A labuta é diária e constante e estamos nessa disposição. 


7 - Uma banda nacional que vocês acham que todos deveriam ouvir? 

De novo, tem que ser uma só? (Risos) Só no WebFestValda, conhecemos o trabalho de 20 bandas nacionais incríveis! Poderíamos falar de algumas bandas baianas que amamos também. Mas acho que as pessoas ouvem aquilo de que gostam, aquilo que sua alma pede naquele momento. Então a questão é, ouçam sua alma, seu coração, não deixem a vida corrida lhes alienar de si mesmos, porque os prejuízos disso são às vezes irreparáveis. Quem nos ajudou a entender isso foram artistas como Criolo (SP), Síntese (SP), Inglês (SP), BNegão (RJ), Black Alien (RJ), Medulla (RJ), Irmandade Brasmorra (BA), Scambo (BA), entre muitos outros. Numa só, escutem os Novos Baianos, que representam a alegria brasileira num tempo de chumbo, pesado, que foi nossa Ditadura Civil-Militar. Mas sem preconceito, escute aquilo que te leva além, que te tira do comodismo, que te dá um Levante!


Você pode conferir mais do som do Levante! no canal do youtube deles, na página do facebook, no twitter e no instagram.

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