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Clube de Escrita: Quando o seu cérebro quer planejar, mas você precisa escrever

28.9.16Dana Martins


Não é NaNoWriMo, mas eu tô escrevendo, então VAMO TIRAR O CLUBE DE ESCRITA DA GAVETA. Esse texto, na verdade, eu ia enviar no Batdrama, mas acabei entrando numa análise sobre como as histórias fluem, e decidi trazer pra cá.

O que eu vou falar aqui é que às vezes você sabe o quê vai contar na história, porque você planejou, né? NESSE CAPÍTULO ACONTECE ISSO. Aí você sente pra escrever e tudo é uma merda. Os diálogos não fluem, tudo parece um tédio, e tu nem sabe mais pra que tá escrevendo. Qual é o propósito?

Antes de qualquer coisa, histórias são como uma viagem, você mergulha nesse momento criado de palavras e vai embora - e no meio do caminho absorve as informações. Mas o que acontece quando você sabe as informações, mas não tem a magia?



Vamos lá. EU TERMINEI UM CAPÍTULO DA HISTÓRIA, OK. E aí tive uma crise existencial-de-escrita enorme e a história inteira está passando por uma prova de fogo, e eu estou tentando escrever mais, e tá difícil.

Tá difícil porque parece que a história não faz sentido e eu não sei escrever. Sei lá, sabe quando você vai ler uma história? E aí as coisas acontecem na cena, e... e... é simples. 

E eu tava lendo uma aqui, e o capítulo é basicamente: a personagem tá entediada no escritório no meio da tarde até que uma jornalista liga enchendo o saco pra ela investigar uma pichação. MAS O CAPÍTULO É TÃO BOM. 

EU SEI QUE É BOM PORQUE EU MORRO DE TÉDIO RELENDO COISA E EU RELI E ME PERDI NA HISTÓRIA OUTRA VEZ.

E é o primeiro capítulo, então tem descrição do ambiente, tem toda aquela parte de exposição pra te dizer quem são os personagens, o que eles tão fazendo ali, por que eles estão ali. Mas é tudo tããão natural e divertido. É bom de ler. Você absorve as informações sem perceber. Você quer ler mais.

O que eu quero dizer é que quando você planeja, ou quando você reflete sobre o que quer dizer em uma história, você sabe o que quer dizer (ex: a personagem é chamada pra investigar uma pichação), mas entre o "o quê" e o "como" tem um loongo caminho. 

Por exemplo, li um capítulo de outra história também. A qualidade de escrita dessa é bem inferior (mas ainda tô aqui ATUAALIZAAA PUFAVOOO). Nessa é interessante que a maior parte da história é diálogo, e ainda assim tem "ação" da história se transformando.

O capítulo em questão já é no meio da história, e acho que é sobre "como a amizade delas vira amor". É isso. Um capítulo inteiro pra "epa, eu gosto dessa pessoa".

Começa com elas na biblioteca conversando, onde uma convence a outra a ir num jantar com a sua mãe. Aí o jantar. E depois um dia aleatório semanas depois que as duas estão assistindo filme no sofá. (vou até ver como faz essa transição, mas é natural)

Enfim, tem as 3 mudanças de cenário, mas é tudo diálogo - elas sentadas na biblioteca e bla bla bla, elas sentadas no restaurante e bla bla bla, elas sentadas no sofá e adivinhe só? bla bla bla. 

Fui ver agora, e as 3 cenas são ligadas pela conversa. Na primeira, a questão do jantar. No jantar em si, o que acontece é que a mãe pensa que elas estão namorando (Fake Date 101), e na última é sobre a personagem pegar essa sementinha do mal (pera aí, a gente parece que tá namorando?) e questionar sozinha o que tá acontecendo. Aliás, isso é muito bem feito. 



No primeiro diálogo (LIVRARIA), por exemplo, elas estão estudando, e já é uma continuação do anterior porque a história se desenvolve a partir delas estudando juntas, e até a leve briguinha delas de uma querer estudar e a outra ficar falando. Por cima da briguinha, entra a motivação da conversa: chamar a outra pra o jantar. Enquanto elas discutem o jantar, entra a camada de "exposição" que é as personagens falando sobre as próprias mães e diferenças, que é o que a personagem usa pra convencer a outra a ir no jantar - "minha mãe é chata pra caramba e só quer saber dos meus estudos, ela não é igual uma mãe comum que pergunta se você tá bem, etc." Parece só exposição, mas aguenta firme.

(1 segundo de pausa: além dessas 3 camadas, tem outras partes de caracterização das personagens e coisas que já vem ao longo da história, mas essas são as principais)

Aí no segundo (JANTAR), entra a questão da mãe achar que elas estão namorando (gancho pra próxima parte), e aí na conversa, a convidada lembra do que a garota disse sobre a mãe e enfia na conversa indiretas, fala como ela tá, fala de coisas que não sejam estudos, tipo ver filmes juntas (gancho pra próxima parte 2). E você tem aí também o desenvolvimento da personagem - você vê que ela prestou atenção na conversa 1 e se importa com a outra. 

No terceiro (FILME), você tem uma cena no geral muito fofinha, onde a personagem começa a questionar as divisões entre amizade/romance. Ou seja, por mais que seja uma cena vinda do além em um dia semanas depois, existe essa conexão temática com as 2 anteriores. Em termos de timeline, e de eventos, são coisas bem diferentes, mas de história em si, é uma só. Você vai do "Tu vem comigo?" pra o "Hm... por que vocês tão juntinhas?" pra o "Ih pqp tá explicado o que tá acontecendo". 

Além disso, a maior parte acontece no diálogo em uma discussão entre elas sobre o que significa ter Borboletas, e você vê pela maneira como uma fica puta que ela tá gostando da outra e tá percebendo que não é recíproco. Além disso, tem toda uma zoação por causa do filme, por causa de jogos, etc.

Ou seja, no geral, tanto essa história quanto a outra que eu falei - são simples em termos do que acontece. Mas... é simplesmente legal o que acontece, como acontece, e você vê vários dados sendo adicionados e desenvolvidos com naturalidade.

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Me pergunto se alguém escreve, conscientemente, planejando todos esses detalhes. E eu acho que talvez esse esteja sendo o meu problema pra continuar escrevendo a história.

É que... é como se existissem dois modos de enxergar a história. O modo analítico, consciente, que consegue ver todos esses detalhes que eu falei em cima. 



E o modo "relaxa e vai", que você não faz ideia do que tá fazendo, mas você tá fazendo e tá gostando. É quando você entra na cena, vive na história e ela passa pela sua cabeça como um filme. 



As duas são importantes, uma ajuda a outra, MAS NÃO AO MESMO TEMPO. E cada uma tem que vir na hora certa. 

Eu passei um tempão com o modo analítico ligado, planejando a história, lendo o livro, aprendendo coisa. Mas não é ele que vai escrever agora. Com o primeiro capítulo funcionou, porque ele já tava 90% escrito, ele precisava mesmo só do lado analítico passando o rodo e consertando. O segundo capítulo tinha 0,2% escrito, e aí foi um caos. Eu consegui escrever uns 70% dele. E alguns momentos foram bem legais, mas no geral ainda tá "pra que essa merda?"

Eu acho que agora eu tenho que abstrair, jogar tudo o que eu aprendi sobre a história no liquidificador mental, e deixar as coisas rolarem. Escrever a cena porque deu vontade e é legal, não porque tem que cumprir uma função.

*respira fundo* escrever é coisa de maluco. é tudo na sua cabeça e você tem que fazer uma bagunça mental pra encontrar a forma de pensar que vai te fazer colocar palavras no papel 

talvez pra alguém seja fácil. eu com certeza não sou esse alguém

(mentira, na última semana eu escrevi um trecho muito legal sobre uma história de piratas. e também ontem mesmo escrevi um capítulo do apelidado "HSAU losers do teatro" que foi fácil. do tipo que você nem pensa o que tá fazendo, só faz. mas por mais que momentos assim existam, eu acho que não dá pra "viver" disso. isso não funciona pra histórias maiores, onde inevitavelmente você vai encontrar uma porção de momentos errados. isso não funciona pra aprender melhor, e ter controle sobre como você escreve. eu não quero dizer que é impossível, porque se funciona pra você - vai em frente. mas pra mim não. ou... eu não vou ficar sentada esperando esses momentos chegarem porque eu quero terminar as minhas histórias.) 

dito isso, deus me ajude essa semana. no geral, as coisas já estão bem melhores. e eu espero que eu volte aqui com pelo menos 3 capítulos terminados, e as coisas no lugar.

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