Aghata Souza CCdiário

O que é a heterossexualidade compulsória?

30.8.16Colaboradores ConversaCult


Quando fui pedida para escrever este texto, confesso que fiquei meio perdida sobre o que escreveria. Um filme da minha vida passou pela minha cabeça. E é um tema que já externei para diversas amigas anteriormente. Mas, ainda assim, colocar em palavras me parecia uma tarefa complexa. Ainda o parece, a bem da verdade. Porque falar sobre heterossexualidade compulsória implica em relatar minha experiência pessoal. Implica em escrever uma realização que tive sobre eu mesma durante os últimos anos. Por onde eu começo? Como eu começo a falar disso? Ora, pois, vamos então começar pelo início.

Quando eu estava adentrando a adolescência, me recordo de assistir ao seriado “Buffy, a caça vampiros” com meus pais. Neste seriado, existia um casal lésbico. E, por incrível que pareça, aquela foi a primeira vez que vi que poderiam existir belos relacionamentos entre duas mulheres. Aquilo, de certa forma, me chamou atenção, me intrigou. Porém, podia ser apenas curiosidade. E por ter sido uma menina que desenvolveu interesse romântico e sexual “tardiamente”, nesta idade eu não me interessava em relacionamentos ainda.


Poucos anos se passaram e comecei a notar que eu sentia atração por outras meninas, e não por meninos. Por acreditar que aquilo era errado, tentei me convencer que não era nada daquilo que eu estava pensando. Comecei a questionar minha própria sexualidade por volta dos 14, 15 anos. Para resumir toda a minha trajetória nos últimos 10 anos: Eu basicamente reprimi quem eu era, me convenci de que era “errado” e me forcei a gostar de homens. Sim, me forcei. Soa pesado quando ponho nestas palavras, porém foi o que aconteceu. Me forcei a ser heterossexual. 

Até a pouco tempo, quando comecei a fazer terapia e desenterrei essas memórias, eu realmente acreditava que era hétero. Tomei isso como verdade, chegava até mesmo a acreditar em “heterofobia” e me sentia ofendida sempre que achavam que eu era lésbica (e olha só, todas essas pessoas tinham razão, não é mesmo?). Quando finalmente percebi que não havia absolutamente nada de errado em não ser hetero e me aceitei, inicialmente me declarei bissexual. Não para ter qualquer “passabilidade”, mas sim por realmente me identificar com a bissexualidade. Pois eu havia acabado de aceitar que eu gostava também de meninas, mas não deixava de gostar de meninos, não? Então, a conclusão obvia era: Sou bissexual!


Pois bem, algum tempo se passou, me assumi para amigos e família. Felizmente, estou cercada de pessoas maravilhosas que não só aceitaram e respeitaram, como também festejaram e ficaram felizes por eu ter me aceitado e desabafado. Aparentemente, todo mundo já sabia que eu beijava meninas, menos eu (risos). Este acolhimento foi o passo final para que eu me aceitasse completamente. E, como num passe de mágica, no momento em que eu realmente me aceitei plenamente, eu não senti mais atração por nenhum homem. Tá, ok, não foi um passe de mágica, foi gradual. A cada dia que passava, menos interesse eu tinha, menos eu sentia vontade de ficar com homens e mais me sentia atraída por mulheres. E me dar conta disso, me levou à reflexão: Será que sou mesmo bissexual? 


Veja bem, eu não estava tentando me encaixar em nenhum rótulo, estava tentando apenas me entender. Foram dias, semanas de conversas, auto-reflexão e terapia para que enfim eu pudesse dizer: Ok, eu sou lésbica. Quando me identifiquei como bissexual, ainda havia vestígios da minha “forçação de barra” para ser hetero. E foi só recentemente que fui ler sobre a heterossexualidade compulsória e tudo finalmente fez sentido. Estamos inseridos em uma sociedade que nos impõe diversos padrões, dentre eles a heterossexualidade. E que marginaliza e exclui quaisquer pessoas que fuja deste padrão. Somos empurrados a diversos estereótipos devido ás nossas genitálias desde o momento em que nascemos. E um desses estereótipos está também relacionado a com quem iremos nos relacionar. Sem questionamentos, pessoas com pênis devem ter relacionamentos com pessoas com vagina e fim. 

Este padrão nos é construído a vida toda, então é completamente natural que o busquemos (assim como diversos outros). E foi isso o que me aconteceu, é isso o que acontece com várias pessoas todos os dias. Esta busca por este padrão “heterossexual” é a tal chamada “heterossexualidade compulsória”. E agora, com os pensamentos em ordem, posso de fato afirmar: Eu nunca fui hetero. Eu nunca fui bissexual. Eu sou e sempre fui lésbica.





Sobre a autora: Aghata Souza, 25 anos. Cientista por formação, professora por vocação, maquiadora por amor, feminista e lésbica.






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2 comentários

  1. Ahazouuu
    Eu também tive isso por um tempo, era tanta barra forçada para ser hetero que primeiramente me vi como bissexual, após isso minha "atração" por mulheres diminuiu tanto que eu tenho orgulho de dizer que gosto apenas de homens e ponto final. Tudo é um processo. Adorei o texto, me vi muito nele!
    beijocas

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  2. nossa 2016 e a bi-erasure continua a todo vapor

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