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O que a Madonna nos ensina sobre liberdade sexual

13.2.16Colaboradores ConversaCult



Falar de Madonna é sempre muito delicado. Eu gosto de escrever, mas é uma responsabilidade escrever sobre minha singela interpretação de algo tão grandioso quanto um trabalho da rainha da pop music

Poderia ter escolhido falar do álbum recente Rebel Heart (2015), do meu álbum preferido Like a Prayer, de 1989, ou do queridinho por boa parte dos fãs da cantora, o disco de 1998 Ray of Light... Mas não.

Talvez pelo meu gosto por “aventuras”, decidi falar de algo totalmente “quebra-padrões”: o primeiro álbum conceitual e, infelizmente, o primeiro “fracasso comercial” de Madonna, o álbum Erotica, de 1992. Antes de tudo, peço aos fãs aficionados pela queen (como eu) que não levem a mal o que eu disse. 

Esse foi o primeiro álbum dela ao qual a família tradicional norte-americana não reagiu bem ao lançamento como um todo (como se eles não fizessem tudo aquilo sobre o que ela fala no disco... Enfim), se comparado aos seus antecessores, que causaram polêmica, mas nada comparado ao que estava por vir. Mas seu marco é ainda maior pelo seu impacto cultural e pelo seu pioneirismo. Pode-se dizer que, para a cultura pop, Erotica ficou para a posteridade.

Seria impossível apresentar uma interpretação de algo tão conceitual sem tentar dar uma pincelada no seu plano de fundo e mesmo nos trabalhos que o antecederam, então, é impossível ignorar isso ao falar de Madonna ou de sua carreira. 


FLASHBACK: O ERÓTICO NA CARREIRA DE MADONNA VERSUS A FAMÍLIA TRADICIONAL AMERICANA

Como o título do disco já delata, a temática mais recorrente em Erotica é a sexual. Não foi, no entanto, a primeira vez que Madonna usava dessa temática em sua expressão artística, causando polêmica. Podemos dizer que ela a acompanhou desde os primórdios da sua carreira (lembra-se de Like a Virgin?). O primeiro questionamento que vem na direção de quem não está tão imerso no trabalho de Madonna é: o que fez ela de tão diferente da Miley Cyrus, da Britney ou da Beyoncé

Muito além da resposta clichê “ah, Madonna é a rainha! Ela fez isso antes delas, afinal, ela pode, né?!”, vem algo para onde se deve apontar. Madonna não foi tão somente a primeira a posicionar-se livre e publicamente sobre o assunto em sua obra. Ela ousou ser a primeira. Ela enfrentou a hegemonia masculina musical, cultural e social de sua época para firmar seu trono. Chamá-la de “Rainha do Pop” não faz dela, como muitos dizem, uma “versão feminina do Michael Jackson”, porque isso seria reduzir demais a sua competência artística a mera reprodução da masculina, não? Por isso, Madonna foi, ainda, a porta de entrada para muitas das discussões contemporâneas acerca do sexismo. 

Madonna em foto por Steven Meisel
Em 1990, foram para as lojas dois lançamentos de Madonna: a trilha de músicas do filme Dick Tracy, chamada I’m Breathless, e a coletânea de maiores sucessos The Immaculate Collection. Ambos os discos possuíam uma faixa com a temática sexual explícita. Na trilha do filme, está Hanky Panky, que falava sobre sado-masoquismo, e na coletânea, mais especificamente Justify My Love, Madonna vai mais longe, pedindo, ainda que de maneira romântica, que seu amante faça valer seu amor por ele. 


EROTICA: UM ÁLBUM CONCEITUAL

A diferença substancial é que, em 1992, Madonna vai direto ao ponto e não faz mais uso da sutileza. Ela quer “justificar seu amor” indo direto ao ponto e disposta a ensinar o seu parceiro como é que se faz. Ela toma as rédeas da situação.

O álbum foi lançado em 20 de outubro de 1992. Um dia depois, foi às lojas o livro de fotografias da cantora, apropriadamente intitulado Sex. A procura (curiosidade, eu diria) pelo livro foi tanta, que hoje ele se tornou um ícone de colecionador. Ao redor do mundo, pessoas pagavam para folheá-lo, ainda nos estandes, mas discretamente, pois as imagens pareciam chocar as “pessoas de bem”. Ao lado desse pacote audiovisual, estava, ainda, o lançamento do filme Corpo em Evidência (1993), que causou polêmica pelas fortes cenas de sexo protagonizadas por Madonna. Infelizmente, discutir o filme nesse pacote tornaria a discussão grande demais para este post. 


Imagem promocional do filme Corpo em Evidência (1993), que tem polêmicas cenas de sexo de Madonna

Considero que Erotica e Sex formem um complemento um para o outro. O livro se completa nas canções e as canções ganham forma nas fotografias, que são sofisticadíssimas, em cliques feitos pelo parceiro de Madonna, o renomado fotógrafo Steven Meisel. Um adendo: em suas edições, o livro é embalado em um plástico que nos lembra um preservativo, pois, ainda em seu conteúdo, Madonna declara-se defensora da prática de sexo seguro (em 1992, a AIDS assolava o mundo, causando centenas de mortes ao redor do planeta. Falar de sexo, naquele período, se tornava ainda mais arriscado).

Imagem do Sex, o polêmico livro de Madonna. Imagem encontrada na Internet.



MADONNA E O AUDIOVISUAL

No álbum e no livro, Madonna encarna uma personagem de nome Dita, inspirada na atriz alemã Dita Parlo, famosa pelo filme O Atalante, de 1934, considerado por muitos um dos melhores filmes de todos os tempos. A fictícia Dita é uma dominatrix. A ousadia é a palavra para definir as imagens, que, nas palavras da própria Madonna, “´[...] são fantasias que criei. [...] Qualquer semelhança entre personagens/acontecimentos descritos no livro e pessoas/acontecimentos reais não seria apenas mera coincidência, mas uma bobagem. Nada nesse livro é verdade. Tudo faz parte da minha imaginação”. (MADONNA, 1992). Ou seja, o livro é estritamente ficcional, embora possamos perceber conhecimento de causa por parte de Madonna. 

by Steven Meisel


FOTOGRAFIA COMO UM COMPLEMENTO

As imagens de Sex começam em preto-e-branco e, conforme o livro avança, assumem tons pastéis, que nos remetem a fotos antigas. Ora Madonna aparece caracterizada como dominatrix, ora aparece com um visual à la Marilyn Monroe, ora as duas juntas.

by Steven Meisel

by Steven Meisel

Olha o Vanilla Ice aí! :-P
Foto por Steven Meisel


O que enriquece o livro são relatos e  trechos de cartas (redigidos por Dita, ou por Madonna). Os relatos são ousados e bastante íntimos e demonstram pouco pudor em relação a práticas sexuais. Tampouco as imagens. Para Madonna (ou Dita), não há pudores. Há desejos, há realização. 

by Steven Meisel

Nesses relatos e cartas, Madonna fala sobre experiências sexuais que Dita teve, como sua primeira menstruação, sonhos eróticos etc. Dita tem um amante, de nome Johnny, que está sempre viajando, mas ainda assim povoa os sonhos proibidos para menores da musa. Enquanto Johnny viaja, Dita passa um tempo com uma amiga, Ingrid, e as duas têm experiências sexuais memoráveis juntas.





O ERÓTICO NA POP MUSIC DE MADONNA

A temática sexual poucas vezes foi trabalhada com tamanha maestria na música popular de uma maneira tão direta. Nesse álbum, Madonna trabalha com todas as formas de prática sexual, e formas de expressão pessoal, deixando livre a interpretação do ouvinte sobre muitos dos temas abordados nas canções. 
Engana-se, ainda, quem acha que as faixas do álbum contam somente com a temática erótica. Acima dela, ainda que nas entrelinhas, está a temática humana. Mais do que de tabus, o disco fala em pontos fracos das pessoas. Ao lado do prazer causado pela realização de uma fantasia sexual, há a prisão de não poder se libertar, há a tristeza da solidão. Prazer e dor caminham lado-a-lado, em muitos sentidos

by Steven Meisel


UMA RESENHA: O QUE É O EROTICA

No disco, Madonna flerta com sons diferentes dos quais estava habituada até então, como um novo estilo de dance music (voltado para o eletrônico em alta na época) e temos ainda a presença de elementos do hip-hop e do swingbeat. Madonna parecia ter um olho clínico capaz de saber qual seria a tendência e ditá-la, em vez de simplesmente segui-la.

by Steven Meisel

De quatorze canções, seis foram escolhidas como single. Essas seis sintetizam bastante a ideia do álbum, sendo tomada como referência para ser representada nas fotografias de Sex. Os singles foram mais bem-sucedidos comercialmente, se comparados ao álbum em si.




Erotica foi a primeira música de trabalho do disco e por onde já pode se ter ideia do que está por vir. Dita não poupa seu ouvinte, ao dizer com clareza que será sua dominadora e irá ensiná-lo tudo o que sabe, num misto de prazer e dor. 
Há duas versões para o videoclipe de Erotica: a não censurada, que é facilmente achada na Internet, e uma com cenas mais explícitas, tiradas do making of das sessões fotográficas de Steven Meisel. Esse making of transformou-se em um filme, gravado em 8 mm, em preto-e-branco e em tons pastéis, por Fabien Baron.

Aviso exibido antes da versão censurada de Erotica, que faz piada com os desejos reprimidos de quem se ofende com o teor sexual do vídeo
Madonna, no filme originado dos bastidores das sessões fotográficas do Sex. Filme por Fabien Baron.


O segundo single foi a faixa dance Deeper and Deeper.  A sua genialidade está na liberdade de interpretação. Há quem diga que a música trata de liberdade sexual, mas há quem jure de pé junto que se trata de alguém que, criado em um ambiente conservador, “assume” sua homossexualidade. Há versos que dão liberdade para os dois sentidos, como “Never gonna hide it again” (“Nunca mais vou esconder isso”), e “"All is fair in love,” she said / “Think with your heart, not with your head” (“Ela disse: “Tudo é válido quando se ama. Pense com o coração, e não com a cabeça”). Confesso que, pensando pelos dois lados, a música é boa. Não consigo achar uma interpretação melhor. E você?




Bad Girl é uma faixa que, apesar do título, foge um pouco da temática erótica do álbum. Nessa música, Madonna assume o papel de uma mulher que, após terminar um relacionamento, está na bad e vai procurar distração na balada, bebendo, fumando e se relacionando sem compromissos, mas não se sente confortável ao fazê-lo. #quemnunca




Fever, clássico do R&B que, na voz de Madonna, ganhou um arranjo dance. Fala sobre aquele “calor” que as pessoas sentem ao ver a pessoa na qual estão interessadas. (Ok, tentei ser discreto, aqui, rs!) Confira uma apresentação ao vivo de Fever direto da Girlie Show, que foi a turnê do Erotica:




Rain: uma faixa que também nos dá a chance de ser interpretada conforme o momento. Pode ser interpretada como uma música romântica, embora fale de desencontros amorosos, mas há, ainda, trechos que remetem a uma metáfora para o ato sexual. Com elementos dance e mesmo do europop, é uma faixa deliciosa.




A última faixa do disco a ser trabalhada foi Bye Bye Baby, que volta a falar do lado humano de Madonna (ou será de Dita?). Após um término de relacionamento, ela não quer mais voltar, pois seu parceiro já teve outras chances e não fez por merecê-las. Já era! Olha Bye Bye Baby na Girlie:




Outros pontos altos do disco: As ousadas Where Life Begins e Did You Do It?, a sincera Thief of Hearts e o desabafo In This Life. Você pode ouvir o álbum completo aqui, por meio do Spotify.


A imagem usada como capa do Erotica. Linda, né?!


CONCLUSÃO

Você deve estar se perguntando: por que devo levar isso em consideração e ouvir o álbum? Eu diria “porque você vai se identificar”. Não creio que, como muitos da mídia disseram à época, Madonna queria pura e simplesmente causar, ou tornar um tabu chic. Falar em sexo durante um período de epidemia de DST exigiu compreensão, coragem e ousadia, e esses dois outros adjetivos não faltaram para Madonna, mas o primeiro faltou para o seu público. Madonna, em 1992, estava com 34 anos, idade que, para a formação ortodoxa da sociedade, pedia casamento estável e sexo só “entre quatro paredes”. Mas Madonna foi longe. Talvez, para aquele público, ela tenha ido demais. Para mim, foi ao ponto certo.


Uma foto publicada por Madonna (@madonna) em



À época do lançamento, em entrevista ao apresentador britânico Jonathan Ross, Madonna ainda falou em preconceito com mulheres de idade um pouco mais avançada, do quanto se esperava que elas agissem de certa forma em relação ao mundo e sobretudo em relação ao sexo. Parece que previu o futuro, pois, ainda hoje, a mídia trata sua rainha com sexismo e preconceito com relação à sua idade, colocando-a acima de seu talento e de sua energia.

Esse disco, junto do livro, são mais que um trabalho puramente musical e visual; eles tocam em feridas que ninguém costuma ousar tocar. É mais do que uma forma de chamar para ela mesma os holofotes do globo, ainda que ela afirme que houve, sim, esse intuito. É muito mais que falar 'eu, Madonna, posso’, mas sim, um ‘todas podemos’. É só botar o disco pra tocar e sair por aí expressing ourselves.


CONFIRA IMAGENS DO SEX
Por mais belas que sejam, não recomendo abrir essas fotos no trabalho, ok? :-P



 

 


E aí, o que você achou da resenha, do álbum e do livro?
Espero que tenha gostado.
Um beijo!
Jhonatan Zati



Sobre o autor: bom, meu nome é Jhonatan (mas não é Johnny), estudo Letras desde 2013, tenho 21 anos e sou um apaixonado por artes, principalmente por música e literatura. Entrei pra facul com um propósito, mas agora eu acho que quero ser crítico, daqueles que assistem e leem as coisas pra dar nota, saca? No mais, sou viciado em tentar perceber um contexto histórico-social por trás de tudo. Arrisco uns poemas e é por meio deles que tento alçar voos antes inimagináveis. É isso, acho. Indeciso, questionador e um pouco blasé. Prazer! :-)

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13 comentários

  1. Eu tive minha fase Fever.
    Madonna, Beyoncé, Nina Simone... Elvis. Não necessariamente nessa ordem. Todas elas devidamente contextualizadas. Foi a melhor lembrança que vocês poderiam me dar, obrigado.
    Entretanto, é bom ouvir Rain. De novo, e outra vez.

    Madonna tem algo que muitos tentam ter e a alma é um preço baixo a pagar:
    Ela é única.

    [como cada um de nós, mas ela lembra - e nós lutamos diariamente para não esquecer.]

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  2. Lembro que quando esse álbum saiu, minha mãe não quis comprar porque viu a foto da contracapa do CD, onde a Madonna chupa um pé. =P

    O livro Sex se chamaria, originalmente, X, mas como já existia o livro de Malcom X com esse nome, Madonna foi obrigada a mudar. Eu gosto muito do álbum inteiro, especialmente a versão remix de Fever. Me pareceu um álbum que quebrou os próprios padrões da Madonna, onde dali por diante ela sempre encarnaria uma personagem em cada álbum que viria adiante. Aliás, o Erotica, Bedtime Stories, Ray of Light e Confessions on a Dance Floor são meus preferidos.

    Rain é uma das músicas e um dos clipes mais bonitos dela. A música foi dedicada à mãe dela.

    Grande texto, muito bom!

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    Respostas
    1. Ahh sim, no álbum seguinte, Bedtime Stories, ela lançou o single Human Nature, onde ela deixa bem claro que não se arrependia de nada e que não sabia que não podia falar de sexo. =D

      Did I say something wrong?
      Oops, I didn't know I couldn't talk about sex
      (I musta been crazy)
      Did I stay too long?
      Oops, I didn't know I couldn't speak my mind
      (What was I thinking)

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  3. Escreve sobre a Melanie C e as Spice Girls, please!

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    Respostas
    1. Fã de Melanie C e Spice Girls?? Não sei quem é, mas já amo/sou

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  4. Cara, você com seus 21 anos diz o que venho dito desde a década de 90 (Erotica é meu album favorito por toda a construção conceitual e semiológica)...e é muito bom encontrar alguém que pensa parecido. Grande abraço.

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  5. Belíssimo texto, bem informativo, amo o álbum EROTICA assim como o livro SEX, tenho os dois e tenho como os itens mais preciosos de minha coleção.

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  6. Sempre amei Erotica, é um dos meus álbuns favoritos! Parabéns pela resenha e maneira coerente e verdadeira q descreve o álbum, até hoje achei que só eu tinha esta visão de MDNA e de Erotica! Bom encontrar semelhantes! ;)

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  7. Sempre amei Erotica, é um dos meus álbuns favoritos! Parabéns pela resenha e maneira coerente e verdadeira q descreve o álbum, até hoje achei que só eu tinha esta visão de MDNA e de Erotica! Bom encontrar semelhantes! ;)

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  8. Fico muito feliz em ler um texto que realmente coloca Madonna como uma artista feminina que em todos seus trabalhos tem algo a dizer e VC fez isso muito bem. Ameeiii

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  9. Madonna é o exemplo da ousadia. Continua quebrando tabus, causando polêmica e fazendo sucesso! Meu irmão, vc é top! Coloca tão bem seu ponto de vista!
    Eu sou suspeita gente... tenho orgulho danado dessa pessoa! Amei sua resenha!

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  10. Parabéns pelo post! Sou um grande fã de Madonna, amo o trabalho dela no Erótica e ao ler seu texto tive vários insights para um minicurso que vou dar sobre música pop e Estudos Culturais. =D

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    Respostas
    1. Flávio, aqui é o Jhonatan. Muito obrigado pelo seu feedback. Confesso que fiquei curioso para saber mais sobre seu trabalho. Muito boa sorte, um abraço

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