CCSociedade empréstimo linguístico

'Para de falar coisa em inglês, descaracteriza nossa língua!!!' Ou será que não?

28.9.15João Pedro Gomes



Já fui dessas pessoas que queria morrer quando tentavam ~nacionalizar alguma coisa que eu já conheço por estrangeirismo. Tipo, eu não queria escrever "xampu". Shampoo é tão mais bonito. Olha esse S, olha o O duplo no final. Olha essa desenvoltura, essa elasticidade da palavra. Coisa mais linda. X e U? Por favor, pare.

E nem vou falar da vez que fui fazer um concurso e mandaram a gente ver o resultado no """"sítio"""" www.algumacoisaquenãolembro.gov.br.

É sério mesmo? *respira*

É uma negação engraçada de se fazer, porque, teoricamente, as palavras significam a mesma coisa e o que muda é só o jeito de escrever. Seja aportuguesando, seja traduzindo literalmente, a língua deveria estar além desses julgamentos de valor. O pior é que pra responder a pergunta implícita ali em cima — por que eu não gosto de escrever "xampu" —, eu só teria argumentos não muito melhores do que "porque fica feio, porque eu não quero, porque não".

É daí que vem a percepção de que esse saudosismo linguístico tá mais pra uma consequência daquele gostar mais daquilo que vem de fora. Até a língua sofrendo com isso, perceba o tamanho da coisa.

Bom, eu não sou expert de influência cultural, e nem sei até que ponto isso é positivo ou negativo. Mas eu sei que algumas coisas me incomodam. Um exemplo: eu falando com alguém um dia desses (não lembro com quem ou sobre o quê), a pessoa começou a usar um monte de palavras em inglês no meio das frases. Palavras que estão muito abaixo da estranheza de "sítio" ou "ciberespaço" (que, por mais diferentes que sejam, tem uma razão compreensível) ou funcionalidade de "shopping" ou "reality show". O que ela fazia era trocar "incrível" por awesome, "estranho" por awkward e coisas no tipo. 

E daí que vem a questão: qual a razão disso? Não são praticamente as mesma expressões em línguas diferentes? O que ficar trocando só por trocar, pra soar diferente/mais bonitinho e legal (que é o que acontece em grande parte das vezes), diz sobre nós? 

Eu já tive discussões com uns amigos sobre como esse uso pode parecer elitista demais, mesmo sem ter a intenção. Porque, querendo ou não, a grande maioria do que a gente empresta linguisticamente vem do inglês/Estados Unidos/potência mundial superpoderosa. Então é inevitável que, ao usar cada vez mais dessas expressões, nós também nos aproximemos cada vez mais do poder vigente. 

Sim, é claro, você se aproxima do conhecimento de uma outra língua também, o que de forma alguma é ruim. E estar mais próximo ao poder também não é um pecado. Mas quando a gente passa isso pra um âmbito diferente, que deixa de ser por funcionalidade e passa a ser mais por capricho, pode surgir algum problema.

Imagina uma conversa com várias pessoas onde o conhecimento da língua inglesa é de níveis variados, e alguém que sabe mais começa a encaixar essas expressões no meio da conversa.

Já aconteceu comigo várias vezes, e a sensação de ficar excluído da conversa não foi legal

É uma coisa que eu me perguntei se não se repetiria com os marcadores do CC, por exemplo. Será que alguém já deixou de entender alguma das frases que a gente usou por estar em inglês? Eu mesmo fiquei uns bons minutos pra entender o que Girl the hell up significava (nota enquanto eu reviso o texto: me explicaram no grupo o que significa e eu descobri que minha compreensão tava bastante errada).

Uma foto publicada por ConversaCult (@conversacult) em


Mas sabe o que é pior? Que, por mais que a gente tente traduzir o que puder (como os quotes atrás desse mesmo marcador), tem coisas que, lá no fundo, não dá vontade de mudar. Porque parece mais legal, mais sonoro deixar assim. Porque passar pro português perde o efeito original. E isso dá um nó infeliz na cabeça. (É até uma das coisas que mais me preocupa com a carreira de tradução, que eu quero seguir algum dia).

E a situação fica mais chata ainda quando a gente passa a questão pra expressões que nem tradução pra nossa língua tem. Quantas vezes na vida eu já tentei achar um equivalente pra coisas como bitch, please ou cry me a river. Eu não sei se é mais difícil achar esse equivalente no português ou aceitar a quase obrigação de recorrer a uma língua diferente pra poder se expressar do jeito que você quer e dar o sentido desejado pro que você fala. 

Pensando agora, acho que por isso eu gosto tanto dessas expressões que surgem e viralizam em português.

Como eu disse, não sou especialista em nada (fui perceber agora que usei expert lá em cima. E não foi intencional. Percebe como é fácil?), e acho até que esse uso seja benéfico em certo nível e acabe se tornando parte da nossa cultura de alguma forma. 

Mas parte de mim não se sente totalmente confortável fazendo isso.


Eu tava pronto pra começar a escrever "xampu" sem reclamar tanto e terminar o texto agora, mas será que eu tô pagando de tiozão patriota demais?

Uma pausa. Eu fui escrevendo isso meio que seguindo o fluxo de pensamento e, agora, no finalzinho, não tinha mais certeza do que tava falando. Fui pesquisar.

Descobri que tem gente que pensa um pouco igual a mim no governo (de uma forma um pouco - tá, MUITO mais fervorosa) e já rolou até projeto de lei pra proibir (!!!!) o uso de palavras estrangeiras (com algumas exceções), porque elas seriam uma "descaracterização do português brasileiro". 

A parte mais bizarra: o uso dessas palavras seria uma violação à lei, sujeita à punição. (!!!!!!!!!!!!!!!!!)

Isso é tão ridículo que não consigo nem pensar direito. Mas, definitivamente, me mostrou que nenhum dos extremos é bom.

O que me leva a retornar ao texto e falar um pouco mais sobre o que há de bom nos estrangeirismos e empréstimos linguísticos, porque tem muita coisa. Por exemplo, você sabia que não existe palavra em português para falar iceberg? Eu também não sabia. Provavelmente porque, bom, não existe iceberg por aqui, então a gente não vai dar nome pra algo que nem vê. Mas se não fosse por esse fenômeno linguístico, o iceberg nem existiria no nosso conhecimento coletivo, já que as coisas só existem e ganham sentido pra nós através da língua. 

O mesmo vale pra outras palavras, como stress (que virou estresse), beef (que virou bife), show, e o próprio shopping... (Essas duas últimas ganham, até, uma diferença semântica no português). Dá pra dizer, então, que não só as palavras estrangeiras trazidas pro português ampliam o universo inteligível pela língua, mas também acabam se adaptando ao nosso contexto e se tornando parte importante da Língua Portuguesa.

E a questão do inglês ser o mais influente no contexto linguístico atual, mais do que algo bom ou ruim, apenas representa factualmente o panorama sociopolítico em que a gente vive. Em que os Estados Unidos são a maior potência cultural, assim como a França já foi um dia (e também contribuiu várias palavras pra nossa língua, como buquê, abajur, batom, boate, chapéu...). Talvez o incômodo seja por que isso não é uma memória remota do passado: a gente tá vivendo essa dominação cultural agora, vendo ela acontecer. E não é tão agradável a ideia de continuar a ser um país colonizado, ainda que de forma diferente.

(É por isso que é importante lembrar também do mundo de palavras africanas — e de tantas outras línguas — que veio pra o nosso português também, se tornando uma marca viva da nossa identidade cultural. Não somos influenciados apenas por quem vem ""de cima"", no fim das contas :)

Enfim, parece que, se ignorarmos alguns dados externos, a língua acaba se tornando mais rica e abrangente quando faz esse diálogo com outras. De qualquer forma, não custa nada medir como e quando usar isso numa conversa. Por mais que a globalização (inclusive linguística) esteja aí, talvez ela ainda não tenha chegado a todo mundo da mesma forma. E a última coisa que a gente precisa é encontrar (mais) uma forma de diminuir o outro, principalmente se tratando de algo tão simples quanto... falar.  

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15 comentários

  1. Isso me lembrou de uma amiga que quer abrir um negócio próprio (vendendo doces) e me perguntou se ficaria melhor chamar de "Confeitaria" ou de "Patisserie". E eu fiquei: Que raios é Patisserie? oO Eu tinha lido (a conversa foi por e-mail) "Pati série", mas e "Patísserrí". Que é... confeitaria em francês -q

    Eu também fiquei sem entender o marcador do CC até que explicaram na newsletter!

    E também me incomodo quando pessoas usam palavras em inglês sem necessidade alguma, digamos assim. E fico até com vergonha quando a palavra é dita num ambiente que eu sei que mais ninguém entende. Mas também entendo que a coisa simplesmente acontece. E soa mesmo mais bonito. Uma tatuagem que achei MUITO LEGAL que vi no pescoço de um fulano dizia "Stay Human". Eu total tatuaria isso se quisesse ter uma tatuagem. Mas aí eu fiquei pensando em como ficaria em português ("Permaneça humano", "Seja humano", "Fique Humano") e nada me agradou 100%.

    Até hoje eu estou procurando por um substituto decente de "fucking" como adjetivo.

    Imagina ser preso por dizer "I'm back, bitches" ou "Not today, Satan".

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    1. AHUAHAUH Isso me lembra quando tentaram me dizer que eu poderia achar creme de leite fresco numa delicatéssen e eu não fazia ideia do que era aquilo também.

      Eu juro pela minha alma que nunca tinha visto (ou notado) essa expressão do marcador. Acho que nem prestei tanta atenção a princípio, mas achei que fosse qualquer coisa semelhante a "We can do it". Vivendo e aprendendo, né.

      Pior que essas traduções ficam horrendas mesmo UHUAHUAH Mas isso de soar mais bonito é uma coisa que me preocupa, porque eu fico pensando dos motivos por trás. Do quanto disso é preferência pessoal e do quanto é influência cultural (constatei que é meio impossível distinguir). Tanto que parte de mim fica "para de paranoia e apenas curte as coisas" e parte fica "dá valor pro que é do seu país". Com música mesmo, eu tive que fazer um esforço colossal pra começar a ouvir coisas nacionais e ver beleza naquilo.

      Mas língua é uma coisa tão mais fluida, com questões diferentes envolvidas (tipo apoiar as pessoas que produzem conteúdo por aqui ou menosprezar o gosto musical do outro por não ser em inglês) que eu não sei até onde dá pra comparar.

      Só sei que um mundo onde eu seja preso por dizer "I'm back, bitcheees" é um mundo onde não quero viver.

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  2. Eu me identifiquei tanto com esse texto que já pensei e falar várias coisas sobre ele, mas nunca ficava satisfeita hahahahahahha
    Por que eu me identifiquei? Porque eu sou péssima com o inglês, então qdo as pessoas ficam falando eu inglês e eu não entendo nada fico me sentido constrangida e burra, mas ao mesmo tempo, entendo que tem palavras e expressões que em inglês transmitem melhor a ideia que você quer passar, então entendo que não podemos ser tão radicais em "vamos traduzir tudo, vamos aportuguesar tudo".
    Confesso que tb não tinha entendido o marcador do Cc e qdo explicaram o que era foi um " ahhhhhhhh"
    Ótimo post, adorei.

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    1. É um horror isso de não entender, né? Eu lembro que, na escola, eu tinha vários amigos muuuuuito mais avançados que eu, que sabiam cantar, traduzir, sei lá, sambar em inglês, enquanto eu ficava boiando. Tanto que acho que até hoje eu tenho medo de falar as coisas, estar errado e pagar micão (pior que não entender é você tentar falar algo pra fazer parte do grupo e sair aquela pronúncia toda errada. É as pessoas rindo e você orando DEUS ME LEVE NESTE MOMENTO).

      Mas, aos poucos, acho que dá pra ir incorporando o que for pertinente. O mais difícil é suprir na educação (pública, principalmente) as lacunas do ensino de inglês e tentar acabar com as hierarquias dentro da própria sala, que acaba sempre sendo "grupo de 5 alunos que sabem alguma coisa" vs. resto de "não sei, não consigo aprender, não vou usar pra nada na vida". Bem capaz de ser uma das maiores raízes do problema.

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  3. Se fôssemos parar e traduzir tudo ao "pé da letra” nossa língua entraria em um caos. O ideal identitário para muitos é o fato de nacionalizar a língua, principalmente para os sociolinguistas. Isso já não seria uma ideia de colonização, porém própria? Algo que realmente me deixa confusa. Com tantos estrangeiros no Brasil seria tão difícil "extinguir" esse empréstimo. Se já temos uma língua sistêmica isso só dificultaria mais o aprendizado de dentro e fora. Na minha opinião é tão bonito o dinamismo linguístico. Essa dança de cultura em nossa língua. O que nos aproxima de outras culturas é essa "miscigenação linguística". Claro que as vezes dificulta o entendimento, mas essa é a graça, a troca e o enriquecimento de aprendizagem de algo que para a maioria ou minoria não seria possível no aprendizado de uma segunda língua até pelas dificuldades financeiras.

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    1. Adorei você ter usado as expressões "miscigenação linguística" e "dança de culturas", porque é realmente isso. Fechar-se completamente e fazer a língua "100% brasileira, obrigado" é uma coisa absurda, até porque só iria empobrecer nossas possibilidades de expressão em vez de expandi-las da forma que possibilitam com os termos incorporados.

      Mas ainda acho que a exclusão que pode acontecer no processo é uma coisa a ser observada. Como eu disse no comentário acima, se uma experiência comunicativa onde há um uso mais intenso de outras línguas dentro da nossa acaba sendo ruim e diminuindo o ouvinte, quanto de conhecimento daquele idioma a pessoa (principalmente o jovem, ainda em formação) pode acabar negando no futuro? É uma coisa a se pensar.

      Mas, claro, ainda que seja uma tarefa difícil, continua sendo muito mais válido empregar esforços em levar esse conhecimento pra quem não o possui do que tirá-lo de todas as pessoas.

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  4. JOÃAAO, você fez esse texto! <3

    "Shampoo é tão mais bonito. Olha esse S, olha o O duplo no final. Olha essa desenvoltura, essa elasticidade da palavra. Coisa mais linda. X e U? Por favor, pare." khdfgfjhgsdjjsd melhor comentário.

    Cry me a river: chorei baldes. Ok, não.

    Já aconteceu de eu falar alguma coisa em inglês em uma conversa e alguma pessoa não entender, e é chato isso, mas ao mesmo tempo ou eu não consegui achar um equivalente ou sei lá... mania, já? . Ex: esses dias fui chamar meu amigo e disse "come on" "você fica usando essas expressões em inglês e tem umas que eu não sei" "come on é vem cá" " essa eu sei". Mas eu tenho tentado me corrigir (:

    Uma coisa engraçada é que tem uma palavras que em inglês o significado é diferente. Tipo pendrive, ou show, lá eles não falam show (porque é mostrar) eles falam concert. É palavra inglesa, mas virou da nossa língua, igual palavras africanas e francesas que você citou.

    Quase ninguém entendeu o marcador logo de cara, né? é bom não estar sozinha ahahhahaha

    Sobre o que o Felipe falou das tatuagens: muito eu.

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    1. HELENA!!! Pior que fiz, olha só. Não sei o que deu em mim, UHAUAHU Mas tô muito feliz por ter feito, tá tendo um resultado que eu não esperava. Aprendendo muitas coisas aqui. (e o assunto surgiu daquele e-mail onde a gente comenta isso, o que torna tudo mais legal :B).

      Então, cry me a river é uma incógnita. Mas parece que deixou de significar literalmente "chorar baldes" ou "rio de lágrimas", qualquer coisa assim, e ganhou um tom irônico. Pelo que pesquisei, mostra que a pessoa tá chorando por algo que não merece, que tá sendo dramática demais. Daí como se traduz isso??????? Dilemas.

      Como eu disse no texto (acho....... não sei nem o que eu disse mais uHAUHAUHU), é ok usar essas expressões, desde que no contexto certo e levando em consideração o ouvinte. O pior é que é totalmente difícil medir quando o uso vai ser apropriado ou não. Eu mesmo, esses tempos tava usando muito "at all". Tipo, "eu não tenho problemas pra fazer isso at all". E me incomoda também, mas APENAS SAI COMO CONTROLAR ESSAS PORTINHA SEM TRANCAS QUE É A LÍNGUA NÃO DÁ NÃO CONSIGO LIBERA TUDO -n

      Sim! Esses exemplos em que o conceito da palavra muda acabam sendo os meus favoritos, porque mostram que a palavra, mesmo vindo de outro lugar, acaba se adaptando ao nosso contexto pra significar o que a gente precisa que ela signifique. Aí não tem como dizer que não faz parte da língua portuguesa, né?

      UAHUAH tamo junto, então.

      E acho que, se eu for tatuar algo algum dia, vai ser em imagem pra não ficar com esses dilemas morais. Ou eu pego uma citação de livro, porque aí pode (e deve) botar no original :)

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  5. Estou aqui chocada que ninguém tinha entendido o marcador?????? HAHAHAHAHAHA

    E esse texto ficou bem massa. Até me senti em casa por já ter estudado isso algumas vezes.
    Bom, eu já fui o tipo de pessoa que, quando começou a conviver com o inglês 24h por dia (já ia escrever 24/7 no lugar disso, ó os costume), mesmo estando no Brasil, mistura umas expressões aleatórias nos dois idiomas que não faz nem sentido misturar. É de uns poucos anos pra cá que vejo como isso fica feio e soa artificial, desnecessário. Mas também é como tava conversando com uma professora esses dias... quando você aprende (de verdade) mais de um idioma, começa a perceber que cada palavra carrega meio que uma ideologia e um significado próprio. E se torna natural repassar mentalmente o vocabulário de todos os idiomas procurando a palavra ou frase que expresse melhor o que você quer dizer. Tipo, dizer que algo é "awkward" nunca será o mesmo que dizer que é "estranho" ou "esquisito", nem mesmo "constrangedor". Uma referência traduzida NUNCA vai ter a mesma pegada da original, por melhor que seja o trabalho dos tradutores profissionais (nos quais eu quero estar em breve).
    Eu definitivamente não concordo com o protecionismo linguístico dos portugueses também. É ainda pior que o dos franceses, que pelo menos só aplicam a fonologia do francês às palavras estrangeiras, mas geralmente mantêm a grafia. Exemplo: é como a gente falar Call of Duty "calofidúti". Acho que não tem nem sentido querer mudar alguns empréstimos tão enraizados. E shampoo >>>>>>>> *abismo* >>>>>>>>>> *pré-sal* >>>>>>>>>>>> *origem dos kaiju de Pacific Rim* >>>>>>>>>>> xampu.

    E o que você falou dos empréstimos do francês, de quando a França era a maior potência, só me lembra a conotação da palavra "boutique", de um estabelecimento ~fino~ ou ~ryco~. Só que é claro que a palavra literalmente significa "loja".
    Vi um monte sobre os empréstimos das línguas africanas (e das indígenas, e do italiano, e do espanhol...) no Museu da Língua Portuguesa no começo do ano. É engraçado como a gente nunca pára pra pensar nisso.

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    1. Mas onde as pessoas usam essa expressão, plmdds UHAUAH eu nunca tinha lido em lugar nenhum, mesmo.

      Às vezes esqueço que você faz (fez?) Letras também!!!!!!11111111

      Já disse várias coisas no twitter, mas achei seu comentário maravilhoso. Isso de repassar o vocabulário universal na sua cabeça pra selecionar o que mais se aproxima do significado que você quer explica muuuuita coisa. Mas continua sendo difícil, como eu tinha dito lá, lidar com essas diferenças enormes de conhecimento idiomático de cada um e não acabar excluindo alguém sem querer (pensando agora, acho que isso fica bem amenizado em meios digitais, em que qualquer coisa é só googlar rapidinho e descobrir o que significa. Acaba compartilhando conhecimento de forma espontânea!!! Tem um lado muito bom nisso tudo, afinal). Com sorte (ou esforço mesmo), como eu disse num comentário aqui em cima, as diferenças vão diminuindo com a evolução do ensino de línguas na escola e até o acesso à internet ou redes sociais mesmo, que acaba sendo a maior porta de entrada pra coisas novas.

      Isso de transformar shampoo em xampu é engraçado. Parece bom a princípio por aproximar ao português fonologicamente, acho que deve facilitar no processo de alfabetização, por exemplo (ou não, porque x tem tanto som diferente que né. Não sei nem como consegui aprender). Mas se levar em conta o fato de que esconde a origem estrangeira da palavra também... É complicado.

      Não sabia desse de boutique! Muito bom. E você usou ~ryco no comentário e eu já tô teorizando aqui por que a gente bota y no meio das palavras em situações como essa. MIL COISAS PRA PENSAR

      Realmente. E só fica mais claro o quanto a língua acaba ganhando com a contribuição de outras, e muitos empréstimos acabam ganhando uma história própria que se associa à história do próprio país. Meio fascinante de ver por esse lado.

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  6. João,
    muito pertinente o seu texto. Eu sou formada em jornalismo, porém trabalho com marketing. Quando ainda era uma universitária... eu ficava meio irritada pela quantidade de termos em inglês. E, ficava xingando mentalmente os tradutores brasileiros, a comunidade acadêmica e o mercado por não termos os termos em português. "Lead", "follow up", "release".... tudo me dava nos nervos. Na época, eu ainda não tinha estudado inglês. Mas depois que passei a dominar a lingua... fui percebendo que tem certas coisas que se traduzir perde a mesma força. E... parei de implicar.
    Leio mais em inglês do que português hoje em dia. E tem vários termos que adoro em inglês. Mas dificilmente emprego no meu dia-a-dia. Pois não quero parecer esnobe. Mas acabo cometendo a café de traduzir. E, me divirto com a cara das pessoas. Pois algumas entendem que eu tõ traduzindo, outras acham que falo engraçado ou que eu sou uma velha. Exemplo: Se me perguntam como foi sua visita na casa da minha avó. Gosto de responder "eu tive um bom tempo (I had a good time)" Tipo...soa super esquisito em português.... mas nem tô aí. kkkk
    Beijos, Fernanda D.
    NovoRomance.com.br

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    1. Oi, Fernanda!

      É bem difícil de se adaptar a esses vocabulários específicos mesmo. E nem precisa ir muito longe, na informática mesmo é um parto pra ensinar/aprender coisas como "download", "desktop", "gadget". Mas talvez seja uma coisa do pessoal mais antigo que a gente se adapte com o tempo (o que parece acontecer absolutamente rápido nesse caso em específico). Mas imagino como deve ter sido difícil pra você, porque né, jornalismo tem toda essa vibe mais ligada em coisas diferentes, de olhar mais pro presente/futuro, enquanto minha área idolatra mais o passado. Eu só tenho que lidar com um ou outro termo clássico e foi.

      UAHUUHAUH Isso de traduzir ao pé da letra é uma das coisas que eu só tenho coragem de me imaginar fazendo mesmo. Acabo parando pra pensar em como dizer em português de outra forma ou sei lá. Mas muito corajoso da sua parte xD Acho que até vou testar qualquer dia desses pra ver como reagem. Brincadeiras com a língua nunca perdem a graça, AHUAH.

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  7. vai ter comentário meu, sim, e se reclamar vai ter 2!!!!!!!!!! HUAHUAH

    antigamente eu ficava muito irritada com quem usava inglês. parecia pessoa esnobe querendo aparecer. e o pior que tem muita gente que faz isso sem nem saber inglês, então POR QUE?

    mas agora eu sou muito de boa. dou sempre preferência a buscar a versão em português ou até mesmo criar (intersexo, olá). eu gosto muito de agregar conceitos, mas às vezes é muuuito difícil, até hoje não consegui uma boa tradução pra double standard (E NÃO ME VENHA COM 2 PESOS, 2 MEDIDAS)

    e, quanto mais eu comecei a viver no mundo em inglês (verdade seja dita, 80% do que eu leio é em inglês. livros, fanfics, pessoas falando, textos) e algumas coisas são muito difíceis de traduzir. como alguém diz aí, não é só tradução, é significado. como eu falo wtf em português? do mesmo modo, como eu falo "que merda" em inglês? (dúvida séria, outro dia precisei e não consegui nada que soasse igual)

    palavras de fandom (FANDOM!!!!!!!) então, difícil pra caramba. ship. em porutguês é o que? mento? rel? que merda HAUHAUHAUHAUHA (fandom é... fano?)

    e uma coisa MUITO importante pra ser discutida em conversas sobre língua hoje em dia: na internet palavras importam. eu pesquisar "easy a" é bem diferente de eu pesquisar "a mentira". nome de série acontece muito isso. se você usar os dois nomes atrapalha o taggeamento e o acesso a conteúdo. e, como as coisas funcionam, normalmente quando uma "empresa oficial" assume a série/filme/livro aqui ela já é conhecida por todo mundo online com o nome original.

    enfim, eu sou pró-valorizar a nossa língua, mas também sou totalmente a favor de incluir mais conceitos através de palavras novas. palavras determinam o alcance do pensamento e quanto mais palavras mais podemos pensar.

    e uma coisa meio inevitável é a língua (linguagem?) como demarcação cultural. por exemplo, eu falar de ship, fandom, canon, headcanon, otp - é todo um vocabulário próprio de um grupo específico. essas coisas o tempo inteiro estão marcando quem nós somos no mundo. na época de comunicação escrita como agora, então, esses demarcadores são extremamente importantes para as pessoas se encontrarem e se identificarem. o jeito de falar retrata um grupo. isso não é novidade, mas na internet isso ganha outra dimensão.

    e, yep, falar inglês é um marcador de privilégio e acesso ao inglês (ou não, tem muita gente que não sabe inglês e usa ingllês, mas ainda é um demarcador desse grupo de pessoas).

    enfim, o que eu quero dizer é que o modo de falar e a mistura de expressões remarca grupos, e isso eu acho ok, só que com a internet tem o fator de que a gente começa a fazer parte de grupos que usam mais de uma língua.

    e, pra terminar, é importante essas inseguranças quanto a outras lígnuas, ainda mais uma como o inglês que demarca privilégio, poder, estar "acima", se transformarem em opressão e ódio entre grupos. tipo, a questão que está em jogo é um problema de mistura de línguas, ou a insegurança por n~]ao se sentir parte do "grupo superior" e aí tentar forçar um status (ser conservador...) pra poder se manter? em outras palavras, não ser movido por questão de poder.

    to alucinando já, eu comento muito sem pensar cuspindo palavras, mas espero que faça sentido

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    1. Esses comentários sobre identificação de grupo por meio da linguagem foi muito interessante. Queria que a gente tivesse discutido durante a escrita do post pra equilibrar a parte de prós com a de contras.

      (ou não, porque acho que talvez eu nem tivesse mais feito o post, UHAUA)

      Mas é interessante mesmo, porque maximizando bastante o fenômeno, o próprio uso de palavras em inglês (principalmente alguns mais específicos, tipo wtf mesmo, reações e coisas de redes sociais) tem relação com essa nossa geração. É um reflexo do mundo onde a gente vive e acaba se expandindo de um jeito que faz pensar até que nível vale resistir. Tanto que nem é difícil ver o "googlar" virando um outro uso consagrado como "deletar" ou qualquer coisa do tipo.

      Uma coisa surpreendentemente óbvia que não parei pra pensar enquanto escrevia é que o inglês é uma língua que tá entrando em 34865278346 países, não só aqui. Então mesmo que acabe entrando no nosso vocabulário, ela serve como ponte pra gente chegar em um milhão de pessoas e lugares diferentes, e incorporar parte disso vira cada vez mais natural e inevitável.

      E isso da pessoa falar inglês sem saber inglês: queria ter estudado o suficiente pra saber como funciona nesses casos, se a palavra já entrou na nossa língua definitivamente ou não. Na prática, tudo que a gente fala e o outro compreende faz parte da língua, mas como as pessoas com o poder pra oficializar isso tem outro pensamento... Uma coisa que eu acho absurdo não existir "oficialmente": turistar. De qualquer forma, vendo como dá pra entrar na língua de um jeito natural, os danos parecem ser menores.

      Isso de tentar ser conservador quanto a essas mudanças faz pensar como pode ser fácil usar isso de "resistência ao poder" como uma justificativa pra você mesmo ganhar poder e tentar usá-lo pra influenciar sua língua e o jeito que ela tem que ser. É como disseram aqui em cima, pode virar uma colonização interna em vez de externa.

      Dá um medo extra porque eu tõ me formando na área e não quero usar o pouco poder que tenho pra virar um ditador de regra, UHAUHA (É incrível, cada dia eu descubro no CC uma parte conservadora de mim que não sabia existir)

      Enfim, de qualquer forma, a exclusão da coisa ainda tem que ser pensada e evitada até o momento (talvez utópico) em que todo mundo tenha um nível equivalente de conhecimento pra isso não acontecer mais. Tinha uma professora de didática da língua inglesa que vivia dizendo como você precisa convencer o aluno de que inglês não é inútil, mas é um direito dele, uma arma (ou escudo?) simbólica contra a opressão de quem tem esse conhecimento. Acho que a relação ficou bem mais clara pra mim depois disso tudo.

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    2. lembra que todos esses posts são parte da nossa construção de conhecimeto, eles nunca vão ser perfeitos e o legal é isso mesmo, aprender algo, compartilhar e aprender mais ainda \o/

      Uma coisa legal que eu vi outro dia: um post no tumblr que discute como Avatar seria se cada cultura tivesse uma língua própria. é muito foda. republic city seria muito foda!

      O que eu queria: que as outras línguas também começassem a agregar o inglês. e há uma possibilidade disso acontecer. outro dia mesmo vi um post discutindo como o netflix tá fazendo o público inglês ver série com legenda (pra eles isso é absurdo!!!), já que tem muuuitos diálogos em outros línguas. sense8, demolidor, narcos... até mesmo orange is the new black você tem as russas ou latinas introduzindo palavras. imagina uma super língua mundial! e seria tão bom poder me comunicar com alguém de qualquer país de boa (o único modo de fazer isso hoje em dia é praticamente o inglês, e olhe lá...)

      Uma outra coisa aleatória: esses dias um dicionário inglês introduziu vários termos a respeito da sexualidade e gênero, que não existiam oficialmente antes! tipo, isso é uma vitória. deixa eu explicar: coisas a respeito da sexualidade e gênero a maioria são criadas por pessoas da comunidade LGBT+ e se popularizam agora, principalmente, pela internet. tipo pansexual é um termo da comunidade lgbt+, não-binário e por aí vai. só que historicamente esses grupos não tem acesso ao controle da palavras. "homossexual", "heterossexual" e "bissexual" foram tipo pessoas fora das comunidades provavelmente nem era homo ou bi que criaram com base nas impressões. e se você pensar tudo é meio que assim. acho que o exemplo mais marcante é "índio". uma palavra de um cara que chegou e viu aqueles povos, ENTENDEU ERRADO ONDE ESTAVA, e deu um novo que até hoje diversas línguas a gente continua usando. você acha que os povos indígenas se chamavam de índios? nas américas? enfim, eles são chamados de índio (erroneamente ainda) (e apagado totalmente todas as individualidades de 39289238 povos) porque quem tem/teve o poder de tornar oficial foi o homem europeu branco.

      quantas palavras e povos não são definidos errados ou ignorados por causa de quem tá no poder?

      não sei não acontecer mais, mas definitivamente buscar mais igualdade entre as pessoas ajuda

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