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Meritocracia pra quem?

6.6.15Isabelle Fernandes


Esta semana encontrei no facebook uma tirinha ilustrando as diferenças de oportunidades entre jovens da classe média pra cima e jovens com poucas condições financeiras, desmitificando a ideia da meritocracia num país tão desigual como o nosso. É incrível que, por mais que estudemos durante anos na escola a exclusão vivida pelas minorias e os menos favorecidos, ainda exista essa resistência a um fato que está na cara de todo mundo: existem pessoas com privilégios, que saem na dianteira da vida com relação às outras.

Essa cegueira pode ter um milhão de motivos, mas eu acredito que a principal delas é a simples falta de contato. É fácil dizer que algo não existe quando você não convive com ele. É fácil tornar a realidade das pessoas invisível quando você não olha pra elas.

Todos sabemos que quando a família tem condições, a primeira providência é matricular seus filhos em uma boa escola particular, já que as escolas públicas são consideradas defasadas (o que é verdade em parte. Mas também existem muitas escolas públicas excelentes - só que as vagas são disputadas a tapa). Nessas escolas particulares, as crianças normalmente são do mesmo patamar social ou até mesmo acima, o que faz com que as do patamar mediano, digamos assim, fiquem enlouquecidas querendo o modelo de vida daquelas que são mais abastadas. Essas escolas normalmente são muito exigentes quanto ao desempenho dos seus alunos, inclusive algumas exibem o ranking das melhores e piores notas bem na entrada, pra estimular a competição. Os professores solapam os alunos com matérias e mais matérias, e assombram os alunos com o temido vestibular desde o primeiro ano do ensino médio. É pressão total. Você precisa ser o melhor, e em casa a exigência não é diferente. A família quer resultados pra recompensar todo o gasto com a educação dos filhos.


E aí tem o outro lado da moeda. Nas escolas não tão boas assim, o clima é totalmente diferente. Os professores são muito desestimulados com a sua profissão e muitos chegam a ser ruins mesmo, até por acreditarem que os alunos não estão interessados. Repetir de ano é a coisa mais normal do mundo, recuperações e dependências são comuns, assim como não prestar atenção na aula. Tá todo mundo conversando mesmo, e o professor só passou matéria no quadro, mandou fazer um exercício e foi sentar na mesa, se distraindo com alguma coisa. A maior preocupação no ensino médio não é o vestibular, é sobreviver ao ano letivo. Em casa, os pais ficam felizes quando o filho traz um boletim com notas medianas, porque a coisa estava feia. Muitas vezes eles não tiveram estudo o suficiente pra ajudar nas dúvidas dos filhos.


Eu circulei pelos dois mundos. Fiz o jardim em uma escola particular bem pequena, a primeira e segunda séries em uma escola pública e como eu não estava aprendendo uma série de coisas, minha avó fez um esforço e me matriculou em uma escola particular de porte médio. Nessa escola a coordenadora conhecia todo mundo, e conhecia os pais também, o que desestimulava bastante a indisciplina. Os professores eram exigentes, as salas eram confortáveis na medida do possível, tínhamos aulas variadas como música, artes, informática. Daí no ensino médio fui para uma escola técnica estadual de grande porte e foi um choque monstruoso pra mim. A escola não era grande só de nome como também de espaço, então era muito fácil matar aula e continuar ali dentro. Eram muitos alunos, então só os casos graves de indisciplina iam parar na orientação educacional. As salas eram bem simples, as cadeiras em sua maioria caindo aos pedaços LITERALMENTE.

Nunca me esqueci do que um professor de matemática declarou uma vez: "Esses alunos não querem nada. Só vem pra escola pra fazer sexo". Inclusive, um belo dia em que ele aplicava um teste, ele simplesmente disse que ia em casa buscar alguma coisa E FOI EMBORA. E NÃO VOLTOU. Claro que o teste individual virou um negócio em grupo, trocamos respostas, consultamos o livro, uma verdadeira festa. Também teve momentos em que ficamos sem professor de química por seis meses (e o professor seguinte teve que dar toda a matéria desses seis meses em algumas aulas. Foi tenso). Quando eu entrei na escola, conheci um garoto que estava no terceiro ano. Quando eu estava terminando o terceiro ano, ele ia fazer o terceiro ano de novo. E como já disse lá em cima, isso não era incomum (mas ele bateu todos os recordes conhecidos por mim q).

Quando o professor meteu o pé no meio do teste
Na época todas essas situações foram verdadeiras aventuras, que sempre relembrávamos morrendo de rir, achando super legal. Mas analisando agora? Meu ensino foi totalmente defasado. Posso contar nos dedos, e não encho nem a primeira mão, os professores que tinham paixão pelo seu ofício e nos contagiavam com essa paixão. Meus aprendizados foram em grande parte através da enorme diversidade que tinha naquela escola. Foi lá que entrei em contato pela primeira vez com pessoas que se identificavam como gays ou lésbicas, que conheci pessoas de cada canto da cidade, pessoas muito pobres ou pessoas com condições de vida boas, pessoas com deficiência, pessoas com vários objetivos e sonhos e pessoas que simplesmente não ligavam pra nada (ou fingiam não ligar).

Foi na faculdade que as coisas ficaram mais claras. Posso dizer que estou na área cinzenta entre a realidade do garoto e da garota na tirinha. Não tenho as mesmas oportunidades que ele, mas tive o apoio da minha família e pude "me dar ao luxo" de apenas estudar. Por outro lado, se não houvesse o programa de bolsas do governo (Prouni) e se a renda aqui de casa não fosse baixa, eu dificilmente conseguiria fazer uma faculdade, pelo menos não a que eu estou fazendo agora. Jamais poderia pagar uma mensalidade que começa na faixa dos 800 reais e no final do curso chega a quase 2.000. Mesmo que eu trabalhasse feito uma condenada não adiantaria, porque os empregos aos quais posso ser qualificada são de um salário mínimo e meio, no máximo. E todo mundo que tá vivendo o momento do vestibular sabe a briga que é conseguir uma vaga em uma faculdade pública, e quando você consegue ainda tem que encarar a falta de estrutura e as greves.


Só que, se for comparar com a realidade de muita gente por aí, estou na boa. Podia ser pior. Tem muita gente na pior. Então, refletindo sobre todos os problemas que a sociedade está careca de saber,  mas que se recusa a enxergar, lanço a pergunta: a meritocracia é justa mesmo?

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5 comentários

  1. Eu nunca acreditei na meritocracia. Eu estudo numa escola publica e estou acostumada com alunos que não estão nem ai. Eu acho que tanto aluno quanto professor tem culpa. Os alunos deveriam respeitar o seu mestre por saberem que ele está ali sendo remunerado horrivelmente, pelo menos os alunos poderiam passar uma boa energia ao professor e faze-lo sentir-se apaixonado pela sua área, mas não é o que acontece. Eu sou umas das únicas que não me contento com notas medianas, na minha sala a média dos alunos é 5 ou menos, são dois ou três que tiram notas boas. Teve uma prova de sociologia um dia, estudei bastante e ninguém mais tinha estudado, no finalzinho da prova, a professora vem e fala: podem usar o caderno. Eu fiquei com a cara no chão, a professora reconhecia que os alunos não tinham capacidade de se sairem bem sozinhos, e cade a meritocracia? Eu estudei e vou tirar a mesma nota que os que não estudaram? Mas isso vai te surpreender, tirei 9 sem olhar no caderno porque me recusei a isso, e o resto ficou com média 6, what? Nossos alunos podem estar com a resposta na testa mas não sabem interpretar. Ah, quanta mediocridade :(

    wavybrown.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Aí eu te lanço a pergunta: por quê?

      Por que os alunos estão desinteressados? Por que eles não sabem interpretar textos? Por que eles se contentam com notas baixas?

      Tentar achar culpados e colocar eles pra judas não resolve nenhum problema. Alunos e professores são parte de um mesmo sistema que tá comendo poeira diante da nova forma de organização da sociedade, seja no âmbito profissional, familiar, político, tecnológico e por aí vai.

      É difícil, mas é preciso pelo menos tentar xD

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    2. e acrescento que: tem teóricos de 50 anos atrás questionando esses modelos. e aqui estamos nós.

      eu não vejo o sistema educacional de todo mal, ele foi construído de uma forma que pode ter acesso em massa e vendido como um produto (ou seja, chega a mais pessoas). mas tá longe de ser bom, ainda mais quem não tem acesso.

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    3. (acesso a algo tipo um privado que pelo menos tem alguma estrutura) (às vezes)

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  2. De quem são as tirinhas ?? Como acho os caras no facebook ??

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