amor Buscando o meu lugar

Buscando o meu lugar: eu também posso ser feliz

5.6.15Diego Matioli

A ideia desse texto nasceu na finada série de posts "Buscando o meu Lugar". Enquanto todos da equipe falavam das suas opções acadêmicas, eu nunca consegui sintetizar um texto que expressasse minha experiencia de faculdade e escolha profissional. Acho que por mais que saiba da importância que a faculdade teve em minha vida, não consigo reconhece-la como experiência definidora. Quando a equipe decidiu falar de relacionamentos, comentei que queria falar sobre sua influência na formação da identidade. Pode parecer aleatório, mas deixa eu explicar falando da minha cunhada: ela se formou em Letras, como o João está fazendo. Trabalha como Assistente Técnica Administrativo em uma escola estadual. Só que esse nunca foi seu lugar no mundo. Desde que a conheci, uma certeza sempre correu minha mente: minha cunhada nasceu pra ser mãe. E hoje vejo ela afirmar isso com suas próprias palavras com meu sobrinho no colo.

E isso nada teve a ver com a faculdade que ela cursou.

Então, caros leitores, venho aqui falar que a busca do nosso lugar é muito mais complexa do que a gente pensa. O mito de que você vai decidir toda a sua vida na hora de se inscrever no vestibular, cedo ou tarde cai por terra. A felicidade é uma receita de muitos ingredientes e intrincadas medidas. Entre elas, os relacionamentos românticos são quase regra, basta pensar em quantos dos nossos conhecidos estão casados, noivos ou namorando. Mas isso funciona de uma forma diferente para cada um. Hoje eu vou falar do que eu entendo por amor.

Amor, na narrativa da minha vida, começa com o meu pai. Não quero entrar em detalhes, mas digamos que meu pai não teve a mais doce das infâncias. Ele tinha tudo para desacreditar completamente no conceito de família, mas optou por criar sua própria e quebrar um ciclo de abusos que se perpetuava há gerações no galho lituano da arvore da família. Lembro de ouvi-lo contar sobre como desistiu da faculdade de biologia tão sonhada em função de um curso de administração mais rentável e apropriado para prover sustento aos futuros filhos. Isso mexeu profundamente comigo.

Diz minha mãe que não foi fácil conquistar meu pai. A vida o havia endurecido, o que é triste de saber, pois quem o conheceu bem sabe que ele era uma pessoa das mais sensíveis. Dona de uma paciência inesgotável, coube a ela compreender e respeitar seu passado, lidando com o temperamento hora volátil dele durante anos. Minha mãe se orgulha de nunca deixa-lo sozinho aos sábados, mesmo quando podia estar indo ao cinema, de lhe deixar preparar um prato diferente, mesmo quando só queria comer pizza, de dormir a seu lado todas as noites, mesmo quando o clima entre eles não era dos melhores.

"destrua o que te destroi" por muito tempo isso foi o mais próximo que eu cheguei do amor"
Eu sempre tive muito contato com as histórias de meus pais. De fato, creio que tenha aprendido a amar narrativas por ouvi-las tanto e por tanto tempo. Hoje conheço muitas delas tão bem ou melhor que eles. Sei de quando meu pai botou um sonambulo para cuidar de outro, e de quando meu tio trancou minha mãe em uma casa de praia por todo um final de semana. Só que nem sempre as histórias são interpretadas da melhor maneira. Conheço inúmeras pessoas que admiram o relacionamento que meus progenitores tiveram, mas em mim o efeito foi contrário.

Enquanto meu irmão parece reproduzir a relação dos meus pais em certo grau, eu fui pelo caminho oposto. Ainda hoje admito sem pudor que jamais teria a persistência de minha mãe ou a grandeza do meu pai para gerir um relacionamento como eles fizeram. Ver ela abrir mão do que queria por outra pessoa me fez desenvolver um senso de independência irreal, me levando a sentir aversão de qualquer proximidade desnecessária. Saber do sacrifício do meu pai me fez acreditar que família é antagonista da realização profissional, e por tantos anos eu achei que eu não poderia ter filhos se quisesse realizar meus sonhos.

Eu vivi a maior parte da minha adolescência como um assexuado. Não por identificação, mas por que negava minha sexualidade. Por volta dos treze conclui que se não ficaria com uma mulher, ao menos não ficaria com um homem para não dar desgosto a ninguém. Deixei este lado de mim morrer por anos, mas ele nunca realmente largou de existir. A fagulha continuava no fundo da mente, bagunçando tudo. Me tornei cada vez mais ansioso, inseguro e reprimido – sintomas com os quais eu lido até hoje.

Lembro de que, aos dezesseis, a prima de uma amiga se interessou por mim e, por falta de justificativa plausível, eu tive de ficar com ela. Era como se eu estivesse morrendo por dentro. “Esse é o resto da minha vida? Mentir e ser forçado a estar com alguém para perpetuar a farsa?”, era só o que eu pensava. Hoje reconheço como foi egoísta de minha parte não me preocupar com os sentimentos dela, que estava sendo levada a acreditar em algo que nunca existiu. Anos mais tarde tive a oportunidade de lhe pedir desculpas. É que as vezes a gente está tão envolvido no próprio redemoinho emocional que esquece do resto.

Eu sei exatamente o momento em que eu decidi me assumir. Era a festa de casamento da minha irmã de consideração. Entre os convidados havia um casal gay – o padrinho do noivo, se não me falha a memória. Foi a primeira vez que eu vi dois homossexuais assumidos, juntos e felizes e aquilo me derrubou. De repente pareceu tão obvio o quanto eu estava me machucando ao não me permitir sentir aquela mesma felicidade. Eu sempre fui muito duro comigo mesmo. Sou até hoje, na verdade. Mas acho que se há um evento na minha vida que marca quando eu comecei a ser mais gentil comigo mesmo, é aquela festa. É por causa desse casal que eu defendo tanto as questões da representatividade. Eu vivi na pele o quanto é importante ter uma referencia e como a gente fica perdido sem nenhuma.

"a gente aceita o amor que acha que merece = MAIOR VERDADE DO MUNDO"
Mas nada é tão simples. Afastado de qualquer experiência real com relacionamentos por toda a adolescência e portando uma autoestima baixíssima, a ideia de me envolver com alguém era ao mesmo tempo incrível e assustadora. Eu tinha tanto medo de ser desprezado que me envolvi com pessoas com as quais eu sabia que nunca poderia ter um relacionamento sério. Assim eu garantia que elas jamais me rejeitariam. Mal sabia que era eu quem estava me rejeitando ao fazer isso. Eu não acreditava que alguém poderia me amar de volta, então não dava a chance para ninguém fazer isso. Por muito tempo, mesmo depois de ter me assumido, eu continuei em um vazio existencial no que tange o amor, que só está sendo curado agora, a base de muita reflexão e terapia.

Na experiência dos meus pais, eu aprendi exatamente aquilo que me motivou a falar desse tema: que a gente tem de lutar para amar e para ser amado. E eu estou no meio da batalha agora mesmo, aprendendo que meu pai não desistiu de nenhum sonho, só escolheu o sonho que mais lhe importava; que minha mãe não sacrificou nada, ela investiu seu tempo em quem ela ama; que eu não preciso me machucar tanto pelo que os outros pensam, pois a primeira pessoa que precisa me amar sou eu; que por mais que seja difícil para mim acreditar nisso, eu sou tão “amável” quanto qualquer um e posso construir com alguém algo como o que meus pais tiveram.

Eu também posso ser feliz,e isso é uma parte da busca pelo meu lugar no mundo que aprendi em tantos relacionamentos.

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2 comentários

  1. Respostas
    1. Obrigado <3

      O texto existe a mais de ano, é tanta alma que me custou saber quando expor ela, viu.

      Excluir

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