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Clube de Escrita: Como tomar decisões - Um guia não definitivo

10.6.15Diego Matioli


Nesse exato momento eu estou  na internet procurando formas de procrastinar. Admitir isso é meio que libertador, porque estava ficando difícil fingir que as três janelas do Word que eu tenho abertas - o rascunho original do meu livro, a nova versão que eu estou escrevendo e o arquivo de cenas e trechos cortados – não existem só porque eu não quero lidar com eles. Antes de ontem eu escrevi exatamente a cena que eu queria escrever, mas por algum motivo nada que eu ponho depois dela se encaixa. Eu já escrevi três versões dos eventos subsequentes e nada se encaixa.

Então eu vim aqui escrever sobre como está tudo bem não escrever e viver seu bloqueio criativo às vezes. Eu estava vendo esse vídeo do T. Michael Martin (em inglês), em que ele fala três coisas que eu achei maravilhosas:

1-) Às vezes descansar é a coisa mais produtiva que você pode fazer.

2-) Criatividade é o processo de tomar decisões.

3-) Nosso cérebro tem um limite de decisões que aguenta fazer por dia. Às vezes ele vai ter de descansar para poder fazer novas decisões.

E eu acho isso lindo.

minha cara ao terminar o vídeo

Francamente, esse texto podia ser só essas três frases que já serviria ao propósito que eu queria. Mas deixe-me falar algo mais: tempo de descanso não é desperdiçado por um milhão de motivos. Você pode pesquisar coisas novas nesse tempo, ler livros e histórias que vão te inspirar, trabalhar em outros projetos (olha eu escrevendo esse post, por exemplo!). É muito importante a gente reconhecer que livros não são só o processo de escrever eles, mas toda a vida do autor que acontece por trás deles.

Mas sabe por que eu acho que o tempo de descanso é mais importante para mim? Porque me permite entrar em um estado mental neutro em que eu posso tomar decisões com calma.

Quando eu entro no modo de escrita, meu cérebro tende a abordar as questões da trama como eu abordo a construção dos parágrafos: eu literalmente vou escrevendo até o trecho parar de fazer sentido ou me incomodar muito, daí eu paro e recomeço tentando esclarecer a ideia. Eu faço isso repetidas vezes, tendo as tentativas anteriores logo abaixo como referência, pegando um pedacinho dessa tentativa, um pedacinho daquela. Eu sigo até eu terminar o parágrafo, ler ele todo e sentir que nada me incomoda. Então eu deleto todas as tentativas e vou para o próximo.

Eu faço a mesma coisa com cenas também. Quando algo não está certo, eu recomeço usando a primeira tentativa como referência (é por isso que eu tenho o arquivo de cenas cortadas). Só que isso não funciona para as decisões. Ás vezes o problema não é que as decisões que eu tomei não estão precisas o suficiente, e sim que eu tenho de contemplar novas possibilidades. Só que enquanto eu estou escrevendo, fico tão fixo no que eu acho que o livro deve ser que não consigo me abrir para o que ele pode ser. É ainda pior nesse caso, porque eu estou reescrevendo, então na minha mente ainda existe uma certa expectativa de que a história se desenrole da mesma maneira que da primeira vez que eu ainda não superei.

Daí é hora de deitar na cama, ouvir Ship to Wreck e começar a dizer “E se...”. E se esse personagem não existisse? E se essa cena acontecesse mais tarde? E se eu introduzir esse problema mais cedo? E daí sim eu consigo procurar uma solução nova e enxergar as ramificações dela dentro do livro sem todas as expectativas e a ansiedade. Daí sim eu consigo tomar decisões difíceis.

encarando o livro

E isso me leva a outro ponto importante sobre o momento de descanso da escrita, e ainda mais durante o bloqueio criativo: ele é importante para você refletir sobre seu processo. Por que você está bloqueado? O que te fez ficar assim? Algo na sua vida tem te incomodado? A cena está errada? A iluminação ou a hora em que você está escrevendo te atrapalham? As possibilidades de resposta são infinitas e praticamente únicas. a Dana escreveu semana passada sobre como não existem regras, porque cada um funciona de um jeito, e você só descobre o que funciona pra você na prática, sabe? Escrever é um processo de autoconhecimento constante, tentar descobrir como você funciona é uma parte fundamental disso. É conhecimento que você pode usar em seu beneficio futuramente.

Eu precisei parar pra pensar em como eu escrevo para chegar a essas conclusões todas, por exemplo. E eu fiz isso em parte enquanto lia outros autores falando do assunto, o que me motivou a usar meu momento de procrastinação pra compartilhar isso com vocês. Aproveito a oportunidade para indicar os textos da Maggie Stiefvater (em inglês) e os da Bárbara Morais, que tem escrito semanalmente os seus diários de escrita e tem sido ótimos de acompanhar! A leitura de ambas me ajudou muito nas últimas semanas.

E vejam só, enquanto escrevia isso, acho que consegui tomar uma decisão sobre o que fazer, então já posso voltar ao manuscrito!

P.S. aleatório: Eu não posso enfatizar o suficiente o quanto Ship to Wreck representa minha escrita atualmente (enquanto Cosmic Love expressa tudo o que eu sinto sobre criatividade.)
So there is that, Florence sempre no meu <3








Isso sou eu escrevendo. Sério.

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5 comentários

  1. Isso me fez lembrar de um outro post do Clube de Escrita, um que falava sobre pensar antes de escrever. Meio que encaixa nesse tempo de descanso. É uma coisa que você faz quando não está de frente para o computador e que te ajuda a seguir com a história.

    Eu não tiro tempo de descanso porque nem escrevo tanto tempo assim por dia. Eu tenho, sei lá, 23h de descanso rs Quando eu vou sentar e escrever, já pensei muito antes, decidi algumas coisas, até chego a imaginar alguns parágrafos. Eu resolvo tudo fora do computador mesmo.

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    1. Aw, eu também penso muito mais do que escrevo. Só que eu tenho essa mania de pensar muito, daí em meia hora de escrita percebo que na prática tá tudo errado. Daí meu tempo de escrita, já limitado, é dividido com essas contemplações filosóficas.

      Espero que a prática me ajude a errar menos minhas previsões, mas só o tempo dirá.

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    2. Felipe <3 E queria acrescentar uma coisa que acontece muito: Eu imagino um momento, escrevo, só que aí eu esgoto o que eu pensei e a escrita começa a minguar. Então ter essa mentalidade do pensar também é escrever é importante. Lembrar que dá pra parar tudo, se jogar na cama, refletir sobre questões e... ainda estar avançando na história.

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  2. Já que eu to aqui em vez de fazer um post vou comentar dizendo que é interessante como nós fazemos a mesma coisa, mas a forma que fazemos isso muda. Eu penso bastante na história. Fica um tempão pra decidir X ou Y. Só que enquanto o Diego faz isso o tempo inteiro, eu compartimentalizo essas coisas em etapas distintas. Então eu penso, e escrevo, e planejo, e edito, e edito melhor. Enquanto o Diego faz tudo ao mesmo tempo, então se você comparar, parece que eu escrevi muito mais ou fiz muito mais coisa, enquanto ele tá parado, mas não é verdade. É bem capaz que a gente leve o mesmo tempo.

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    1. E ainda assim, acho que isso daria um texto fascinante!

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