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Ultimate Quarteto... Fantástico?

16.4.15João Pedro Gomes


Uma coisa que sempre acontece comigo: eu tento consolar, entender e, às vezes, gostar de qualquer coisa que sofra desse mal tão comum atualmente chamado ódio coletivo. Seja filme, livro, CD, HQ, opinião... qualquer coisa. Já tive que aturar muita merda por isso? Sim. Inclusive gastar dinheiro à toa e ser excluído por muita gente. Mas eu continuo sentindo prazer em nadar contra a corrente.

É o que estou tentando fazer com o filme novo do Quarteto Fantástico, que parece a vítima do ódio mais gratuito que eu já vi. Ok, a Marvel faz filmes incríveis e metade do mundo quer que os direitos de tudo voltem pra ela. A histeria com o Homem-Aranha tá aí pra provar. Mas não vamos boicotar o filme ANTES dele ser lançado só porque a Fox tá criando algo diferente com um produto que é seu por direito (literalmente), principalmente com uma equipe tão promissora tanto em frente quanto por trás das câmeras. E não vou nem comentar sobre aquela polêmica de mudança de etnia, que merece um post à parte antes do lançamento do filme. 

Eu continuo acreditando em você, Quarteto Fantástico. Pena que não consigo sentir o mesmo com a HQ em que você tá sendo "baseado", que, apesar de eu ter divagado por rotas tortuosas aqui em cima, é o assunto principal desse post.

Altos, baixos, frustrações e amores... vamos falar sobre Ultimate Quarteto Fantástico vol. 1 - O Fantástico, uma HQ que talvez não seja tãaaao fantástica assim.

Ultimate Quarteto Fantástico vol. 1 parecia a oportunidade perfeita pra começar ler a família de super-heróis mais icônica do planeta. Assim como o filme, tem uma equipe de ponta por trás, com ninguém menos que Brian Michael Bendis (responsável pelos melhores diálogos em quadrinhos que já li) e Mark Millar (roteirista de nada mais, nada menos que Guerra Civil). E é a HQ base pro filme que mais estou esperando no ano, que, por coincidência, estreia bem no dia do meu aniversário (!!!). Quase um presente do destino. É claro que nunca seria ruim. Certo? 

Talvez não. Talvez.

Vamos começar por um dos maiores pontos positivos dessa HQ: ela é uma história de origem fantástica. Em apenas seis edições, nós temos uma boa noção do passado dos personagens, as relações que eles cultivam entre si e como elas evoluem após o acontecimento que dá poderes a eles. Acontecimento esse que, devo dizer, foi muito bem planejado e impactante. O conceito por trás de tudo, que envolve um método de teletransporte multidimensional idealizado pelo ainda pré-adolescente Reed Richards, é perfeitamente encaixado desde as primeiras páginas, e vai evoluindo gradualmente junto com os problemas que ele traz para todos a seu redor, quase como uma bomba-relógio. Assim, quando de fato ela explode, qualquer confusão possível (eles são super-heróis cientistas, no final das contas) é exterminada. O que fica é uma devastação emocional muito grande: é como se você estivesse todo desfigurado junto com os personagens tentando encontrar seu antigo eu no meio do caos.



Olhando no geral, toda a parte boa da HQ (basicamente, a que acontece antes deles se tornarem "heróis") é construída em cima de sentimentos. A transformação dos personagens em criaturas com habilidades estranhas (ou mutantes, como chegam a falar em algumas partes do livro) não é mais dolorosa do que os conflitos humanos anteriores a ela. Principalmente por parte do Reed, que é meio que o protagonista de toda a história. A deformidade corporal é só um complemento/materialização de toda a exclusão e desconforto que ele sofre, seja dentro da família, na escola ou nos relacionamentos com as pessoas. Se eu achava fácil me identificar com qualquer X-Men rejeitado socialmente, foi ainda mais simples com o Reed, que não precisou ter uma aparência ou habilidade estranha para isso. Só ele, um ser humano qualquer, e a fuga dos padrões esperados de um garoto da sua idade. 

Pena que essa profundidade não se transmite para outros personagens da história. Enquanto esse desenvolvimento do protagonista explode corações, outros membros do Quarteto acabam ficando de escanteio. Ok, o Coisa acaba tendo lá seu desenvolvimento por ser o personagem mais ligado ao Reed, e o Tocha Humana tem sua personalidade bem-humorada pra torná-lo minimamente interessante. Já Sue, a Mulher Invisível... Acho que foi a maior decepção dessa história.

A Mulher Invisível tem sido uma das coisas mais surpreendente na divulgação do filme. VOCÊ SABIA QUE ELA VOA? 

E não só voa: voa pau a pau com o irmão e quebra uma pedra gigante ao fazer isso (clique aqui para ver o gif ampliado)

Eu não sabia até ver esse trailer e ele explodir minha mente. Como eu já citei no post sobre Eleanor & Park & Sexismo em X-Men, não precisa pensar muito pra perceber o quanto a Sue segue o padrão de poder passivo que a Eleanor tanto critica, e ver isso se transformando num bom exemplo de representatividade parece um grande avanço da adaptação.

Mas ao contrário do trailer, a HQ não muda esse status quo. Mesmo que a personagem seja membra do mesmo instituto-científico-governamental-ultrassecreto-para-mentes-brilhantes que Reed, pouco se utiliza desse fato. Até porque, bom, ela é filha do diretor do instituto, e até seu irmão, sem nenhuma aptidão aparente em qualquer coisa além de fazer gracinhas e cuidar do relacionamento amoroso dos outros, frequenta livremente o local. 

Mas o pior de tudo? Enquanto os caras do Quarteto descobriam os poderes, lutavam contra governo, monstros e faziam as coisas legais, a Sue.... por motivos de spoiler, digamos que ela simplesmente fica deitada em maus lençóis (literalmente), na situação mocinha-indefesa mais clichê possível, e não participa da ação com os outros. "Mas ela não precisava fazer nada que exigisse os poderes no momento, né?". Julgando o desconforto dela estampado na cara... precisava, sim. "Mas ela não precisa estar com os outros, ela também é capaz de fazer tudo acontecer sozinha!". É, ela é capaz, mas não mostra isso. "Ah, mas você tá sendo chato, ela ficou longe dos outros pra história andar!". Isso já seria uma coisa horrível, mas pior ainda é que: a influência dela onde estava era praticamente nula. 


Foi como se a personagem fosse um peso pra história e fosse jogada de escanteio de propósito. E isso, por mais chato que seja admitir, me incomodou muito. No final, a personagem forte que eu esperava, que quebrasse tudo como no trailer e se mostrasse tão capaz quanto seu irmão, morreu, e entrou essa substituta insípida e que só mostrou uma parcela mínima de sua capacidade nas últimas três páginas. 

Mas se a Sue só mostra sua força no fim da revista, a história cai de qualidade bem antes, lá pela metade. A intensidade emocional se perde em meio a uma história paralela desnecessária, bem naquele estilo batido em historinhas super-heróicas de vilão que quer dominar o mundo e coisa e tal (que não é o Dr. Destino, o grande vilão do filme, caso você esteja de perguntando  mais um motivo pra confiar na adaptação.....). Com seis edições em mãos, um recomeço fresquinho pra equipe e uma puta trama dramática e humana que quase me arrancou uma lágrima logo de início, o Quarteto merecia muito mais do que uma resolução genérica como pretexto pra usar os poderes. MUITO mais.



Enfim, foram "detalhes" que, por falta de espaço na revista ou descuido dos escritores, estragaram muito da experiência. (Ao menos agora a gente tem um argumento contra quem diz que não ser uma adaptação fiel às HQs é algo ruim...)

De qualquer forma, Ultimate Quarteto Fantástico é uma opção razoável (e, sinceramente, a mais acessível em termos de roteiro e facilidade de encontrar) pra quem não quer chegar sem nenhuma base no cinema. Foi a primeira coisa que li do grupo e, realmente, dá uma boa noção do que devem colocar no filme — e do que não devem também. Até chegar o comecinho de agosto, só nos resta torcer para que tenham feito sabiamente essa distinção. 





Livro: Ultimate Quarteto Fantástico vol. 1 O Fantástico

Roteiro: Brian Michael Bendis e Mark Millar

Desenhos: Adam Kubert

Editora: Panini / Marvel

Paginas: 148

Comprar: Liga HQ | Comix | Panini

  (3 conversinhas)

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