Andrew Smith apocalipse

Selva de Gafanhotos, de Andrew Smith: insetos gigantes, dramas adolescentes, fim do mundo e mais

25.4.15Paulo V. Santana


“A história mostra que uma análise da coleção pessoal de títulos da biblioteca de qualquer homem fornece um vislumbre de sua alma.”

Imagine que você é um menino de 16 anos morador de uma cidade pequena dos Estados Unidos. Por conta da falência da indústria que antes trazia prosperidade à população, essa cidadezinha está cada vez mais abandonada; não há nada especial para se fazer, mas essa é a sua vida, essa é a sua história. E você parece estar feliz, apesar de tudo. Tem uma namorada há alguns anos, um melhor amigo para compartilhar momentos… até que você percebe que talvez também se sinta atraído por esse amigo. Como se apenas uma “confusão” não bastasse, uma praga é liberada e louva-a-deus de 1,80m passam a vagar pela cidade, com muita fome e desejo de se reproduzir.

Essa é a história de Austin Szerba. E talvez também seja a história do fim do mundo. 



Andrew Smith, o autor
Selva de Gafanhotos foi uma oportunidade de leitura inesperada, que aceitei mesmo sem saber exatamente do que se tratava. A sinopse me passou uma impressão correta do que seria o enredo: uma mistura de elementos bizarros e interessantes. O primeiro romance de Andrew Smith publicado no Brasil é diferente - ou "louco" ou "bizarro", como preferir - em vários aspectos, começando pela narração. Logo no início, o protagonista, Austin, afirma que registrar histórias é uma atividade intrínseca aos seres humanos, e é o que ele faz: relatar sua própria história e, consequentemente, o evento bizarro que aconteceu em sua cidade.

Austin é um mestre em contar acontecimentos, já que ele faz isso há anos e possui uma série de cadernos com relatos detalhados de tudo o que acontece em sua vida. Neste relato apresentado aos leitores, mostra uma técnica própria: ele não foca apenas no que está acontecendo com ele naquele momento. Austin viaja entre passado e presente, intercalando sua própria história com episódios de seus antepassados e de outras figuras, e também apresenta acontecimentos além dos que estão ao alcance de seus olhos, como a situação do seu irmão mais velho no Afeganistão e até o desenvolvimento da praga, em locais ermos da cidade. Como ele sabe disso tudo, ele é vidente? Não, como o próprio Austin se apresenta, ele registra histórias.

Essa viagem temporal e espacial que o protagonista faz ao longo da narração pode parecer confusa, quando na verdade é de fácil compreensão. Apesar de cansativa no início pelo excesso de repetições, considero tal forma de desenvolver o romance bastante intensa e envolvente, eu me sentia carregado por cada palavra dita por Austin. Além disso, tirei lições importantes dos pensamentos de Austin, como o fato de toda história ser uma abreviação de algo maior, da realidade. Tendo dito tudo isso, seria Austin um narrador confiável? Deixo que ele mesmo responda sobre isso:


Mas, afinal, que história é essa que ele conta? Como disse no início, tudo corria bem na cidade de Ealing até que um grupo de jovens, acidentalmente, liberou uma praga contida, desenvolvida décadas antes por cientistas com desejos megalomaníacos de criar um exército de soldados irrefreáveis. O grande problema é que esses soldados são insetos de 1,80 que querem: a) alimentar-se (de humanos ou outros insetos, o que tiver pela frente tá valendo), e b) fazer sexo (com outros insetos, de preferência). Como sabemos, insetos se multiplicam numa velocidade absurda e a situação sai de controle, e os únicos que sabem do que realmente está acontecendo e como lidar com isso são Austin, seu melhor amigo Robby e sua namorada, Shann - que acabam formando um triângulo amoroso-sexual e tornam tudo ainda mais complicado. É como uma história de zumbis, mas em vez de zumbis os alvos são louva-a-deus gigantes e ainda há uma dose de dramas adolescentes.

Essa praga de gafanhotos foi uma das coisas mais diferentes e interessantes que li em muito tempo. As descrições do desenvolvimento e da vida dos insetos é muito boa, eu fiquei tão fissurado/com nojo de gafanhotos que, por alguns dias, olhei com desconfiança para qualquer inseto que estivesse perto de mim. Aliás, algumas cenas são tão visuais que, se houvesse uma adaptação desse livro, gostaria que fosse um filme trash dos anos 90 com efeitos bizarros. Cena dos gafanhotos trepando e se alimentando, cheias de gosma; ia ser a coisa mais nojenta, que você não quer assistir, mas combinaria perfeitamente com essa história.

A capa em si não é das melhores, mas edição brasileira, que tem a borda das
páginas amarelas, vale a pena ter na estante.

O romance tem várias qualidades, porém, a forma como ele trata a sexualidade me deixou bastante incomodado. O autor apresenta um personagem que ama e sente tesão pelo amigo e pela namorada, aí você pensa que vai encontrar um livro que fale de bissexualidade ou pansexualidade, saindo da dualidade homossexual ou heterossexual presente em grande parte das obras de ficção atuais. No entanto, ao longo do livro, você nota que o protagonista não sabe que bissexualidade existe - e até poderia ser um processo de descoberta, em que no fim ele percebe que não há nada de inadequado em seus sentimentos. Mas… não. No único momento em que a palavra bissexualidade aparece, ela é usada de forma irônica, num trecho que ajuda ainda mais a invisibilizar essa orientação sexual.

Tal questão pode ser observada por uma outra perspectiva, como um menino que em geral se sente atraído por garotas, mas sente o mesmo pelo amigo, com quem ele já tem um laço afetivo - e é tudo bem ser assim. Mas o Austin se sente errado, há um momento em que ele pergunta “como eu poderia estar apaixonado por um garoto e por uma garota ao mesmo tempo?”. E, no fim, não há uma solução bem clara sobre isso, as coisas terminam como terminam e pronto. Se você pensar no contexto social em que o livro é publicado, num mercado em que a maioria das obras ignora a existência de pessoas que não são monossexuais (atraídas por apenas um gênero), esse enredo é mais uma forma de apagamento.

Apesar desse grande problema, Selva de Gafanhotos é uma obra que, como um todo, me conquistou. O grande acerto do Andrew Smith ao construir essa história foi conseguir misturar um drama adolescente de young adult contemporâneo com um mundo de ficção científica que você veria num outro tipo de livro, e você tem isso em um só. É como o Austin repete várias vezes ao longo do romance: todas as estradas se cruzam num ponto, e esse ponto é a história narrada no livro. Por isso, tenho recomendado para amigos desde que terminei a leitura, porém, com um aviso: saiba o que você está encarando antes de começar, um romance interessante, problemático, intenso e bizarro.


- paulo v. santana,


Autor: Andrew Smith

Editora: Intrinseca

Paginas: 350

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(5/5 conversinhas)

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3 comentários

  1. Primeira resenha que li desse livro, bem esclarecedora, então... Não leria. Achei meio perturbador demais, eca ;-; kkk

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    Respostas
    1. HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAH eu também tenho um pouco de medo

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    2. hahaha para mim, o livro passou longe do medo, mas é meio desconfortável (e isso é bom).

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