amor autoestima

Sobre amar a si mesmo, amar os outros e produzir amor

9.3.15Diego Matioli


No dia 22 de fevereiro eu enviei uma Newsletter pelo blog. Se você assina a Hora da Conversa, talvez tenha visto ela. Ou quem sabe ela está lá, na sua caixa de Spam até agora. As possibilidades são infinitas, mas isso não vêm ao caso. A questão é que as pessoas pareceram se identificar com ela, e depois de muita resposta positivo, elogio e algumas lágrimas, a Dana veio até mim e perguntou se eu não queria transformá-la em um texto para o blog. Fiquei reticente a principio, mas sob a influência de alguns alunos acabei me convencendo de que um registro menos efêmero seria interessante, apesar de me dar a impressão de estar desvirtuando algo na natureza original da ideia. Ainda não sei se tomei a melhor decisão, mas ao menos eu tomei uma e aqui estamos nós.

Alguns avisos: Estou reproduzindo o material exatamente da forma que intentei ao enviar a Newsletter, o que significa que no meio da caminho vocês verão a tag <<Qual é o seu nome?>>, que em uma News acaba sendo substituída pelo nome que a pessoa cadastrou a assina-la. Genuinamente acredito que esse pequeno detalhe faça muita diferença no texto, mas não tenho como reproduzir o efeito aqui. Então fica o pedido: onde vir a tag, imagine seu nome. É o que eu faria se tivesse a oportunidade de ler a mensagem para você, e pode acreditar que eu teria todo o prazer em fazer isso se eu pudesse.

Espero que goste:

Em geral, minhas Newsletter parecem sempre orbitar ao redor da minha autoimagem. Isso acontece porque acho que sintetizar opiniões a respeito dessas percepções é uma forma de terapia deveras eficiente - mas também porque acredito que compartilhar esses pensamentos, para os quais eu dedico tanto tempo e energia, muito embora eles geralmente digam respeito diretamente a mim, pode de alguma forma ser de ajuda na jornada de outras pessoas. Sim, estou falando de você, <<Qual é o seu nome?>>. Acredito que falar dessas coisas faz de nós dois pessoas um tantinho melhores.

Seguindo nessa nota, recentemente eu comecei a me afundar mais em pensamentos a respeito de expectativas. Mais especificamente, as expectativas que temos para com nós mesmos. E eu queria falar sobre isso. A gente sabe que têm essas expectativas sobre o próprio corpo, ou nossa produtividade, ou sobre como nossa personalidade deveria ser, dentre outras. Somos nossos piores críticos. E aos poucos, tenho encontrados meus termos com todas essas coisas. É um processo orgânico e bem louco, mas extremamente enriquecedor.

Meu corpo é imperfeito, mas ele é o resultado de uma infinidade de fatos que me definem. Embora parte deles sejam consequências de autoflagelação de inteira responsabilidade minha, fizeram parte da construção de quem sou hoje. Não são minha ruína. Talvez uma fundação fragilizada, mas cuja a experiência na construção me permite realizar boas reformas. Meu corpo é imperfeito; ele também é um santuário que eu aprimoro diariamente, não em busca da perfeição, mas de um estado de paz.

Já fui de me cobrar muito. X livros por ano, X filmes por dia, X palavras por hora, X posts por mês. Mas quando todo o vetor da sua produção se torna um digito, e ainda mais uma variável, tudo fica meio X – indeterminado. E quando ficou assim, acabei perdendo de mim a razão pela qual eu queria fazer tudo isso. Hoje eu sei que a autenticidade e a expressão genuína são mais importantes do que qualquer resultado. E que o aprimoramento tem de ser um processo gradual, e não uma nota de corte auto imposta.

Eu me acho uma pessoa difícil. Muitas pessoas já concordaram com isso e por muito tempo eu acreditei nisso – e só nisso. Hoje eu sei que há partes incríveis dentro de mim. Hoje eu sei que o mundo não vai acabar se estiver em um dia ruim. E eu agradeço a todas as pessoas que me amaram o bastante para me contarem o que achavam de mim honestamente e permitirem que me redescobrisse através de suas palavras – também foi através de vocês que eu descobri que há pessoas que me amam profundamente, mas são incapazes de expressar isso como vocês são. Eu sou muito mais gentil comigo mesmo agora. Hoje eu acredito no que vocês falam e eu até sei que, as vezes, é verdade.

Mas como ogros e cebolas, temos muitas camadas. E penso atualmente na própria natureza do pensamento. Porque percebi que a origem desse desejo de se portar de um certo jeito, se vestir de um certo jeito, sentir as coisas de um certo jeito, bem, vem da nossa cabeça. A gente, inconscientemente, quer pensar de um certo jeito. A gente quer vestir essa máscara de uma pessoa madura e resolvida. Uma versão melhorada de nós mesmos, e acabamos deixando os pensamentos dessa coisa se infiltrarem nos nossos. Estou lendo um livro incrível, chamado “The Opposite of Loneliness”, ou O Oposto da Solidão, que fala muito sobre isso – e podem ter certeza que falarei mais sobre ele no blog. Nós, especialmente nós que somos jovens, temos medo de reconhecer nossas incertezas. A gente sente vergonha de falar que não sabe o que quer ser, o que quer fazer, a onde quer chegar. Como se fosse uma falha, porque nas nossas cabeças existe essa pessoa perfeita e decidida e feliz e a gente se compara a ela. E é aí, nesse momento, que mora o problema.

Deixa eu te contar um segredo, <<Qual é o seu nome?>>: você é uma bagunça. Uma bagunça maravilhosa e incrível. E ninguém na história da humanidade inteira viveu a mesma vida que você. Ninguém tem o mesmo corpo e história e personalidade e sentimentos e emoções que você. Ninguém sabe do que você precisa, porque você é um marco nunca antes catalogado. Você é você e nunca houve outro, tampouco haverá depois. Então está tudo bem não saber o que quer ser ou o que quer fazer. Ninguém sabe. Tudo é sem precedentes. E a gente se amarra a esses ideais doidos e começa a seguir regras imaginarias só porque é realmente assustador ter de lidar com essa falta de parâmetros. E eu entendo esse medo, eu vivo ele todos os dias. E talvez você prefira viver com medo e está tudo bem também. Quem sou eu para julgar uma vivencia que eu não conheço.

Só que eu não quero mais viver com medo, <<Qual é o seu nome?>>. Eu quero... Aliás, eu diria que eu PRECISO ser livre. Eu preciso entrar em termos com a incrível noção de que eu sou único e de que ninguém mais entenderá plenamente quem eu sou ou o que eu vivo. E que é exatamente assim que tem de ser. E que por mais que pessoas sejam de suma importância em nossa vida, por mais que ler sobre as histórias dos outros ajude a nossa própria, por mais que as vezes nossa salvação esteja no outro, há coisas e há níveis de percepções nos quais ninguém jamais conseguirá entrar de fato – e sobre esses, apenas você pode decidir. E eu preciso aceitar que qualquer decisão é válida, porque elas são todas inevitáveis. Mesmo se você decidir não escolher nada na vida, você arca com as consequências disso. Somos escravos da liberdade, e reconhecer essa prisão talvez seja a coisa mais próxima de libertação que teremos. Porque afinal, se somos obrigados a ser livres, as vezes tudo o que teremos são opções fodidas na vida (isso é uma citação do filme Trapaça, que é muito ruim, mas tem essa frase bem legal). E as vezes, tudo o que poderemos fazer é escolher uma e torcer pelo melhor. E as vezes (e esse as vezes em particular é bem frequente) tudo é uma grande experiência de testar várias coisas e descobrir a melhor. E sabe, se der ruim no final, ou se você ganhar o Nobel, nada disso determina caráter, valor ou competência. Não há parâmetros para calcular uma vida, todas elas são inestimáveis em seu infinito potencial (para mais sobre esse assunto, assista O Jogo da Imitação). Você é importante e pronto. Você é importante para as pessoas que te amam, seja qual for esse grau de amor. E é pelo e para o amor delas que você tem de se voltar na vida, porque é realmente tudo o que sempre terá sentido para você – embora esse sentido as vezes seja confuso, ele sempre é genuíno.

E acho que eu falei tudo isso porque a Bíblia diz que Deus é amor e talvez a Bíblia esteja certa. E o filme Antes do Amanhecer diz que Deus está no espaço que existe entre as pessoas, no esforço que elas fazem para se conectarem, e talvez Antes do Amanhecer esteja certo. Talvez tudo o que valha a pena seja nós aqui. E não estou falando de maridos e esposas ou esposas e esposas ou maridos e maridos. Estou falando, como Marina Keegan em seu livro póstumo, do oposto da solidão. Dessa coisa para qual não há nome, mas que existe entre o amor romântico e a senso de comunidade, mas tem a ver com se sentir vivo e amado e envolvido com as pessoas.

Tem a ver com entrar em blogs incríveis que mudam a sua vida e compartilhar experiências inenarráveis com pessoas sensacionais, cada uma a seu modo.

Tem a ver com trabalhar em uma escola de gente completamente apaixonada pela docência e se unir com elas para tentar tornar o mundo um pouco melhor todos os dias.

Tem a ver com saber que há gente de todo o mundo no What’sApp ou no Instagram ou no Facebook que sentem sua falta por um motivo ou por outro, e sempre voltam a falar com você, pedir conselhos, compartilhar alegrias ou fazer um convite para sair.

Tem a ver com saber que algumas pessoas existem, porque as vezes só isso basta.

Tem a ver com compartilhar o amor pela escrita todos os dias nas redes sociais e ver que há outras pessoas que se importam com o que te importa, e que amam o que você ama, e que querem entender o que você quer entender.

Tem a ver com saber que há quatro pessoas no mundo que estão há um telefonema de distância. Que existe uma família que o sangue não comprova, mas com as quais os laços nunca se rompem. Que existe esse amor incondicional e louco entre parentes que dão nos nervos uns dos outros e acabam se amando mais por causa disso.

Tem a ver com tudo isso para mim, pelo menos. Mas eu tenho certeza que há muito Oposto da Solidão na sua vida também. E eu só tenho 24 anos. Eu sou tão jovem. Existe ainda tanto amor para eu descobrir. Tantas formas de ver esse amor crescer. Tanto a ser descoberto.

E eu sei que eu posso morrer amanhã mesmo, <<Qual é o seu nome?>>, e você leria isso e pensaria que eu estava enganado sobre tudo. Mas eu prometo para você: o amor não morreria comigo. Ele cresceria de mim e por mim. Amor é a única coisa que transcende todas as barreiras. E toda a forma de arte eternizada é apenas um novo estado físico do amor que foi deixado por aí no mundo para a gente não esquecer o quão incrível é o mundo em que a gente vive.

E eu misturei todos os meus pensamentos nessa Newsletter aqui, e talvez ela faça sentido mas talvez também não faça. Mas seja como for, <<Qual é o seu nome?>>, eu quero que você pelo menos saiba dessas coisas: você importa, você é absolutamente único, eu te amo muito e você é meu Oposto da Solidão. E se quiser, eu posso ser o seu.

Então vamos expandir o amor.

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