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Por que 'O Pagador de Promessas' é atual e retrata o que vivemos nos dias de hoje

4.3.15Mariana Frois


Já faz um tempinho que eu estava querendo assistir o filme O Pagador de Promessas (que foi lançado em 1962). Na realidade, não havia nenhum motivo em especial. Foi durante uma aula de português, achando um pequeno texto em um livro didático, que me interessei. Em um mundo de catálogo enorme de Netflix e tanto conteúdo na internet, acabei esquecendo. Meses se passaram, e vi que um compilado do seriado, que veio após o filme, já em 1988, iria passar na Globo. Ambos foram adaptados da peça teatral de Dias Gomes. Então, decidi assistir.

Não sei se a exibição foi divulgada antes ou depois do que aconteceu na França. Só sei que a ocasião veio a calhar. Na história, Zé do Burro faz uma promessa, em um terreiro de candomblé, que caso seu burro melhore, ele vai até a igreja de Santa Bárbara, carregando uma cruz nas costas, e vai entrar com ela até o altar maior. Acontece que a promessa foi feita em um terreiro de uma religião africana, e a promessa é para uma santa católica.

As autoridades (religiosas e de segurança pública), não permitem que Zé entre com a cruz na igreja. Ele é assassinado, e em uma atitude de honra, o povo baiano coloca seu corpo sobre a cruz e invade a igreja. E aí, fica o questionamento: quantos Zés do Burro vão precisar morrer para que a gente entenda que nenhuma ideologia (seja ela religiosa ou não) vale a morte de quem quer que seja?


Nas favelas do Rio ou nas periferias de Recife. Na faixa de Gaza ou lá em Paris. Ah, a França. Ah, Paris. A capital do amor. E da xenofobia também. Assim como toda a Europa. Falo "toda a Europa", pois, a xenofobia vem crescendo em diversos países. Na Alemanha, por exemplo, as atitudes de intolerância ao que é estrangeiro estão crescendo cada vez mais, e isso é preocupante. Justamente no país que sofreu com o nazismo e com um separatismo brutal, grupos anti islâmicos estão conquistando proporções assombrosas e ganhando confiança em manifestações, passeatas e reuniões. Emesmo que demonstrem não ternenhuma veia política, muitas vezes são apoiados pela extrema direita, que (infelizmente) cresce junto com essa intolerância.

Charlie Hebdo, acima de tudo, era um veículo de comunicação. Com ironia ou sem. Com deboche ou sem. Respeitando ou desrespeitando. E afinal, o que é respeito? A publicação francesa apresentava em suas charges uma visão crítica e nada romântica das religiões. Uma visão crua e sem nenhuma hipocrisia disfarçada de fé. Li em algum lugar que muçulmanos eram os suspeitos do ataque. Fiquei chocada. É o mesmo que colocar a crença religiosa dos autores na frente de suas reais identidades, por mais que o motivo tenha sido relacionado a isso. Outra parcela questionava-se sobre a veracidade das informações da grande mídia. Suspeitavam das notícias que diziam que os criminosos pertenciam a Al Kaeda (já que o próprio grupo ainda não havia assumido a autoria) e duvidavam dos que diziam que foi gritado que tal ato estava sendo praticado em nome de Maomé.



Não tem como saber, não agora. Não há nada que justifique a morte de doze jornalistas franceses. Nem a morte de doze negros na favela. Não há nada que justifique a morte promovida por qualquer discurso de ódio nem nada do gênero. A liberdade de expressão é sagrada. Devemos sim ter o direito de criticar, ironizar, escrever e expor nossas opiniões e argumentos, sem o menor tipo de repreensão. Mas não devemos também encarar o povo do oriente médio como inimigo. Ninguém quer ver mais Zés sendo mortos. Ninguém quer colocar o corpo de ninguém sobre uma cruz e ter que invadir. Sejam parisienses formadores de opinião, sejam muçulmanos imigrantes.

- mariana frois

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