Boyhood CCAnálise

Como Boyhood transcende o que é cinema

11.2.15Diego Matioli



Qualquer filme é um recorte de percepções de seu autor – ou autores; ou colaboradores talvez seja melhor – e a intenção por trás da história sempre deve ser considerada. Alguém quis dizer alguma coisa através daquela história. Vemos isso em toda a sorte de artifícios usados no oficio: uma música triste durante o monólogo angustiado, um silencio perturbador antes do ataque da besta, um foque da câmera nesse certo item que vai ser muito importante pra trama mais tarde, um desfoque ali no assassino que só será revelado na cena final. O mesmo se dá no roteiro: o velho sábio que surge no momento de desilusão, o grande amor raptado que serve de ignição para a jornada do herói, o vilão que sofreu traumas profundos no passado.

Boyhood não é qualquer filme.

Sim, eu precisei desenvolver essa introdução dantesca para tentar explicar o que torna esse filme, que está concorrendo em seis categorias no Oscar deste ano, tão excepcional. Muito se fala a respeito da produção de caráter único dele, gravado com o mesmo elenco por doze anos. Mas a verdade é que esse recurso seria de pouca valia sem o trabalho de roteiro e produção impecáveis do filme, que é o que eu realmente quero exaltar aqui.

Esse texto contem spoilers. Você foi avisado. Mas fica a questão: quando você vai assistir? Por que, né, tô apaixonado e acho que todo mundo deveria ver ele, fim.

Boyhood mostra o amadurecimento de Mason, um garoto que mora com a mãe e a irmã mais velha. Inicialmente com seis anos de idade, acompanhamos toda a adolescência do garoto até este atingir os dezoito. É, antes de tudo, uma história sobre crescer. Mas ela foge dos padrões ao escapar de recursos típicos de outros filmes e procurar se assemelhar ao máximo com a vida real. O que eu quero dizer com isso? Bem...

Personagens interessantes surgem e desaparecem por todo o filme. Amigos de infância do Mason, professores, amigos da família e em especial o primeiro marido de sua mãe e seus enteados, que fazem parte do filme por um bom tempo e então simplesmente desaparecem. Ao invés de tentar personificar intenções ou plot devices em poucos e memoráveis personagens, o filme trata de mostrar que a vida é cheia de pessoas, e que nem todas permanecem por perto para sempre. Quantos colegas de escola nós não deixamos para trás? Parentes distantes? Ex-colegas de trabalho do pai que vimos uma ou duas vezes na vida? O cinema é uma fabrica de significados e trata de tornar toda a pessoa especial e marcante dentro dos filmes, mas Boyhood nos lembra que quem atribui importância as coisas na vida real somos nós mesmos.

Não há anúncios da passagem de tempo. Nenhum “UM ANO DEPOS”, nenhum “VERÃO”. Nada. O tempo simplesmente passa. Algumas vezes, você nem percebe que ele está passando. E tudo o que vemos é a percepção de Mason através do tempo. O que acontece com outros personagens se perde em meio a narrativa. Talvez isso soe como algo irritante, mas na verdade não é. Apenas honesto. As pessoas não entram em nossas vidas com um filme com toda a sua backstory amarrado no pescoço. E quando elas saem, nós raramente ficamos sabendo o que está acontecendo com elas se não ouvindo falar esporadicamente.

O filme não é moralista. Não há nada no tom ditando “isso é bom”, “isso é ruim”, “isso é certo”, “isso é errado”. Nós assistimos a esses acontecimentos e como eles impactam as vidas das pessoas. Ponto. E é claro, quando o primeiro marido da mãe se torna um alcoólatra violento, é fácil dizer que isso é algo horrível e desagradável (e eu vou retornar a esse ponto mais tarde), mas há tons muito mais cinzentos aqui e acolá. Sabemos, por exemplo, que a mãe é condescendente com o consumo de álcool e maconha do filho quando ele tem quatorze anos, uma atitude que certamente dividirá opiniões. Um dos namorados dela critica Mason quando o vê com as unhas pintadas de azul, outra questão que com certeza não terá unanimidade em um debate.


A história de Mason não é perfeita. E quando eu digo perfeita, não quero dizer no sentido de ser tudo feliz e maravilhoso. Mas no cinema, mesmo tragédias e problemas são intencionalmente trazidos à tona em função da narrativa. Para expor ou ressaltar algo. Boyhood não se usa disso. As coisas acontecem e ponto. Há uma cena icônica do começo do filme, em que Mason está jogando boliche com o pai e pergunta por que não pode usar um Bumper (não achei tradução. É uma espécie de corrimão de metal para ajudar crianças pequenas a jogarem. É o equivalente no boliche às rodinhas de bicicleta e por isso eu vou chamar de rodinhas, ok?) e o pai diz que ele e a irmã jamais devem usar rodinhas, pois a vida não tem rodinhas.

Então quando o marido abusivo de sua mãe bate nela, ou estoura um copo a centímetros do rosto de Mason, isso é horrível, mas a vida tem seus momentos péssimos mesmo e eu tenho certeza que todo mundo tem alguns para contar. Assim como todos tem coisas não resolvidos ou simplesmente descontinuadas na vida – por que só em filmes tudo pode ser perfeitamente amarrado sempre. A vida é imperfeita, estranha, inconstante e complicada e é isso, mais do que tudo, o que Boyhood tenta retratar. E nesse aspecto de confusão organizada que o filme realmente causa identificação com a audiência e você acaba se sentindo como se estivesse assistindo a uma coleção de fotografias de família se desenrolando diante de seus olhos

No fundo, eu acho que a falta de sentido que o filme propositalmente dá às situações é intencional também por outro motivo: é uma história sobre como nós construímos o sentido das nossas vidas. Então nada mais justo do que o diretor dar essa liberdade a audiência, não é? Mas há mais evidencias para apoiar minha causa. Duas na verdade: os pais de Mason. Eles são fundamentais para a exposição dos temas do filme. Há um trecho na reta final em que o rapaz diz não saber se quer ir para a faculdade. Ele pontua que sua mãe foi, conseguiu um emprego ótimo e no final das contas continua sendo tão perdida quanto ele.



Acompanhamos a luta dessa mulher de mãe solteira e sem formação para uma professora universitária consagrada. Vemos ela tendo de se reinventar de novo e de novo no decorrer das tragédias da vida e em sua última cena vemos a conclusão depressiva disso em que ela constata que sua vida está acabada. Ela conseguiu alcançar cada meta que tinha: ter filhos, casar, conseguir o emprego dos sonhos e agora só falta morrer. É quase cômico ver como ela está miserável, tendo-se em vista tudo o que ela sobreviveu e tudo o que ela alcançou na vida. Mas como eu disse: nós é que atribuímos sentido às nossas vidas - e também somos nós que tiramos esse sentido quando queremos.

Já o pai do rapaz no começo do filme é ausente e irresponsável. O típico marmanjo que não quer crescer e tem um daqueles carrões ostentosos. Mas ao invés de cair no cliché da figura paterna ausente e horrível, na verdade vemos ele ser uma pessoa realmente incrível. Sempre se esforçando para manter contato com os filhos e sendo super legal. E então, em uma reviravolta total, ele eventualmente se casa de novo e tem um filho e se torna um homem de família com uma van para acomodar todo mundo. Pessoas, afinal, não são imutáveis!

E no final, não sabemos se Mason é bom ou ruim, feliz ou triste. O filme, obviamente, não tenta amarrar de alguma forma o que o rapaz aprendeu com tudo o que viveu. Ele apenas viveu. Ele apenas é e vai continuar sendo e vivendo e mudando. Por que nada na vida é definitivo e Mason, assim como todos nós, não tem nenhuma obrigação de ser constante e resolvido e absoluto.




(Ah, vale comentar: fiquei impressionado em como o Ellar Coltrane ficou parecido com o Ethan Hawke no final!)

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