A cabeça do santo CCLivros

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

7.1.15Paulo V. Santana


<<Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo, e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os homens sobre a Terra.>>

Ler um livro tão bom de alguém que nasceu no mesmo país que você dá um orgulho que só vendo. A cabeça do santo fez parte das minhas leituras de agosto do ano passado e, todas as vezes que eu pensei em vir aqui compartilhar esse ótimo livro com vocês, eu desisti, achando que não conseguiria fazer uma crítica à altura. Quase meio ano depois, o receio foi embora, mas o encantamento continua: venham conhecer mais esse ótimo romance de uma escritora brasileira incrível!

Quer saber mais? Continue lendo para ver a resenha completa!



Vejam como a Socorro é linda <3
A Socorro Acioli apareceu para mim através de vários elogios. Era comentário positivo aqui, era recomendação ali… E, no meio disso tudo, ainda tinha um destaque especial: A cabeça do santo, seu primeiro romance adulto, era fruto de uma oficina com Gabriel García Márquez. O Mateus, do blog Our Vices, foi outro que só disse coisas boa a respeito da autora e, agora, não tenho dúvidas que ela merece tudo o que pode ser lido por aí.

Esse romance, que marca a estreia da Socorro na Companhia das Letras, me conquistou no primeiro parágrafo. Já no início, a autora mostra o potencial da sua escrita com uma descrição muito forte; por meio de comparações que escapam do real, ela consegue transmitir não somente a imagem, mas toda a emoção, o sentimento de uma cena. Samuel, pobre personagem cujo fim de uma jornada de dias e dias descalço marca o começo da história, não tem mais pés como qualquer outra pessoa, ele tem “um par de bichos disformes”.* E ela não para aí: durante todo o livro, somos contemplados por trechos tão belos quanto esse.
*esse início sensacional pode ser conferido na amostra disponibilizada pela editora, basta clicar aqui para conferir

Você, pessoa leitora, deve estar pensando o que diabos levou o protagonista desta trama a andar por tanto tempo sob um sol escaldante. Em resposta curta, amor e comprometimento. Em resposta longa, Samuel caminha pelo sertão do Ceará em busca do pai que nunca conheceu, o último pedido de sua querida mãe. Ao chegar à Candeia, ele acaba encontrando uma cidade praticamente vazia, algo diferente do que esperava. Quando passa a abrigar-se dentro da cabeça de Santo Antônio - não a literal, apenas uma parte abandonada da estátua inacabada em homenagem ao beato -, mais uma surpresa: Samuel ouve vozes. Não, ele não está louco: de alguma forma, a cabeça “recebe” as orações das moças da região e apenas ele é capaz de ouvi-las. Junto com Francisco, um menino da cidade, Samuel percebe, então, uma oportunidade financeira no seu “dom”. 

A partir daí, a história se desenvolve com as consequências desse novo "comércio" da cidade, que promove casamentos e tudo quanto é tipo de coisa relacionada ao santo casamenteiro. No meio de tantas vozes e tantas mudanças, Samuel ganha um outro motivo para continuar na cidade: uma voz, uma única voz, toca seu coração de forma diferente, e ele precisa encontrar sua dona.

Edição linda, tem até sobrecapa!

Como disse anteriormente, o embrião do romance foi desenvolvido ao lado de um dos mestres do realismo mágico, Gabriel García Márquez, e esse traço é facilmente percebido ao longo de A cabeça do santo. O próprio acontecimento que promove o desenrolar do enredo, quando Samuel ouve vozes dentro da cabeça abandonada do santo, é um exemplo disso. O fantástico está presente também na intrigante figura da avó de Samuel e em descrições como a que mencionei alguns parágrafos acima. E é esse “tempero” especial, unido à representação de uma cidadezinha do nordeste, que torna o romance tão especial, singular.

Aliás, depois de ter lido o livro, percebi como a Socorro Acioli seria a perfeita representante da literatura brasileira no VAM12L. Seu trabalho, além de ser de qualidade, representa uma visão de Brasil que geralmente não recebe tanto destaque quanto a dos conterrâneos que figuram as listas dos mais vendidos. Recentemente, escrevi sobre a importância de ler brasileiros como uma forma de conectar-se ao lugar de onde você vem. No entanto, não é difícil perceber que, além de uma imposição da literatura estrangeira, os livros nacionais que recebem mais destaque são aqueles produzidos na região Centro-Sul. Eu, como alguém do Sudeste, percebo um grande distanciamento das regiões Amazônica e Nordeste. Portanto, considero muito importante buscar outras literaturas, saindo do eixo Centro-Sul (representado brilhantemente por nomes como Carol Bensimon e Raphael Montes). Ler aquilo que é diferente, de certa forma, completa sua experiência de Brasil.

E, caso tudo o que eu já disse ainda não tenha lhe convencido a correr atrás desse livro, você já prestou atenção nas fotos e viu como a edição é linda? A capa amarela é, na verdade, uma daquelas capas removíveis, que cobre uma linda fotografia do sertão. Está esperando o quê? Vá ler Socorro Acioli!


Sobre a nota: Dou 4,5 conversinhas e não a nota máxima porque achei que a história se tornou um tanto arrastada e cansativa depois do primeiro terço, embora se recupere depois. Essa quebra no ritmo atrapalhou a leitura, mas não estragou a experiência. 





Livro: A cabeça do santo

Autora: Socorro Acioli


Paginas: 176


Leia um trecho



(4,5 conversinhas)


Este livro foi cedido pela Companhia das Letras. Obrigado!

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3 comentários

  1. OMG que plot legal esse da cabeça com as vozes!

    Pena que é tão curto. Dei uma lida superficial nos trechos iniciais e gostei muito da escrita ("Nem o ar tinha esperança de ser vento", que lindeza), mas li algumas resenhas negativas no Skoob dizendo que a narrativa foi mal desenvolvida. Balançado. Mas acho que darei uma chance por ser nacional. Sempre me frustro com livros curtos internacionais.

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    Respostas
    1. Oi, Felipe! O plot é mesmo incrível! E, sim, eu acho que a história meio que se perde no meio, mas, pelo menos para mim, logo se recupera. Vale a pena tentar. :)

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  2. A escritora Socorro Acioly se inspirou, na imagem inacabada de Santo Antônio, do município cearense de Caridade. O corpo do santo, foi construído e instalado no alto de um monte mas a cabeça, de tão pesada não teve como ser colocada sobre o "corpo" do santo (padroeiro da cidade). Permanecendo em uma rua da cidade continua lá, no meio das casas...
    Publiquei no meu blog Da Cadeirinha de Arruar, uma matéria sobre Caridade e, no contexto, a história do santo sem cabeça, ou da cabeça sem corpo...de Santo Antônio.

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