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Clube de Escrita: Qual é o problema de misturar as etapas da escrita?

15.12.14Conversa Cult


Como eu faço para escrever? Escrevendo. 

Isso é verdade, mas também a forma mais fácil de se enganar. Quando resume todo o processo de escrever como uma única coisa, você corre o risco de achar que não consegue escrever, enquanto o seu problema pode ser só com uma partezinha do processo de escrita. Muitas vezes algo facilmente resolvido depois que você descobre o que é. Mas não vamos nos adiantar, hoje eu não vou falar sobre as etapas do processo de escrita.

Hoje eu vou falar sobre os 2 maiores problemas de se misturar essas etapas: deixar de escrever e não usar o que foi escrito para saber o que você realmente quer dizer. 

A gente achando que consegue pular todas etapas.
(Bem, não dá pra negar que dá pra chegar no final de uma forma ou de outra)

Uma metáfora idiota: Imagina o processo de criar ideias como a passagem por várias etapas, entre essas etapas estão portões. Primeiro estão as ideias lá, em forma de pensamento, então elas passam pelo primeiro portão e se transformam ideias escritas. O porteiro é o seu editor interno, dizendo o que é pertinente ser escrito. Depois de escrita, você quer refinar, tirar as coisas desnecessárias, então passar por mais um portão. Novamente, o porteiro "editor interno" é quem está determinando o que passa. Mas repare que entre as etapas existe trabalho. O texto cresce, diminui, fica melhor. Ou seja, as ideias que estão na etapa 3 são diferentes das ideias que estão na etapa 1. Lá no fim, no último portão, é o porteiro mais cruel. Ele é que aprova a versão final do texto que vai ser publicado. Ele olha para as ideias naquela etapa final e diz: sim, elas são boas o bastante! o texto está completo! Ou ele vai reclamar de algo e mandar para mais uma etapa, onde um novo trabalho vai ser feito para que o novo texto tente passar pelo porteiro cruel.

A questão é que quando você mistura as etapas, você pega esse último porteiro cruel e coloca na primeira etapa. Então ele senta lá, com o cachimbo na boca porque eu quero que ele tenha um cachimbo, olha para as ideias na sua cabecinha e diz: Não.

Feliz da vida achando que tá ótimo e o editor bloqueia

Ele está certo. Essas ideias provavelmente não são boas mesmo, mas elas nunca vão ser se não passarem para a próxima etapa.

Então você arranca o cachimbo do porteiro e coloca ele de castigo lá para o final, colocando porteiros mais amigáveis no caminho. Fazendo parte por parte.

Eu não sei como posso ser mais óbvia. Ela era uma garota, ele era um garoto.

Quando você olha para o papel e não consegue escrever, é porque o porteiro está lá na porta bloqueando tudo. Tipo, é impossível não ter o que escrever. Pensar é algo natural. Você está pensando agora. Você sente as coisas. Você compreende o mundo. A questão é você permitir esse pensamento cru ser escrito. 

"O que você achou desse livro?"
"Achei uma merda."

Por que isso não poderia ser a sua resenha? Você sabe se gostou ou não, se sente algo estranho quanto ao livro. Se permite escrever isso. Deixa o porteiro permitir a passagem disso.

Porque quando você tem "uma merda" escrita, você pode se perguntar: Por quê?

"Ah, não sei, não gosto desse estilo de livro"

Como assim "esse estilo de livro"? Como é esse estilo? Quais outros livros são desse estilo?

Assim em frente. É como uma investigação interna. Mas você tem que se permitir escrever essas palavras ruins para ter o que investigar. Quanto mais você faz, mais fácil é escrever muito lixo sem se importar com nada.

Imagina quantas vezes esse cara não caiu pra conseguir fazer isso. 

Agora, isso não é a versão final. Isso pode ser a versão final, se você quiser. Mas não precisa ser a versão final. Você vai etapa por etapa até o seu melhor e pode pedir ajuda aos outros. 

Aqui está a segunda parte importante de separar as etapas de escrita: saber jogar fora.

A primeira é não se bloquear, deixar o lixo passar pela porta para poder ter material para investigar e desenvolver o texto. A segunda é reconhecer que isso muitas vezes é só material para investigar e não a versão final.

Pronto, você conseguiu escrever. Agora vamos editar.



Já vi textos (meus também, inclusive esse) que a pessoa fica rodeando no assunto, porque o que ela dizer não está muito claro ainda. Essa primeira parte é fundamental e inevitável para entender o que você quer dizer, só que não precisa ser a versão final. Entender isso ajuda a usar essa parte para descobrir o que você realmente quer dizer.

Depois que eu coloco tudo para fora, eu normalmente me pergunto: O que eu quero dizer?

Quero responder ao João sobre a minha rotina de cozinheira aqui em casa. 

quando você quer dizer muita
coisa e se atropela 
Então mesmo que eu tenha escrito uma bíblia contando a história da minha vida com cozinha, a resposta é "Cozinho quando eu consigo."

Em seguida vem o porteiro que pergunta: Onde eu vou responder isso?

É no blog? É em uma conversa no facebook? É como uma curiosidade no meio de outro texto? É fazendo um discurso no meio de uma festa?

Então depois que eu descobri a minha mensagem, eu adapto para o lugar. Não é nem que não sejam interessantes os detalhes da minha vida na culinária, ou que eu não tenha gostado do que escrevi, é só que não é relevante aqui para o Clube de Escrita eu dizer tudo o que eu escrevi. Se eu colocar vai mais atrapalhar do que ajudar.

"Cozinho quando eu consigo" é uma resposta que basta. Já na conversa com o João não foi e por isso eu escrevi mais.

Ou seja, se eu penso que escrever é uma coisa só, eu perco a oportunidade de olhar para o que eu escrevi e pensar em como adaptar esse conteúdo. 

Então, qual é o problema de misturar as etapas?

essa comparação com escadas foi genial. parabéns, cérebro

O primeiro é que você se proíbe de escrever e, como consequência, não tem o que melhorar. Lema de NaNoWriMo: 50 mil palavras de lixo são melhores do que nada. 

O segundo é que corre risco de você confundir lixo com o resultado final e perder a oportunidade de melhorar.

A parte curiosa é que eu escrevi esse texto aqui praticamente de uma vez só, quase sem etapas. Eu sei que eu vou fazer uma revisão final antes de postar, mas eu mal precisei editar ordem do texto. Eu comecei já sabendo o que eu ia falar (ou quase tudo, repare como na 2ª dica eu preciso raciocinar mais para chegar à conclusão). 

Por outro lado, esse texto passou por etapas mentais. Ontem mesmo eu meio que rascunhei essa versão das etapas de escrita como que a passagem de portões. Esse assunto de investigar o lixo para entender o que você quer falar já estava na minha cabeça, porque foi um problema recente com o meu amigo e eu simplesmente não sabia como dizer. Ei, o seu texto tá bom, o conteúdo é interessante, mas você pode descobrir o que você realmente quer falar e refinar o texto pra passar essa mensagem? Eu sabia o que ele queria falar, tava gritando no texto, mas faltava ele ter essa perspectiva de investigar. 

Você pode tentar mostrar como é, mas a pessoa vai ter que conseguir fazer sozinha. 

Tenho a impressão de que esse texto ainda pode ser melhorado, mas por hoje é só. Esse assunto deve voltar no Clube de Escrita, porque estou longe de ter dominado. Você tem que querer melhorar, mas às vezes terminar um texto ruim e ir em frente é a melhor maneira de fazer isso. 






A autora desse texto é a Dana, especialista em falar coisas idiotas, traficante de cultura pop e o avatar. Deal with it. Me recuso a usar 3ª pessoa, então: Você pode ver todos os textos que eu escrevi aqui na tag Dana Martins e também estou no twitter @danagrint, vem conversar comigo. :)

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3 comentários

  1. Estou digitando com os pés, porque com as mãos estou aplaudindo! HAHAHAHA

    Okay, essa foi péssima, mas se eu ficar aqui para escrever um comentário enorme, falando porque esse texto foi genial e incrível, eu vou me atrasar, e ser deixada para trás hahhahaha enfim... Adorei esse Clube de Escrita e esses gifs também!

    ResponderExcluir
  2. Gente, esse texto! Queria fazer que nem a Helena, porém não tenho coordenação motora para tanto. Adorei esse texto (e os gifs! Jlaw caindo Hahahahah Mas coitada da garotinha na escada). A metáfora dos porteiros não foi nada idiota, foi excelente. É bem isso mesmo! Eu acho que sei lidar bem com os meus porteiros. Já estou acostumado com a minha escrita, sinto a coisa fluir, sabe? E como eu planejo antes de escrever (que nem vc fez com esse post), raras vezes tenho surpresas desagradáveis do tipo: Meu deus, e agora, pra onde isso vai?

    Tô indo pra fase da edição agora. E nem tô indo achando que vai estar lixo puro, estou confiante, porém sabendo que terei que me livrar de algumas coisas. O pior pra mim é isso, TER QUE CORTAR. Tenho afeto por cada frase escrita, cada piada engraçadinha porém inútil, por cada cena boa porém obsoleta.

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    Respostas
    1. A edição também me espera em um futuro próximo hahaha

      E sobre as piadinhas, Felipe, lembre-se que elas podem não contribuir para o entendimento, ou a questão maior, só que vai deixar mais divertido.

      Excluir

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