2014 CCdiário

2014: o ano que decidiu me foder

29.12.14Conversa Cult


Bem-vindos ao post que provavelmente é o mais pessoal que eu (Dana) já escrevi pra o CC. Boa viagem.

Era um sábado 22 de março de 2014 quando eu passava distraída pela sala. Vi minha tia e meu avô parados em pé com uma expressão acabada de quem acabou de descobrir algo muito ruim. Minha avó ainda estava sentada à mesa com o braço estendido depois de medir a pressão. O som era proporcionado pelo meu primo e a noiva que falavam com ela. Eu estava em movimento, voltando para o meu quarto, contornando a mesa e tentando entender o cenário. 

O grito veio de repente. Eu viro e vejo minha avó em pé na cadeira com a mão apontada para a parede como se um monstro tivesse aparecido ali. Ela enlouqueceu de vez, eu pensei enquanto via ela desabar para trás direto para o colo da minha tia. A boca dela estava torta toda puxada, o corpo estava tremendo. Ela não estava maluca, estava passando mal. Minha tia estava com a mão na boca dela por causa da língua e eu já estava a caminho da cozinha quando meu primo gritou "Cuidado com a mão, mãe! Você pode perder o dedo!" Eu voltei com um pano, que não foi usado. Eu vi o rosto da minha avó ficar roxo conforme todo o corpo dela murchava. Eu olhei para o meu avô, em cima, desesperado sem o que fazer como todo mundo. Eu precisava tirar ele dali. 

Arrastei ele pra longe e junto com o meu primo e a noiva entramos em uma guerra para conseguir uma ambulância. Com alguns momentos bem humorados, tipo quando eu e o meu primo empurramos o telefone um para o outro, até que ele pegou e olhou para mim paralisado: Eu não sei o que fazer. Eu não sei se ele disse isso, se foi uma conclusão. Eu sei que arranquei o telefone e acabei falando eu mesma.

A ambulância nunca veio. Dois planos de saúde caros que dão direto até a helicóptero e...

- Qual é o número da carteirinha, senhora?
- ELA ESTÁ MORRENDO.

Foi uma confusão, até o ponto que a mulher de um hospital com pena me a aconselhou a colocar minha avó em um carro e levar para um hospital, porque levaria horas para conseguir uma ambulância. Nesse meio tempo minha avó caída igual a uma trouxa nos braços da minha tia, todo mundo desesperado e eu só pensando nas histórias de velhinhos que passam mal e se são socorridos dez minutos antes escapam de passar o resto da vida como uma ameba.

Esse foi só um momento crítico simbólico e nem o começo dessa história. Nos dias depois disso, eu não conseguia suportar a ideia de voltar em casa. Eu não conseguia deitar e dormir porque o grito da minha avó repetia na minha cabeça. Ainda agora, se eu escuto um som parecido, eu entro em alerta por alguns segundos até perceber que é só uma cadeira arrastando no chão ou algo assim. E eu tenho plena consciência de que isso é só uma amostra grátis do inferno que pode ser viver sendo dominado por algo que é mais forte do que você.

Hoje ela está bem. Ela já esteve muito pior do que esse momento descrito. E esse momento descrito não foi nem o início do estado ruim que ela ficou - é só uma consequência. Felizmente, ela não lembra de nada da loucura de antes. Quando eu digo loucura, entenda isso como literalmente. Eu acho que não preciso presentear ninguém com mais exemplos desagradáveis. Mas aproveito para dizer que minha avó é uma prova da resistência do corpo humano, é capaz dela terminar essa história até melhor do que antes.

Por enquanto, até hoje ainda precisamos lidar diariamente com as consequência e isso é só uma parte do que deu errado nesse ano. Eu não estou nem brincando. Logo no início de 2014 rolou uma briga épica entre meu pai e meu irmão - que já era a consequência de problemas de relacionamento de uma vida inteira e alterou fundamentalmente (é, foi uma mudança tão grande quanto essa palavra) a minha relação com o meu irmão e com meu pai.

A minha relação com a minha faculdade já estava um apocalipse, já fazia pelo menos um ano que eu praticamente não ia a aula. Tranquei o primeiro semestre pra não reprovar por todas as faltas que eu já estava colecionando. Decidi nem reabrir no segundo porque eu tomei coragem pra aceitar que não estava fazendo bem para mim.

Ah, sim, o estresse. Faz um tempo que eu percebi que tinha problema com isso, mas esse ano o estresse decidiu ter problema comigo também. Eu ganhei um sensor contra situação merda: toda vez que eu não gosto do que tá acontecendo, minha pálpebra começa a tremer. É muito chato. E eu até ignorei. Mas não dá. Eu não quero viver assim.

Eu me isolei dos meus amigos (mais do que eu normalmente sou). Ao mesmo tempo acho que eu virei uma atração de problemas? Não sei, parecia que todo mundo a minha volta tava despencando também e eu me esticava para segura-los o quanto eu podia. Mas eu também não quero ser uma dessas pessoas que cuida dos problemas dos outros para não cuidar dos próprios.

Ah, e eu não quero tomar remédios. Eu não quero visitar um terapeuta. Eu não quero esquecer das coisas. Eu não quero fingir que eu não me importo. Ao mesmo tempo, descobri, eu estava fugindo. Eu não era muito diferente do Aang me enfiando em um iceberg bem no fundo do mar durante 100 anos só para não enfrentar os problemas do mundo e, mesmo depois de sair, volta e meia eu ainda paro tudo para brincar com um elefante koi.

Uma pausa só pra dizer que eu não acho errado quem toma remédios e faz essas coisas, beleza? Minha avó toma 20 remédios distribuídos várias vezes ao dia e eu vi de perto o que acontece se ela não tomar. Vocês não querem ver. Eu só acho que nós fazemos o que achamos que é necessário pra sobreviver. E, pra mim, não funciona. Eu quero ter o controle sobre a minha vida. E também é mais cômodo pra mim, pois é.

Mas, sabe, voltando para a noite depois que a minha avó foi para o hospital, eu lembro de pensar: é isso, eu preciso fazer alguma coisa, essa é a minha oportunidade de mudar. (aquele momento da madrugada que eu já estou cansada de pensar e meu cérebro se recusa a parar, então eu já to concordando com tudo que ele propor e implorando pras coisas melhorarem logo)

A verdade é: eu não mudei exatamente. Eu vi o momento se aproximar, me abraçar, dançar comigo, me levar pra cama e ir embora.

Não sei, mas acho que o momento se apaixonou por mim, porque ele não para de voltar e me foder.

Se eu fosse o mundo, estaria acontecendo a terceira guerra mundial bem agora.

Enquanto tuuuudo isso acontecia, eu também estava aqui no CC. Nós passamos por algumas mudanças também, porque chegamos a alguns momentos miseráveis. Eu não consigo lembrar nem o que aconteceu, eu só sei que no final todo mundo ficou mais feliz e conversando. Nunca houve tanta conversa e mensagem no nosso grupo secreto. Hoje em dia meu facebook tem tipo 100 notificações só do grupo quando eu entro. Foi lindo.

Até nós entramos em uma promoção.

Com outros blogs.

Comprando um livro para sortear.

E... Pera aí, cadê o Luc Besson para vir editar esse texto intercalando imagens de um leão indo engolir a presa?

A questão é que rolou o maior problema com a promoção que nem entrarei em detalhes (hoje) e que foi um tapa na cara. Mentira, eu acho que fui espancada. Rolou um problema com a promoção, levou meses para resolver até a merda chegar no ventilador e exigir que eu limpe tudo. Foi nesse meio tempo que eu finalmente percebi a minha tendência a lidar com problemas me enterrando em iceberg. Eu errei por simplesmente não reagir só porque eu não sabia como reagir.

E eu descobri que fazia isso com tudo na vida. A faculdade? Tá uma merda, não sei o que fazer, vamos enrolar tudo até que minha avó vá parar no hospital, eu finja que faltei aula só por causa dela (eu faltei, mas dava pra recuperar) e precise trancar depois do prazo para não perder o curso. Nem verifiquei essa informação, mas prefiro acreditar nisso.

Então eu ressurgi como uma fênix, ou como um ninja, e resolvi o problema da promoção! Poderia, enfim, voltar para o meu iceberg. Alguns dias depois eu entro no quarto e encontro o pacote que eu enviei do prêmio em cima da mesa. Juro que quase saí do quarto pra ver se ele desaparecia. (não desapareceu)

Era como se eu tivesse caído de cara no chão e tivessem me arrastando pelo pé de volta.

- Sua idiota, encara logo os seus problemas.
- Eu não sei como!
- Se vira.

Então, é isso. Agora eu sou uma rainha vivendo no meu palácio com tudo perfeito e a moral da história, crianças, é que para conseguir o que você quer você precisa encarar. Mentira.

Agora ainda está tudo um apocalipse. A qualquer momento minha avó vai me chamar para colocar as calças dela, ou descolar uma figurinha, ou ver se eu to viva. Minha faculdade está lá trancada e por mais que eu queira voltar no início do ano que vem, eu estou morrendo de medo de ser exaustivo da mesma forma. O problema da promoção, esse felizmente já é passado. Hoje eu decidi tentar resolver um problema dentro do blog que já me afetava há mais de um ano. Eu to tão leve que é capaz de eu voar, mas estou morrendo de medo de pegar o celular e ver as respostas e voltar tudo outra vez. Eu não quero parar de me sentir bem assim.

Se 2014 está me dizendo algo, isso é:

- Converse.

Não estou dizendo isso só porque o blog se chama ConversaCult, é só que é isso que eu to aprendendo a fazer. Falar. Ou escrever, que por enquanto é o que eu faço com mais facilidade. Cada um desses problemas tem se resolvido esse tempo todo com conversa. É algo que eu acho que deveria ter percebido esse tempo todo. Sei lá, não é óbvio que as pessoas não sabem ler pensamento? Que se eu sinto algo, eu deveria simplesmente falar? Bem, não funciona assim. Às vezes, por exemplo, o que você sente machuca os outros. Ou há sentimentos que nem eu sei o que são. Por que às vezes as pessoas falam coisas que me irritam tanto? E só aquela pessoa? O que eu deveria fazer?

Eu sei lá. Tem tanta coisa pra resolver ainda. Eu não faço a menor ideia do que fazer com a minha vida. Na verdade, no meio dessa história toda eu aprendi a reconhecer um pouco mais o que eu quero. Mas também não sei direito como eu vou conseguir, ou se eu ainda vou querer isso semana que vem, ou como coordenar para isso me satisfazer agora (eu já vivi no futuro e não deu certo). Passou até pela minha cabeça a possibilidade disso chegar no facebook e a minha família ler isso, minha vontade é de me encolher e entrar num buraco. Mas eu tenho plena consciência de que se eles soubessem um pouquinho mais do que acontece comigo, eu não me assustaria toda vez que eu escutasse eles falando de mim como se fosse uma pessoa que eu nem conheço. Ou não teria ficado aqui em casa sozinha segurando as coisas com a minha avó sem ninguém passar nem pra uma visita, o que é tão tão tão importante para os meus avós. (ontem mesmo minha avó falou que não podia morrer ainda porque tinha que ver como a noiva do meu primo vai ficar linda de vestido de casamento. a família é tudo o que eles têm. e as pessoas passam aqui uma vez na vida e outra na morte)

E já que eu estou falando disso: é chato pra caralho quando alguém vem perguntar da minha vida, tipo como tá a faculdade ou dizer o que eu tenho que fazer ou "olha, você cortou o cabelo!", principalmente o último. Minha primeira reação é mandar para a puta que pariu e depois sair correndo. Mas... eu saí do iceberg. Sei lá, vai ver eu tenho um trauma de infância e tenho pânico das pessoas me notarem. Ou eu só sou assim. (eu lembro que desde pequenininha eu ganhava meus presentes e ia pra um lugar escondido abrir sozinha) E já virou natural, então mesmo que eu saiba da importância de falar e queira dizer pra você, por enquanto ainda é difícil.

Mas esse ano não foi apenas desespero. Eu, por exemplo, fiz uma viagem incrível para assistir o Lollapalooza em São Paulo com meu pai, a mulher dele e o meu irmão. Também participei dos dois camp nanowrimos e completei as 50 mil palavras. Escrevi um moonte de textos para o CC. Terminei um conto!!!!! (tipo, ao ponto de estar revisado) Estou mais próxima dos meus amigos. Comecei um projeto de presentes. No fim das contas, sou mais quem eu quero ser. 2014, você venceu.

Mas 2014 não quer só me vencer. Não adianta eu dar 3 tapinhas no tatame que ele não vai me largar. (até porque ainda estamos em agosto...)

"Quando nós atingimos o nosso ponto mais baixo, nós estamos abertos para a maior mudança." LISPECTOR, Clarice. 

Mentira, isso é de um desenho animado que você provavelmente não assistiu porque não leva a sério. (desculpa, eu to um pouco cansada de tentar mostrar que é uma história incrível) Esse tal desenho, The Legend of Korra, é seguramente a minha referência de vida e assumir isso é só uma das coisas que eu estou aprendendo a reconhecer nesse processo todo. Eu espero que eu mude. Eu espero que eu consiga. E acabei de descobrir que estou disposta a ir mais no fundo ainda se for preciso.

Quando chegou 18 de março esse ano, eu não sabia disso. Eu fiz 22 anos nesse dia e não lancei uma música famosa e nem me vesti como hipster. Mas meu aniversário é um dia muito importante pra mim. Tão importante que eu sempre entro em crise! Eu não quero passar fazendo a mesma coisa de sempre com pessoas que nem falam direito comigo. Então nesse 18 de março, eu decidi ligar o foda-se e fazer o que eu queria. Bem, eu não sabia o que eu queria e fui parar no cinema assistindo 300 e metade das pessoas acharam o filme uma merda (eu só fiquei em silêncio, não disse que eu gostei). Mas foi uma vitória porque eu fugi das forças opressoras que queriam decidir o meu futuro (aka meus avós que mesmo quando eu falei que não queria fazer nada convidaram todo mundo aqui em casa, pelo segundo ano seguido). Mas o que importa é que nesse meu aniversário eu estava decidida a reagir pela primeira vez e acho que eu ganhei um presente.

Quando eu cheguei em casa minha avó estava mais estranha que o normal. Ela dizia pra todo mundo "Fala a verdade, eu to normal? Você tá mentindo pra mim. Fala a verdade. Eu to tentando entender." Ninguém entendeu nada. No dia seguinte eu encontrei ela parada olhando para uma página em branco no notebook esperando a mensagem de Jesus chegar, parece que ele prometeu dizer que estava tudo bem. No dia depois desse nós contamos todos os objetos da casa repetidas vezes (tem 223 pedrinhas no jarrinho de enfeite, caso alguém esteja curioso). Então chegou a sexta e com ela eu fugi de casa o dia inteiro. Mas 2014 não estava satisfeito ainda. Ele me arrastou de volta direto para o dia 22 de março de 2014.

Feliz aniversário, Dana.


plot twist: isso é tudo mentira

(tá, é verdade.)
(e muito mais coisa aconteceu de agosto pra cá, tipo mais 50 mil palavras, outro conto, coisas na equipe do CC, outra viagem, mais problema em casa e com a minha avó, duas temporadas de The Legend of Korra, Carmilla, mais Faking It, mais aprendizados... e 2014 foi um ano que eu realmente gostei, eu espero que 2015 seja tão legal quanto)





A autora desse texto é a Dana, especialista em falar coisas idiotas, traficante de cultura pop e o avatar. Deal with it. Me recuso a usar 3ª pessoa, então: Você pode ver todos os textos que eu escrevi aqui na tag Dana Martins e também estou no twitter @danagrint, vem conversar comigo. :)

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4 comentários

  1. Nossa Dana, que mar de emoções seu 2014. O meu também foi bem por aí. Acredito que foi um dos anos mais confusos emocionalmente pra mim, e eu também não quero tomar remédios. Existem crises que parecem não ter fim, mas aos poucos as coisas vão se ajeitando, ou o tempo faz com que as coisas melhores ou o tempo nos faz amadurecer e lidar melhor com as situações ruins. Estou fazendo forças energizadas para que o nosso 2015 seja melhor! Merecemos.

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  2. Poxa Dana :( To passando por uma coisa semelhante em casa (meu vô tá com problema e tendo que usar sonda e coisas assim, e sente bastante dor as vezes) e a parte que vc falou das visitas serem importantes é MUITO verdade. Ele fica louco de felicidade quando alguém vem, mas é triste quando passam semanas e nem a filha dele se dá ao trabalho de aparecer, sabe? (Detalhe: ela não trabalha, tem carro e mora perto. Éééé.).
    Quanto a faculdade: não sei como rola pra vcs, mas se der, tenta voltar, mas com menos matérias. Quando se está passando por uma situação barra pesada é muito bom ter alguma coisa que estruture a sua vida, um lugar que vc tem que ir sempre e afins.
    Enfim, eu espero que 2015 te traga coisas melhores!

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  3. Esse ano eu quero e vou ter em crédito.
    Um ano a mais de vida, bonito, próspero, saudável e rico.
    Serio.

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  4. Dana, como está esse início de 2015 pra você? Bons indícios? :)

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