Alinne Moraes Ana Luíza Albacete

Tim Maia, o Filme

30.10.14Ana Luíza Albacete


Na última terça-feira (28/10), eu (Ana) fui convidada* para a pré-estreia de "Tim Maia", filme brasileiro do Mauro Lima com Babu Santana, Robson Nunes, Cauã Reymond, Alinne Moraes, George Sauma, Laila Zaid e grande elenco. O filme não deixa tanto a desejar e mostra várias facetas do cantor nascido no bairro da Tijuca (RJ), inclusive a dificuldade que foi para Sebastião Rodrigues Maia se transformar no renomado Tim Maia. 


Baseado na biografia "Vale Tudo", escrita por Nelson Mota, "Tim Maia" é um longa-metragem com muito mais acertos do que erros. Para começar, eu não li o livro do Nelson e não assisti a peça também baseada no livro, com Tiago Abravanel interpretando Tim. Confesso que, quando soube que Tiago não faria o filme, fiquei com um certo receio, afinal, ele foi aclamado pela crítica por sua tão boa encarnação. Apesar disso, me despi de qualquer pré-conceito que eu teria com o filme e fui assistir de mente aberta (meu pai gosta muito do Tim Maia, então eu já sabia mais ou menos a história do cantor e, claro, conhecia muitas das músicas).

Robson Nunes interpreta Tim jovem, quando ele ainda usava o nome de Tião Maia e acabou criando o grupo Os Sputniks, onde tinha como parceiros Roberto Carlos (George Sauma) e Erasmo Carlos (Tito Naville). O grupo de rock tinha o intuito de se apresentar no programa de Carlos Imperial (Luis Lobianco).  Na apresentação da TV Tupi, Tião nota Janaína (Alinne Moraes) e, ali, acaba se apaixonando por ela, embora a "macaca de auditório" (como se chamavam as groupies na época) só tivesse olhos para Roberto Carlos. Mas a partir desse momento, sabemos que as histórias de Tim e Janaína iriam se cruzar mais vezes. Depois da primeira apresentação, Roberto Carlos "se exibe" para Imperial e acaba conseguindo se apresentar sozinho no programa, o que irrita Tião e acaba com o grupo de rock.


Não vou contar toda a trajetória de vida de Tim pra vocês, mas o que eu posso garantir é que, na primeira fase, os atores conseguem defender muito bem seus papeis. Robson Nunes me surpreendeu bastante como ator. Alinne Moraes amadureceu bastante, não está mais com aquela interpretação de novela, realmente passando uma realidade para o espectador, tanto na primeira quanto na segunda fase. A mesma coisa para Cauã Raymond, que interpreta Fabio (um cantor de bar que acaba conhecendo Tim Maia por um amigo em comum). Cauã, mais do que ninguém, mostrou amadurecimento na sua interpretação nesse filme. E a sintonia entre ele, Alinne e Robson foi muito nítida. Babu Santana, que interpreta Tim na segunda fase, é outra bela surpresa. Ele encarnou Tim Maia de uma forma magnífica, que me surpreendeu bastante. A sintonia se repete entre Alinne e Cauã, que são os que mais contracenam com Babu. Ninguém chama mais atenção do que ninguém. É uma coisa bonita de se ver.

Obviamente, o roteiro deixou a desejar em certos pontos: eles poderiam ter aproveitado mais a participação de Rita Lee, que é interpretada pela brilhante Renata Guida, e de Mallu Magalhães, que faz uma pequena participação como Nara Leão, cantando num bar da zona sul com o grupo da bossa nova. Entendo que talvez Nara não precisasse ser aprofundada, mas Rita Lee apareceu em algumas partes importantes, sendo que poderiam ter utilizado um pouco mais do potencial que eles tinham em mãos com a personagem.

Um problema que muitos reclamam: o filme é narrado em off por Fabio (Cauã). Algumas pessoas gostam; outras, não. Eu sou imparcial. Se funcionar em conjunto com a cena, talvez fique bom. Mas confesso que, em algumas partes, a narração não era necessária, porque a cena já era autoexplicativa. No entanto, para compensar essa falha, a forma como a história acontece é de uma forma bem descontraída. É óbvio que existe o drama, mas não é uma coisa que você vê e diz que ficou ruim. É tudo muito bem dosado nesse filme.

Apesar de ser um filme longo (2 horas e 20 minutos), "Tim Maia" não se arrasta. É bem ágil, e a forma como Mauro Lima conta a história é envolvente. Lógico que a qualidade da fotografia e a trilha sonora ajudam bastante a mantermos o foco, então, ao meu ver, o filme acaba sendo bom porque podemos ver a criação em conjunto.

Bom, saindo um pouco dessa análise técnica, eu queria discorrer sobre algumas coisas:

Esse filme abriu a minha mente por completo, porque eu pude ver que Tim Maia era um gênio (dã, disso a gente já sabia!). Porém tudo que ele tinha de genialidade, ele tinha de temperamento.  Era um cara muito difícil de lidar, as pessoas tinham que saber quais palavras usar para poder contornar Tim. Ao mesmo tempo que demonstra ser meio bronco, no fundo ele era um cara muito sensível, mas não conseguia deixar as pessoas chegarem a vê-lo até esse ponto.



Depois de assistir esse longa, eu entendi as "reclamações" das pessoas: "Tim Maia não vai ao seu próprio show". As pessoas colocaram toda a culpa nas drogas. Em parte, acho que as drogas ajudaram bastante a "destruí-lo", mas a história de vida de Tim ajudou bastante na sua transformação. Imagine viver num bairro relativamente rico do Rio de Janeiro, sendo negro e pobre em plena década de 50? Era realmente difícil (essa infância dele é retratada no filme, ele ajudando os pais a vender marmita), principalmente quando ele tem um sonho, consegue se apresentar com Os Sputniks, mas acaba não dando certo. Tudo bem que, depois de muito tempo, as coisas foram dando certo na vida dele musicalmente. Uma coisa que me chocou bastante foi uma coisa que ele fala que todo mundo que ama acaba abandonando-o e virando seu inimigo. Aquilo ali, pra mim, foi a certeza de que existia um homem sensível ali, mas ele não conseguia deixar as pessoas enxergarem esse seu lado, talvez por medo, por orgulho ou qualquer motivo que nunca saberemos. Ali, eu tive certeza que Tim tinha potencial para ser amigo de quem ele quisesse, que podia fazer a música que ele quisesse, mas que o fato dele "ocultar" esse seu lado não deixava que isso acontecesse.

Eu não sei se é porque eu sou "bastante próxima" dessa realidade do Tim Maia (vamos lá galera, eu faço cinema. É bem difícil essa carreira e tals...), mas esse filme me tocou bastante. Acaba sendo, pra mim, um incentivo (meio errôneo) para as pessoas não desistirem de correr atrás do que elas querem, de seus sonhos, mostrando ao mesmo tempo que se não pararmos em algum momento para avaliar até onde podemos/devemos ir, é fácil nos perder no caminho.

Tim Maia foi um gênio inigualável, fez muitas músicas incríveis, que infelizmente não teve limites e não soube avaliar o caminho que ele estava indo. Talvez, se tivesse parado para pensar e reavaliar as coisas racionalmente, Tim Maia ainda estivesse vivo.



Nota:
5 conversinhas e favorito. Porque apesar de algumas narrações desnecessárias, esse filme me encantou por completo.




- Ana Luíza Albacete

*Fui à pré-estreia a convite de José Roberto Monteiro Gifford. Obrigado pela oportunidade! 

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