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Já parou para refletir sobre o turismo sexual?

25.7.14Paulo V. Santana

Foto: Denilton Oliveira

Chegou a minha vez de escrever o post do especial CCSecreto - o especial das sextas de julho - e preciso confessar: até agora, não fazia ideia de como abordar o assunto. O turismo sexual, tema que me fez suspeitar da Igra como amiga secreta, é algo que eu obviamente sei que existe, porém, nunca tive oportunidades ou motivos de pesquisar a fundo. Por isso, o texto de hoje será basicamente um pouco das minhas impressões e questionamentos sobre o que li por aí. Vamos lá?


Antes mesmo de jogar “turismo sexual” no Google e ver o que ele tinha a oferecer, pedi recomendações de links a uma amiga (a Priscilla, que já foi mencionada em outros posts). A resposta dela veio com uma página do Facebook, Abolição da Prostituição, que já mudou a minha visão sobre o assunto na primeira publicação, que continha a imagem e o texto abaixo (compartilhados de outra página, a GARRa feminista).


“Os jornais liberais falam em meninas que "se prostituem", como se elas se prostituíssem sozinhas, por escolha própria. A violência é noticiada dessa forma pra esconder a realidade da opressão e da exploração de mulheres e apagar os agentes dessas violências: homens que aliciam e traficam meninas, homens que pagam esses homens.  
Eles focam apenas nas crianças pra espalhar a ilusão de que a mulher adulta não é vítima de prostituição, mas livre para escolher, como se magicamente a mulher aliciada enquanto jovem passasse a nunca ter sido vítima da violência masculina quando se torna maior de idade.”

Até ler o texto acima eu não tinha noção da real situação de prostitutas. Na minha cabeça, as mulheres deveriam ser livres para exercer a profissão que desejassem e o Projeto de Lei Gabriela Leite, do deputado Jean Wyllys, era positivo, já que a legalização da prostituição protegeria essas profissionais e concederia a elas os mesmos direitos de outros trabalhadores. Não percebia como o sistema patriarcal atuava por trás da prostituição nem que a liberdade dessas mulheres inexistia. Depois de ler, me dei conta de que a legalização servia, de fato, para elevar ao status de empresário os cafetões, sem beneficiar de forma alguma as mulheres.

A todo momento somos expostos à ideia de que os homens devem “pegar” as mulheres e que o corpo delas é um mero instrumento, e a prostituição está aí concretizando esse pensamento. 

Todos conhecem a imagem de brasileira que é transmitida ao redor do mundo: uma mulher morena de peitos e bunda grandes trajando o menor bíquini possível. E é isso que os estrangeiros vem procurar aqui. O perfil de turista mais comum durante a Copa era um homem jovem, solteiro e rico; acha mesmo que eles só assistiram a partidas de futebol?


Até a marca de artigos esportivos Adidas incentiva isso. Nas vésperas da Copa, eles lançaram as duas camisetas da imagem acima. Uma com “lookin’ to score” (podemos traduzir como “em busca do gol”, que ganha um novo sentido nesse contexto) e o estereótipo de mulher brasileira, enquanto a outra teve o coração de “I <3 Brazil” transformado em uma bunda. O perfil do twitter da presidente Dilma se manifestou contra o turismo sexual e o Ministério do Esporte criou uma versão bacana das estampas, mas sabemos que isso não quebra a imagem de mulher-objeto. 

O Luciano Huck, mestre da arte da “coxinhice”, é um exemplo de quem não usa a sua influência para combater o turismo sexual e sim promovê-lo. Também no período da Copa, postou nas redes sociais o anúncio abaixo, que foi bem criticado na internet. Repito: os turistas não vieram apenas pelo esporte.


Na página da Wikipedia sobre turismo sexual, uma frase, retirada do livro “Sex Tourism: Marginal People and Liminalities”, me chamou a atenção: “Geralmente, a prostituição doméstica antecede o turismo sexual, ou seja, há primeiro uma procura interna à prostituição e só depois se verifica a chegada de turistas sexuais.”

Vemos isso claramente aqui no Brasil. O número de mulheres adultas e jovens que se prostituem já é alto em épocas normais, sendo multiplicado em períodos turísticos. É evidente que o problema não está na mulher fazendo sexo, mas no motivo pelo qual isso acontece. As prostitutas muitas vezes começam a exercer a profissão por necessidade. Necessidade. A prostituição é como a ideia do corpo como objeto se concretizando, já que ele acaba sendo o último instrumento no qual a mulher pode contar para conseguir suprir as necessidades financeiras e sobreviver. 

E, como sempre, os verdadeiros beneficiados são os homens.

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6 comentários

  1. Meu deus, essas camisas ridículas o.o

    Só por curiosidade: Esse tema se aplica somente para as mulheres? Existe turismo sexual que explora homens? Outra: Será que há um número considerável de mulheres que usufruem do turismo sexual, chegando a viajar para aproveitar disso?

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    Respostas
    1. Oi, Felipe!

      Então, o turismo sexual não é algo exclusivamente feminino. Há também homens que se prostituem, claro. Decidi seguir o texto nessa linha que destaca as prostitutas tanto porque foi esse o caminho que encontrei nas minhas pesquisas quanto pelas mulheres serem a face mais evidente desse problema. O turismo sexual não é legal para ninguém, no entanto, falar de homens e mulheres nesse quesito é diferente. Ao contrário dos homens, a situação feminina é agravada pelo machismo e pelo sistema patriarcal.

      Não vou saber fornecer nenhum dado estatístico sobre o assunto, mas essa é uma questão interessante. Mesmo que haja, não consigo encarar isso como algo positivo, assim como o crescimento do PIB pela movimentação que esse tipo de turista trás. Embora seja economicamente positivo, é socialmente/humanamente negativo. E, para mim, a questão social é mais importante.

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    2. Eu sou sumariamente contra a prostituição, é um princípio meu que não levo em consideração em discussões, porque, né, cada um tem seus próprios valores.

      Abolir a prostituição é um dilema enorme. É como tirar o direito da pessoa sobre o corpo.

      Eu estava aqui pensando se existe algum outro motivo para que uma pessoa entre na prostituição além da necessidade. Porque eu entendo que a pessoa tenha direito sobre o próprio corpo, mas o custo/benefício não parece valer a pena. Exceto para "prostitutas de luxo" (digo isso sem ter ideia do dinheiro que isso movimenta). Será que elas também são pressionadas?

      (Desculpa por fazer essas perguntas filosóficas)

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    3. a abolição da prostituição é um posicionamento do feminismo radical e o equivoco mais comum quando o assunto é prostituição é que quando você se coloca contra a prostituição, as pessoas assumem que você está contra as prostitutas, contra o direito delas em relação ao próprio corpo.

      mas ó, viagem isso ai. ser contra a prostituição é ser contra um sistema que explora as mulheres dentro do capitalismo (oi olá o feminismo radical também é anti capitalista), contra os cafetões e contra a industria do sexo, que objetifica e desumaniza. (se você precisa pagar então é realmente consentimento?)

      quando se fala sobre prostituição e sobre a indústria pornográfica é claro que existem as exceções (tipo a sasha grey e a stoya), mas as exceções não mudam o contexto maior, do capitalismo que explora as pessoas no geral e que, com o patriarcado, dificulta ainda mais a situação das mulheres. a discussão é muito menos sobre o corpo das mulheres que são a exceção e mais sobre os homens que exploram todas as outras.

      eu me identifico muito com vários posicionamentos do feminismo radical e sou contra a prostituição, mas não contra as prostitutas. nunca contra as prostitutas. porque eu sou a favor das mulheres.

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    4. Por favor, continue com perguntas filosóficas! Genial a frase sobre abolir a prostituição.

      Olha, todo mundo é pressionado. Acho que a pressão é parte da condição de existência humana. (eu escrevi 3 parágrafos sobre isso, caso queira uma explicação melhor). Talvez a pior parte da prostituição seja o estigma na sociedade. Não, não é, mas considerando aqui apenas o ato de vender sexo em si. Imagina uma condição mais limpa em que a pessoa escolhe o cliente, ganha bem, é tudo mais direitinho. Tem muita gente fazendo sexo adoidado aí de qualquer jeito porque gosta. Por que não fazer o que gosta e ainda ganhar dinheiro por isso? Qual é a diferença?

      (partindo do princípio de que é tudo bem as pessoas gostarem de fazer sexo e fazerem com quem quiserem)

      Sem falar que desconstruir o tabu sobre o sexo e mostrar que é normal as pessoas gostarem e fazerem sexo, pode ser um passo contra a prostituição degradante. A pessoa gosta de sexo -> se sente culpada por isso -> já acha que é criminoso ou "sujo" ou danificado -> acha que não é digno de algo mais e que até merece ser castigado ou "era pra ser assim." ( "we accept the love we think we deserve") Seres humanos são estranhos, mas funcionam assim. Infelizmente, isso acontece principalmente quando se trata de mulheres.

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    5. É estranho porque a própria vítima pode se sentir prejudicada pela criminalização de seu algoz. Tem que ter toda uma política para tratar dessas pessoas, no sentido de terem uma nova fonte de renda. É bem capaz de muitas prostitutas serem contra essa abolição, é o ganha pão delas e tal.

      Outra coisa que eu penso sobre essa criminalização da prostituição é que pode acontecer da situação ficar como a das drogas e do aborto: tudo sendo feito na clandestinidade, em condições ainda piores, tráfico de pessoas... É, tipo, um GRANDE passo. Tem que ser tudo bem pensado.

      E, realmente, a pessoa que se prostitui não é dona do próprio corpo coisa nenhuma. O cafetão que é dono do corpo dela. Uma prostituta não pode recusar fazer sexo com um pagante. Nossa, é degradante MESMO.

      Sobre o que a Dana disse sobre uma "condição mais limpa", eu nem entendo por que não é assim. Por que uma prostituta precisa de um cafetão? Por que elas não atendem na própria casa ou algo assim, por conta própria?

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