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Dez motivos pelos quais está tudo bem ler YA

15.7.14Paulo V. Santana



No mês passado foi publicado um artigo horrível que defendia que adultos que leem livros para o público jovem adulto - os Young Adult, ou simplesmente YA - deveriam sentir vergonha. Essa ideia está errada em vários aspectos e gerou um grande barulho nas redes sociais; leitores e escritores se indignaram com a diminuição dessa fatia do mercado literário e escreveram textos e tweets defendendo o segmento. Um dos mais divertidos que li foi o da escritora Kathleen Kale (em inglês), e outro que também gostei foi o do Matt Haig, autor de "Os Radley" e outros romances. Ele listou em seu blog dez razões pelas quais ler YA é positivo, que traduzimos para os leitores do ConversaCult. Para conferir, basta continuar lendo o post. 


(...)

"Eu acabei de ler algo e fiquei irritado. E a irritação, ao que parece, é o principal estímulo para blogar. De acordo com os principais pesquisadores da Universidade do Faz-de-conta, 88 por cento da internet é feita de irritação.

O que me irritou foi um artigo no Slate chamado “Against YA: Adults should be embarressed to read children’s books” (Contra o YA: Adultos deveriam se envergonhar por ler livros de criança). A principal queixa da autora é que uma quantidade crescente de pessoas - pessoas adultas - está lendo John Green, Stephen Chbosky e Gayle Forman e não está sentindo vergonha. 

Isso me deixou com raiva. Isso me fez pensar em todas as formas que isso não é saudável. Isso me fez pensar em todas as razões pelas quais isso está errado. Aqui estão apenas as dez primeiras que vieram à minha cabeça:

1. Não deveria haver vergonha em ler, o que quer que seja. Há muita vergonha no mundo. Vergonha é a inimiga da verdade e a amiga da pretensão, especialmente quanto se trata de livros. Não deveriam fazer as pessoas se sentirem mal pelo que elas estão lendo. Pessoas que se sentem mal por ler irão parar de ler.

2. Muitos dos maiores escritores têm sido os escritores infantis. E não apenas YA. Sim, John Updike e Alice Munro são brilhantes, assim como Lewis Carroll, JM Barrie, Philip Pullman, CS Lewis, SE Hinton e Maurice Sendak. O brilhantismo surge em várias formas.

3. Adolescentes não deveriam ser tratados com condescendência. O artigo inteiro parece sugerir que um adulto compartilhando o mesmo gosto de um adolescente é fundamentalmente embaraçoso. Por quê? Adolescentes são os consumidores de cultura mais apaixonados que existem. Pense na música. Quem fez os Beatles populares? Ou os Stones? Ou o Bowie? Ou o Nirvana? Pessoas velhas? Ou adolescentes? Adolescentes não apenas possuem tantas células cerebrais quanto nós (mais, na verdade, já que nossos cérebros perdem 100,000 neurônios por dia), mas são mais receptivos a coisas novas e fenômenos. Eles são literalmente a vanguarda. Eles não poderiam ter escrito esse artigo do Slate. 

4. Escrever YA é tão difícil quanto escrever para adultos. Eu escrevi um livro YA, três livros infantis e cinco livros adultos (OA?)*. O mais difícil entre todos esses foi escrever o YA.
*”Old Adults” (velhos adultos), referência à “Young Adults” (jovens adultos)

5. Escrita acessível não deveria ser rejeitada. Graham Greene era um escritor acessível. John Steinbeck também. Assim como George Orwell, Harper Lee, Ray Bradbury, JD Salinger, Jane Austen etc etc. No entanto, o esnobismo literário está nos levando a acreditar que acessibilidade e inteligência são incompatíveis. Eu apostaria que a popularidade do YA é menos um sintoma de um emburrecimento de gostos e sim uma reação contra o emburrecimento. Deixe-me explicar. O mercado de livros adultos tem sido polarizado entre livros comerciais “fáceis” e livros literários “difíceis”. O YA não joga esse jogo. Ele consegue ser fácil e inteligente, tudo ao mesmo tempo.

6. Adolescentes são filósofos. Pense nos livros YA populares. Eles costumam tratar de assuntos de vida e morte, questões de gênero, raça, sexualidade. Coisas importantes. Você consegue se lembrar de como era ser adolescente? Não era um período de pensamentos rasos. Pelo contrário. Você está vivendo aceleradamente. Seu corpo e sua mente estão mudando a cada dia. Você está constantemente se questionando quem você é e onde você se encaixa. Você está no centro do ciclone que é a vida. Não há nada marginal sobre ser adolescente.

7. Criticar uma das poucas histórias de sucesso do gênero no mundo dos livros e tentar estigmatizá-la em nome da leitura e da literatura é quase como atirar em um golfinho em nome da biologia marinha.

8. As maiores histórias apelam para os nossos eus mais profundos, as partes de nós que o esnobismo não pode alcançar, as partes que conectam as crianças com os adultos e o cérebro com o coração e a realidade com os sonhos. Histórias, em sua essência, são inimigas do esnobismo. É por isso que o YA tem sucesso.

9. Alexander Pope tinha doze anos quando escreveu “Ode to Solitude“. Mary Shelley tinha dezenove quando teve a ideia de “Frankenstein” pela primeira vez. Mais recentemente, Helen Oyeyemi escreveu seu romance amplamente aclamado “The Icarus Girl” quando ela estava estudando para os exames pré-universidade. Idade é realmente apenas um número.
*no original, A-Levels (x | x)

10. Não é o que você lê, mas como você lê. Nunca julgue o que alguém lê ou por que eles leem isso. Você não detém os direitos da cultura. Frequentemente, as coisas que podem parecer simples são ricas e com muitas camadas. Há tantas versões de um livro quanto há leitores. Não existem duas experiências de leitura que sejam iguais. Livros são excelentes porque abrem mentes e transcendem fronteiras. Eles nunca deveriam ter cercas ao seu redor."



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5 comentários

  1. Oi! :) Eu sou adulta e leio infanto-juvenil, assim como leio também YA! Não me sinto nem um pouco incomodada com isso e compartilho a opinião que as pessoas devem ler o que sentem vontade. É claro que nem todos os livros infantis provocam o mesmo efeito de quando se é criança, porque tudo tem sua fase. Da mesma forma, alguns dilemas adolescentes me irritam um pouco, porque não estou mais nessa idade e tal... Mas, como disse, eu leio sim e já me surpreendi positivamente com muitos livros juvenis (ex.: "O Céu Está em Todo Lugar", "Diga aos Lobos que Estou em Casa", "A Fera" etc).
    Depende muito também de como os personagens são construídos e os conflitos abordados, porque outros já não surtiram o mesmo efeito. ://

    Enfim, eu procuro ler um pouco de tudo. Tenho meu gênero favorito, claro, mas isso não impede que eu busque outras leituras, até porque, se eu não fosse receptiva a outros gêneros, eu não teria descoberto leituras tão boas que, talvez, eu teria deixado passar por causa do "pré-conceito". :)

    Bjs ;)

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    1. Adorei o seu comentário, Ana!

      É bem isso mesmo. Para mim, as pessoas tem momentos para ler certas histórias. Algo que foi muito revelador e surpreendente para mim quando eu era mais novo talvez não tenha efeito daqui alguns anos. E isso não quer dizer que o estilo daquele livro que é inferior e não presta, eu é que estou numa nova fase, com novos conhecimentos etc. e aquele livro específico não causou tanto impacto - e isso não apaga o que ele já fez em outro momento da vida.

      Até! :)

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  2. OLÁ, EU GANHEI UM SORTEIO DA PROMO QUE SEU BLOG ESTAVA PARTICIPANDO HÁ QUASE 3 MESES, E VC NÃO MANDOU O LIVRO QUE VC FICOU RESPONSÁVEL E IGNORA MEUS MINHAS MENTIONS...

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    1. Junior,

      Por motivos de força maior o seu livro não foi enviado, mas em breve o receberá em sua residência. Peço desculpas pelo inconveniente.

      Equipe ConversaCult.

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  3. Paulo isso que vc falou (Algo que foi muito revelador e surpreendente para mim quando eu era mais novo talvez não tenha efeito daqui alguns anos.) É tão verdadeiro. Eu leio YA, e curti muito. Na verdade, eu leio qualquer coisa contanto que esteja com vontade de ler. Acho que ficamos muito pressos em nomes, classificações. Ultimamente, ando pensando que as classificações não estão fazendo muito bem para o mundo literário. As pessoas estão deixando de falar "eu leio livros" para falar " eu leio tão gênero", além do preconceito para alguém que ler diferente de vc.

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