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[Resenha] Uma Longa Queda, de Nick Hornby

23.6.14Paulo V. Santana

por Paulo V. Santana

- Livro: Uma longa queda
- Livro Único
- Autor: Nick Hornby
- Editora: Companhia das Letras
- Comprar: Saraiva, Fnac, Travessa
- No Skoob

Leia também: Alta Fidelidade










Minicrítica - Resumo:
Maureen, Martin, JJ e Jess. Quatro pessoas completamente diferentes que decidem uma mesma coisa: vão se jogar do prédio mais alto de Londres na noite de Ano-novo. O que cada um deles não esperava era encontrar outras pessoas no que seriam seus últimos momentos de vida. Com esse encontro inusitado, os quatro formam um grupo e acabam se tornando amigos. 

A história é diferente, os personagens são bem construídos e a relação entre eles é ótima. Mais uma vez, Nick Hornby acerta e entrega um romance excelente. Recomendo a todos que procuram um livro que sirva tanto para passar o tempo como pensar na vida. 

Quer saber mais? Clique abaixo para conferir a resenha completa!



Capa de uma das edições da Penguin
No ano passado, li “Alta fidelidade”, o primeiro romance do Nick Hornby. Foi meu primeiro contato com o autor e, como disse na resenha, logo fiquei apaixonado. Eu precisava de mais Hornby e essa vontade foi finalmente saciada com “Uma longa queda”, publicado originalmente em 2005. Spoiler do que vou dizer mais adiante: foi uma leitura ainda melhor.

A capa da edição publicada recentemente pela Companhia das Letras traz o seguinte comentário do jornal britânico The Sunday Times: “O melhor romance de Hornby até agora”. Li apenas dois entre tantos outros livros do autor, mas não posso deixar de concordar com o elogio. Sempre com humor e referências à cultura popular contemporânea, Hornby se destaca, dessa vez contando a história de quatro pessoas que, do dia para a noite, acabam formando uma “galera”.

Maureen é uma senhora nos seus cinquenta anos cujo tempo se divide entre ir à igreja e cuidar do filho deficiente. JJ trabalha como entregador de pizza, mas na verdade é um músico que encerrou sua banda há pouco tempo e foi chutado pela namorada. Jess é uma jovem de 18 anos que pode ser descrita como… intensa. Martin costumava ser famoso por apresentar um programa matinal, até ele ser preso por transar com uma adolescente. Eles não tem absolutamente nada em comum, exceto por uma coisa: todos planejavam se jogar de um dos prédios mais altos de Londres na noite de Ano-Novo.

“A maioria das pessoas saca isso de se suicidar, acho; a maioria, mesmo que a coisa esteja escondidinha bem lá no fundo em algum lugar, lembra de um momento da vida em que pensou se queria mesmo acordar no dia seguinte. Querer morrer parece que talvez seja meio que parte de estar vivo.” -JJ

O suicídio é uma questão universal, como um dos personagens evidenciou no trecho acima, porém as representações na ficção dificilmente são como esse livro. Não se trata de um romance extremamente melodramático sobre pessoas que querem morrer nem um passo a passo que condena suicidas e tenta te convencer que a vida vale a pena. A melhor forma de descrever “Uma longa queda” é: uma história sobre quatro pessoas muito diferentes que acabam se tornando amigas por estarem insatisfeitas com a vida que levam. Apesar do contexto e interesses completamente distintos, situações de desespero e buscas em comum podem acabar unindo as pessoas. Assim, o que poderia ser o fim da vida dos quatro é o início de um grupo e de um período de renovação.

Todos os personagens têm suas próprias características e cada um deles é bem desenvolvido ao longo do livro. Como grupo, o fascinante é a diferença entre eles. Observando a superfície, não há nada semelhante entre os personagens e, em qualquer outra situação, eles provavelmente não criariam vínculos. O Hornby não fala sobre pessoas que são desse ou daquele jeito e por isso pretendem se suicidar; a grande sacada do romance é trazer pessoas de mundos opostos que só são reunidas por um sentimento em comum. O desejo de morrer independe da idade, da classe social, do gênero ou de qualquer outro contexto e traço de personalidade.

E a relação entre os quatro é muito interessante de acompanhar. No início, eles são “colegas de suicídio”, mas o relacionamento ganha novos contornos ao longo do caminho meio torto que é a vida. A cada encontro realizado e a cada conversa trocada, eles passam a realmente se importar uns com os outros e viram amigos. O que ligou os personagens pode ter sido um sentimento negativo, mas eles conseguiram tirar algo bom disso. Não há um clima de amizade tóxica, o que vemos é uma relação de apoio e respeito com uma dinâmica própria.

“Todo mundo passa um tempão sem dizer o que quer porque sabe que não pode ter aquilo. E porque soa feio, ou ingrato ou desleal, ou infantil, ou banal. Ou porque estamos tão desesperados em fingir que, na real, as coisas vão bem, que confessor a nós mesmos que isso não é verdade parece um passo errado. Vai lá, diz o que você quer. Talvez não em voz alta, se isso pode te meter em encrenca. (...) O que quer que seja, diz pra ti mesmo. A verdade vai te libertar. Ou isso, ou você leva um murro no nariz. Sobreviver nessa vida que você leva, seja qual for, significa mentir, e mentir corrói a alma, então dá um tempo das mentiras só por um minuto.” -JJ

As divergências entre a personalidade de cada um dos protagonistas está refletida na narração. A história é contada em ordem cronológica e em primeira pessoa, com o JJ, a Jess, o Martin e a Maureen intercalando a tarefa. Cada um deles tem o seu modo de expôr os acontecimentos e isso é essencial para conhecê-los melhor, já que a forma como você diz algo revela muito sobre você. Sempre há uma indicação de quem é o personagem quando há troca de narrador, mas a partir de certo ponto ela nem é mais tão necessária. O leitor passa a conhecer os personagens e reconhecer certas manias e estilos de linguagem. O discurso um tanto confuso e recheado de gírias e “tipo” entregam que é a Jess narrando, assim como os palavrões censurados por reticências são uma marca da Maureen. A narração é excelente, o que potencializa as qualidades da história e proporciona uma leitura rápida e prazerosa.

Poucos livros me dão vontade de ler devagar para não ter que terminar, e esse foi um deles. Depois da metade, senti que a história não estava mais tão empolgante quanto no início, mas o desfecho faz qualquer momento não tão bom valer a pena. Ler esse livro é como ouvir seus amigos contando uma boa história para você - em alguns momentos, os personagens até falam diretamente com o leitor. Quando um escritor acerta no enredo, nos personagens e na narração como o Nick Hornby, a indicação é mais do que obrigatória.

Classificação:
 (5/5 conversinhas)

>>>Extra: filme!
O livro, como outros do Nick Hornby, ganhou uma adaptação cinematográfica. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros no mês passado, mas já saiu de cartaz.  Imaginei os personagens de forma diferente (ignoro todas as descrições físicas dos personagens, pois é), mas adorei o que vi no trailer e mal posso esperar para ver o filme completo. Enquanto o DVD não chega, assista ao trailer abaixo.


Esse livro foi cedido pela nossa parceira, a editora Companhia das Letras.

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4 comentários

  1. Você me deixou com vontade de lê-lo. Até poderia assistir ao filme procurando links na internet, mas tenho o costume de sempre ler o livro primeiro.

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    1. Leia sim, Guilherme! Vale muito a pena. E eu até ia baixar o filme, mas não achei a legenda e resolvi assistir depois, até para dar um tempo entre o livro e o filme.

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  2. Esse livro está na minha lista dos desejados há muito tempo, mas essa resenha reacendeu minha vontade de lê-lo. Já me recomendaram Hornby várias vezes. Não me interessei muito por Alta Fidelidade, mas esse eu definitivamente quero.

    Mas, gente, como esse filme tem Toni Colette no elenco E EU NEM FIQUEI SABENDO DELE?

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    Respostas
    1. Leia, Felipe!!!! Certeza que você vai gostar. E eu também só fui saber do livro por causa do filme. A Cia. programou para lançar junto com a chegada do filme aos cinemas, daí até teve aqueles papéis na capa do livro divulgando o filme e tal.

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