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O meu, o seu, o nosso Estupro Social

5.6.13Igraínne


Olá, amores! Hoje nós vamos falar de algo muito sério – porque o CC também promove discussões de fundo ideológico, político e social. Hoje nós vamos falar sobre a mulher. Não um texto como outro qualquer que você já tenha visto no dia da mulher, mas um texto que realmente (espero) faça você refletir.

Não faz muito tempo eu me deparei com um post na internet extremamente interessante, provavelmente você até já viu. Esse post aqui. Nele, Claudia nos conta sua aventura diária e desafio sem fim de ser uma mulher (inclusive, seja você menina ou menino, aconselho ler o texto antes de prosseguir com esse post. Eu li e fiquei chocada com o quanto ela tem razão).

Mas voltando, resumidamente, ser mulher (e não só no Brasil) é ter que achar normal o cara olhar pra sua bunda no meio da rua. É ter que aturar os assovios, os comentários, o encarar que não cessa, as roupas curtas das meninas não só nas propagandas de cerveja, mas também nos programas de auditório (breve comentário: eu me sinto ofendida com as dançarinas do Faustão. Não porque sou evangélica, acredito em castidade, burca nem nada disso. Mas porque as dançarinas vestem aquelas roupas porque é ~~ legal pra audiência ~~, porque ~~atrai o público~~).


Mas o problema não é esse. Pelo menos não é só esse. Pode ter começado aí, mas não é aí que ele acaba. Porque você, eu, nós, toda mulher (sem exceção, sejam novas, velhas, pobres, ricas, magras ou gordas, não importa), toda mulher entra no ônibus e senta do lado de outra mulher quando há mil lugares vagos ao lado de homens.

E você acha isso normal.

Acontece que não deveria achar. Acontece que você não deveria ter de se preocupar com isso, e não deveria sequer incorporar isso como algo ~~ comum ~~ de se fazer. O fato de o metrô carioca ter um vagão especial para mulheres é um abuso à minha moral humana. Eu posso estar sendo extremamente radical nisso aqui, mas é que eu sou uma mulher que odeia (sim, eu odeio) precisar de um vagão especial porque vocês, homens, não sabem se controlar quando o transporte público está lotado, não sabem não “roçar” em mim. Aliás, eu acho um absurdo inclusive os homens acharem isso normal, porque estão se autodenominando animais incapazes de conter os próprios instintos. Uma amiga minha não usa vestido nunca, nem saia. E não porque ela não curte, mas porque ela vai de trem para a faculdade. Isso é um motivo válido e absurdo porque aí vai uma imagem do trem no Rio:

Ela não deveria passar por essa lotação, mas também não deveria evitar usar vestido porque "vai de trem".

Eu estava discutindo a respeito disso com uma amiga minha na faculdade, e ela me fez questionar várias outras coisas que são ditas normais no nosso dia a dia: tão “normais” que nem sequer quem é mulher nota, de tão incorporado. Eu mesma nunca tinha pensado nisso conscientemente. Nesse texto base que usei para inspirar esse post, por exemplo, a autora menciona o pensamento auge que diferencia homens e mulheres na rua. Porque quando alguém nos aborda na calçada, no bar, no ônibus, no shopping e até em lojinhas de conveniência e supermercados, a única coisa que pensamos é: por favor, não me estupre. Não pensamos: por favor, não me assalte.

E eu confesso: sou mulher, eu penso assim e jamais tinha percebido o quanto isso é grave. Mais grave ainda é saber que não é o Brasil, não é a América, é o mundo inteiro. As mulheres estão se igualando profissionalmente, ganhando tanto quanto? Legal, e a nossa moral? E o nosso estupro diário quando vamos à escola, à padaria, ao trabalho? Você, caro leitor, você acha isso normal? Você acha legal receber um assovio quando sabe que o cara que te cantou olhou imediatamente para a sua bunda ou peito? Você acharia legal se soubesse que estão olhando pro seu pinto a todo momento?

Recentemente, houve um caso de estupro na minha faculdade. Eu estudo na Uerj, uma universidade pública do Rio, e com freqüência há festinhas de recepção a calouros. Confesso que até eu já fui a essas festinhas, a mais de uma inclusive, porque... há lugar mais seguro que a própria faculdade que você estuda, minha gente? A pergunta deveria ser essa, mas já está virando o oposto: existe lugar menos seguro do que a sua faculdade?

Mas voltando ao caso da Uerj, o que nós, estudantes de lá, soubemos, é o que todo mundo soube: a menina (aluna) ficou com um menino (também aluno), e depois ficou com uma garota. O menino – revoltado por ter sido trocado por uma mulher – a estuprou para que ela “aprendesse a gostar de homem”. Isso enquanto ela ia urinar atrás de um carro no estacionamento. Simplesmente uma justificativa inigualável.

Mas o post não é sobre o problema, mais uma vez repito a vocês, o post é sobre a normalidade com que isso soa, porque eu ouvi (sim, eu ouvi, juro), que a menina não tinha que ter ido fazer xixi no estacionamento, não tinha que ter dado mole, não tinha que ter ido lá sozinha. Que ela estava pedindo porque bebeu e se abaixou onde não devia para urinar... E isso tudo foi dito por uma mulher, vejam bem o nível de gravidade da mente humana. Já seria hediondo se fosse um homem, mas mulher falando faz com que eu me sinta ainda pior.

Quando eu ouvi esse argumento, curiosamente, foi levantado, nessa mesma conversa, um caso que eu não tinha ouvido falar até então. O caso da mulher ligada a futebol que estava num churrasco de confraternização das torcidas organizadas (corrijam-me se eu estiver errada), e foi embora da festa de carona com uns 4 ~~colegas~~. Todos homens, os ~~ colegas ~~ desviaram o caminho e decidiram partir para uma festinha particular que estava acontecendo no apartamento de um deles. Lá, ao que parece, essa mesma torcedora foi estuprada por mais de 20 caras, segundo ela.

O nível de barbaridade não está em questão aqui. O que está em questão é que eu fui obrigada a ouvir, de diferentes maneiras e pessoas que: “ela não tinha que ter bebido, devia estar drogada, como que ela pega carona com 4 homens e espera que nada aconteça?”

Aqui vai um recadinho da Igra revoltada (meu nível de revolta conseguiu subir enquanto escrevia isso tudo):

Queridos, a menina pode estar bêbada, chapada, drogada, de quatro, nua, fazer um streape tease e urinar onde ela quiser, defecar onde quiser, estar torta, sair carregada da festa... como queira, meu filho. NADA disso dá o direito de você violar o corpo dela. E se você fizer, a culpa será SOMENTE do dono do pinto. Porque mesmo ela estando drogada, bêbada, chapada e nua, ela NÃO está pedindo para você fazer o que quiser com o corpo dela. Porque o corpo É dela.

Ou se você estiver nu, drogado, chapado e torto na rua, também vou sair por aí gritando que você está pedindo para te violentarem (por que homens também são estuprados, caso não saibam).


Lá no texto base da Claudia, ela fala que mais de um terço das mulheres que vocês conhecem já foram estupradas e não contaram a ninguém. Eu conheço várias mulheres que passaram por isso. Várias. Saber que esse número é real é mais do que um absurdo. É um crime à minha sanidade mental. E ainda me dizem que eu tenho de ter medo de andar de ônibus de noite, e eu tenho que abaixar a cabeça e concordar. E eu vou ter que ensinar às minhas filhas a ter medo também, vou ter que ensinar a elas, assim como minha mãe me ensinou e ensinou a você, caro leitor, que não devo entrar no carro de ninguém, mas que também não devo sentar do lado de homens no transporte público.

“Procure uma senhora” é o conselho universal.

Eu vivo numa sociedade machista onde não só os homens são machistas, mas também as mulheres. Vai ter show do Papa Roach no Rio e não posso ir sozinha porque sinto medo. Medo não por estar sozinha, mas porque é um show de rock e eu sou mulher. Eu estar com uma amiga ok, mas ainda assim teria medo. Quantos carnavais você pulou, amigo, quantos shows, a quantos passeios a noite você foi onde sua mãe preferiu que tivesse pelo menos um cara no seu grupo de amigos? Só por segurança?

Toda a humanidade é assim, eu me sinto violentada a todo instante, e as propagandas de cerveja são só o início disso. As de produto de limpeza me dão repulsa. Nunca vi um homem limpando um chão na televisão. E se a mulher limpa o carro, ela fica com a bunda pra cima do capô para exibir o corpo.

Mas o pior é quando a violência vem de um produto cujo público é feminino. Tudo corrompe um cara a estuprar. E não me digam que não, porque não conheço uma única novela assim, não conheço um filme assim, não conheço nada que não apele ao corpo da mulher como se ela não fosse um produto ou um pedaço de carne num açougue. Até Calvin Klein me ofende, meu bem, e se você não concorda, favor assistir ao vídeo abaixo, que encontrei por acaso e por acaso quero compartilhar com todos vocês.

               

Breve comentário:
Você sabe o que é Marcha das Vadias? Por favor, se você não sabe (seja mulher ou homem), entre aqui. Aproveito para dizer que o evento acontece em várias cidades do Brasil e do mundo. No Rio de Janeiro será na mesma semana da Jornada Mundial da Juventude. Mas não vou falar muito sobre essa "coincidência", porque o estupro religioso que eu e todas mulheres sofremos fica pra outro dia. 

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11 comentários

  1. Eu, homem, hétero, nunca me senti a vontade olhando descaradamente pro peito de uma mulher por exemplo, fico imaginando como deve ser constrangedor e como eu me sentiria com vcs olhando pra minha calça enquanto falam comigo.
    É, nós homens precisamos fazer a nossa parte. O que é pior, é continuar vendo que isso acontece em todo lugar, é divulgado, está nas novelas, nas séries. Se a protagonista tem 2 amores, é piranha e quer dar o golpe. Se ele tem 3 esposas, é lindo, é cômico e ele é um heroi por conseguir "aturar 3 mulheres", merece prêmio!
    Eta mundo.

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  2. Concordo com você.

    E sabe o pior? Você é obrigada a aturar, porque você tem de medo de que, se você perguntar pro babaca que está olhando seus peitos se ele perdeu alguma coisa, ele vá ir atrás de você e fazer algo pior. Como o babaquinha de orgulho ferido que estuprou a menina.

    Esse assunto me deixa muito revoltada. Sou mulher, faço universidade, falo 4 línguas e ainda tenho de ouvir que eu não posso usar a saia curta que tanto gosto, porque isso é "não ter respeito comigo mesma", isso é me denegrir. Resumindo, foda-se tudo o que eu sou boa porque "me visto como uma vadia".
    E isso tudo, vem do vizinho, da minha família e do retardado que não sabe nada da minha vida, porque se eu uso saia curta, é porque eu "tô pedindo e não me dou valor". Eu me dou valor sim, valor por ser me achar linda, inteligente e bem sucedida independente da roupa que eu uso.

    E isso é só um dos vários estupros sociais que a gente sofre como mulher. Também me revolto, e acho que a parte que mais gostei do texto é quando você fala que a mulher pode estar nua, de quatro e drogada na rua, que ela não está pedindo nada, que isso não dá o direito a ninguém de violar o corpo dela. Parabéns, uma das frases mais bem ditas que já vi.

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  3. Toda mulher, em algum momento, antes de conhecer o feminismo, também proferiu alguma machistice. Depois que a gente entende o que acontece e como o machismo coloca a gente numa Síndrome de Estocolmo, a gente começa a ficar com nojo de praticamente tudo. Pois se uma mulher faz qualquer coisa que a sociedade machista considera errado, ela se acha no direito de vilipendiar essa mulher, de ameaçá-la de estupro, de violência, a ofendem, e depois alguém me diz que ter "empatia por causa do gênero é errado". Pois bem, amigão, você não tem o meu gênero e portanto não pode saber o que é a opressão por causa do gênero, então não tem como opinar sobre isso.

    Eu não gosto de sair da USP quando a noite cai, justamente pelo mesmo medo que você postou acima. É medo, medo puro, de ter que olhar para todos os lados, de ter que pegar um ônibus que dá um baita de um rolê, porque você tem medo de andar um pouco para pegar um que vai direto para o seu ponto.

    Mulheres machistas me revoltam, e parece que nossas mães são praticamente todas assim. Cobram que pela sua ~idade~ você já deveria estar casada, ter filhos. Ou seja, dane-se se você estudou, trabalha, tá no mestrado, quer fazer um doutorado e crescer na carreira... Se você não casar e ter filhos - filho e solteira não pode, tem que casar! - é uma incompleta, uma infeliz, uma perdida, uma coitada.

    É um estupro todos os dias. Essa cultura do estupro grita. A gente grita, mas ninguém parece ouvir. E quando ouvem, falam que a gente está exagerando.

    Abraço!

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  4. Isso tudo me lembrou um acontecimento, se não me engano ano passado, com um escritor estrangeiro que não lembro o nome e uma panicat durante uma entrevista do Pânico, em que o escritor simplesmente tentou enfiar a mão dentro do vestido curto da moça e ninguém, nem os colegas de trabalho dela, fizeram nada, simplesmente continuaram a entrevista como se nada estivesse acontecendo, mesmo que ela estivesse visivelmente tentando se desvencilhar do cavalheiro.

    Difícil é saber que isso está aí, por todo lugar, intrincado no pensamento de TODO mundo.
    E o mais legal é que todo mundo adora berrar aos sete ventos como a mulher é "igual ao homem", que agora a mulher "não é mais subjugada", que "a mulher é respeitada"! Respeitada por quem? Nem mulher respeita mulher, como pedir isso de um homem que foi educado por essa mulher?
    Ainda ter que aguentar ser castrada desde criança e assistir a adoração do pênis, como se tê-lo fosse uma benção divina.

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  5. Post maravilhoso. É terrível perceber que nós mesmas propagamos o preconceito contra a mulher. repugnante.

    Espero que um dia essas coisas mudem. Porque é complicado ser mulher em uma sociedade que acha que a mulher está abaixo do homem.

    Beijos,
    Carissa

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  6. Hoje eu tava pensando nisso... pra pegar ônibus tenho que ficar num lado mais isolado do ponto. Onde não passa ninguém e é meio sem saída. Não gosto de ficar lá sozinha. Se alguém decide fazer alguma coisa não tem nem pra onde correr. Aí tinha um velhinho a uns 10 metros. Toda vez que vinha um cara estranho eu ia pra perto do velhinho porque eu sei que, por mais que em uma luta eu tenha 90% de chance a mais de vencer do que o velhinho, só de olhar que eu não to sozinha é um diferencial... E isso é uma lógica quase doentia.

    (e não sei o que é pior. isso ou fato de que eu acho que o velhinho ficou também com um pouco de medo de mim HUAHAUHAUHAUH)

    Igra, eu adoro quando você escreve com vontade, porque você escreve muito bem. (:

    Acho que minha única ressalva quanto a tudo isso é que às vezes isso pode se transformar em um discurso feminista. E é quase sair de um preconceito e entrar no outro

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    1. "Acho que minha única ressalva quanto a tudo isso é que às vezes isso pode se transformar em um discurso feminista. E é quase sair de um preconceito e entrar no outro."

      Mas o feminismo não é preconceito, Dana. O preconceito contra o gênero masculino se chama misandria e a cultura que coloca a mulher acima do homem se chama femismo. O feminismo quer que as mulheres possam andar na rua sem serem perturbadas, quer que o machismo acabe e pare de oprimir tanto homens quanto mulheres, pois ambos são vítimas dele. O feminismo quer que tenhamos os mesmos direitos e autonomia sobre nossos corpos. Se um homem pode andar na rua sem ser chamado de vadio, nós também temos que ter o mesmo direito.

      O texto é um discurso feminista, pois somos tolhidas de andar na rua, usar uma saia, ir sozinha num show ou numa balada com medo que algum mané que não nos respeita venha metendo a mão, nos beijando à força. É o machismo que faz isso e seu sinônimo é o femismo e ele é tão danoso quanto o seu sinônimo.

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    2. Sybylla, eu tava lendo seu comentário tentando entender até que... a reveleção: eu escrevi errado. HAUHAUHA Era um discurso SEXISTA, não feminista.

      Porque muita gente quando começa a divulgar o "direito da mulher em ser igual", começa a definir a mulher. E, quando começa a definir a mulher, acaba caindo numa conversa sexista e, às vezes, até machista! Aí é sair de um preconceito, formando outro.

      Eu concordo totalmente com você, e foi legal meu erro que eu não sabia que existia um termo para a versão feminina do machismo. HUAHA

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    3. Ufa! Que susto! rsrs

      E você tem razão, começou a definir, começam logo as medidas machistinhas. Toda conversa é assim.

      Pelo menos entrou um termo novo na roda! =D

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  7. Falou tudo, Igra! Isso é uma tristeza. É incrível como somos violentadas. Eu mesma, várias vezes, assim como o depoimento dessa mulher, já saí na rua ás vezes com calça jeans, camisa sem decote e mesmo assim os homens olhavam como se eu fosse um objeto e fosse ser devorada a qualquer momento. Pra você ver que a culpa não é da roupa da mulher, não é a mulher que se insinua ao usar uma saia mais curta mas é o homem que não faz nenhum esforço para se controlar! E com certeza a mídia facilita essa visão que o homem tem da mulher como objeto, mas apesar disso o homem não deve utilizar a mídia como desculpa para a violência que comete, nem a mulher deve usar isso como desculpa para se acomodar ao sistema.

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  8. Eu particularmente, sempre tive receio de como o blog iria se posicionar em relação a esse tema. Já basta o machismo que tenho que conviver no dia-a-dia, não preciso que meus blogs da barra de favoritos, comecem a me oprimir também.Parabéns pelo posicionamento, pela reflexão e pela revolta (básica que todas e todos temos quando entramos nesse assunto).
    Vale lembrar, que nascemos, crescemos e provavelmente morreremos em uma sociedade machista e patriarcal. Somos educados e estamos cercados por pais e mães, avôs e avós, tias e tios, primas e primos, professores e professoras, amigos e amigas, patrões e patroas, namoradas e namorados, tanto vitimas como agentes machistas.
    E principalmente nós ditas e ditos feministas, não estamos a salvo de ser machistas.
    É como uma reabilitação de uma educação herdada por milênios, mas é a luta mais linda de se participar!

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