antipartidarismo ditadura

Eu estive lá e...

21.6.13Igraínne


Olá, pessoas de todo o Brasil. Hoje nós vamos falar de um assunto que tem rendido bastante aqui no blog - acho que em todos os blogs que você visita, na verdade. Hoje nós vamos voltar à questão dos protestos. Mas vai ser de uma forma diferente. Por quê? Porque vai ser uma mistura de depoimento de quem esteve lá (no caso, eu) e o que a gente (povo como um todo) precisa fazer - e principalmente entender - em relação a essa onda "revolucionária" que vem acontecendo.

Pois bem. Você, querido leitor, está interessado e possivelmente apoia todos os protestos do Brasil afora. Por que eu acho isso? Porque a maior parte do público que lê blogs culturais é jovem de classe média. Se você não é de classe média e não é jovem, possivelmente também apoia, porque visita o CC, e quem visita o CC está minimamente ligado ao movimento como um todo.

Entendam, eu tenho 20 anos. Eu tenho 20 anos, sou universitária, sou da geração coca-cola. Eu apoio os protestos, mas não o que tá acontecendo hoje. Não mesmo. E o que tá acontecendo hoje? Centenas de pessoas nas ruas, cada uma gritando por uma coisa, cada uma se apropriando do movimento como se pudesse descontar ali toda a frustração acumulada em relação ao governo. Gente queimando bandeiras partidárias, repudiando partidos, o mundo, a sociedade, ironizando redes de televisão...

Não sou petista, de direita, de esquerda e muito menos fã da rede Globo de televisão. Mas se eu fosse qualquer uma dessas coisas, eu teria o direito de ter voz também. Porque estamos (olhem que ironia) num país democrático. Portanto, eu teria todo o direito de ir às ruas e lutar pelo que eu acredito. Eu teria esse direito, e direito de ir sem medo. Se eu estiver com medo é uma prova de que quem anda defendendo a democracia, na verdade não a defende tanto assim. Eu nem vou entrar em detalhes sobre o quanto isso tudo soa muito oportuno para determinados grupos, essa coisa de cantar hino e ser apartidário, enfim.

Eu fui à passeata com amigos. Nós pintamos os rostos de verde a amarelo, escrevemos cartazes, estávamos prontos. Prontos para quê? Para um movimento pacífico, bonito, algo que "nos representasse" de fato. Não estávamos prontos para uma guerra. Eu não estou pronta para uma guerra, e se você está, vá guerrear sozinho. Não estive preparada, não estou e nunca estarei. Nunca ninguém está, nem mesmo quando estamos do lado da ~~maioria~~, já que o Rio de Janeiro registrou o maior público de todo o Brasil desde que a onda de manifestações começou: 300 mil pessoas na Av. Presidente Vargas. E não tinha polícia para segurar tanta gente.


Eu cantei, andei, caminhei, corri (corri pra cacete, se me permitem o palavrão), corri mais, me escondi, me protegi, senti pânico, vi gente cheia de sangue... enfim. Em meio às músicas de bom fundo ideológico, teve aquelas das quais eu discordo um pouco, embora não integralmente, como "ô, Cabral, vai tomar no cu" e coisas no estilo "A verdade é dura: a globo apoiou a ditadura". Isso sem falar no "PSTU, vai tomar no cu". Aliás, era tanta gente tomando no cu ao mesmo tempo que comecei a me perguntar se eu tava ali pra xingar.

Eu não tava lá pra xingar, mas tinha gente que tava. Na verdade, tinha gente que tinha ido pra passeata porque "anda, vamos, vai ser legal, todo mundo tá indo"; "é a revolta do vinagre*"; ou "você tinha que ver na última, só tinha gente linda", e ainda "deixa eu postar no insta pra geral ver como sou politizada e revolucionária". Esse tipo de coisa me incomoda. Muito. Você tem o direito de ir à passeata porque é o novo point e acha que vai ser festinha, legal e cult, mas saiba que o movimento não pensa assim. O movimento não é pra isso. Saiba que movimento nenhum, passeata nenhuma, quer pessoas gritando que acordaram quando na verdade estão sonhando com o gatinho que passou ao lado. Ou virou micareta e eu não sabia?
*A revolta do vinagre já está no wikipédia.

Eu fico imaginando o que esse tipo de gente pensa quando acende a bandeira partidária no meio de uma fogueira; quando incendeia o carro de um cara que está do mesmo lado que você. Quando incendeiam o carro de uma emissora.


Sobre isso: emissoras de tv, jornais, não importa: imprensa sempre vai ser tendenciosa. Não tem como você passar uma notícia sem exprimir sua opinião nela; é impossível. Não estou dizendo que a Globo está certa, que a Record, que o SBT, o que seja, estão com a razão. O que eu estou dizendo é que você, seu alienado, só está nessa manifestação por causa da imprensa. Você só ficou sabendo dela e só a apoia por causa da imprensa. Todas as informações com as quais você teve contato: foi por intermédio da imprensa. E com certeza (COM CERTEZA) aquele carro de emissora não ia te atropelar na passeata, não ia te torturar, não ia fazer nada com você a não ser - no máximo - entrevistá-lo, e mesmo assim se você deixasse.

A globo pode monopolizar meia dúzia de informações, tanto faz. Ela não está certa em fazer isso, mas você também não está certo em xingá-la e expulsar seus repórteres da manifestação. Todo mundo tem o direito de estar ali, e quando você priva a imprensa se estar no meio, você também está privando uma boa parcela da população a ter acesso a ela. Ou você acha que todo mundo tem internet em casa? Estamos no Brasil, amigo.

Aliás, falando em bem comum (porque atear fogo no carro da emissora é atear fogo na única fonte de informação de muita gente), vamos falar agora de destruir patrimônio público e particular. Eu encontrei uma foto que me chocou ontem. Vejamos abaixo:


Nessa foto, manifestantes "radicais" destruíram um ponto de ônibus. Dá vontade de chamar essas pessoas de imbecis, porque eles não estão atingindo o governo assim. Eles estão atingindo a população, porque é a população que faz uso daquele ponto de ônibus. Eles estão se automutilando. E coleguinhas, já tivemos uma discussão a respeito de quem é o inimigo, não vamos nos esquecer disso.

Além disso e de tudo mais, não nos esqueçamos do principal motivo dessas manifestações terem começado: o aumento das passagens. Conseguimos uma vitória, é motivo para comemorar. Acho um absurdo que os governadores de diversos estados (para não citar nomes) venham dizendo que vão precisar deixar de investir em outros setores para poder suprir esse "prejuízo". Dá licencinha, que investimentos? Que eu sabia, o único investimento de que eu já ouvi falar é o que esse pessoal faz nos próprios bolsos, mas enfim. Ou na Copa, que pra mim é a mesma coisa que coisa alguma.

No dia 17, manifestantes "radicais" (odeio esse termo, porque nem acho que esse pessoal seja "manifestante", whatever) causaram prejuízos significativos na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Em resposta, o governo disse que a despesa seria equivalente a 2 milhões de reais. Pois vocês me desculpem a expressão, mas 2 milhões é o que eles querem embolsar, porque NUNCA que umas vidraças e seja lá o que for dariam um prejuízo desse tamanho. O problema aqui não é a imprensa, é a cara de pau que o nosso governo tem de ~~continuar com essa ladainha sobre ter que tirar dinheiro de outros setores~~. Aliás, se esse for o problema, tenho uma solução sensacional: tirem dos seus salários exorbitantes e comecem a mexer as pernas, porque nem um professor (que trabalha três turnos) ganha metade do que vocês ganham.

Eu sou o futuro da nação. Daqui a 20 ou 25 anos, eu e você, caro leitor, vamos estar no poder. O que você acha que faríamos de diferente? Comece agora a fazer. Comece agora a pensar. Deixe de ir às ruas porque está na moda. Vá as ruas porque você acredita nesse futuro melhor, acredita nisso tudo. Não vá às ruas para depredar (verbalmente ou fisicamente) o patrimônio público, particular ou a imprensa. Tenha um foco, não esteja no meio da multidão defendendo só uma parcela, porque o que eu vejo hoje é cada um olhando pro próprio umbigo. Eu ouvi até que ia ter uma manifestação dos taxistas. Para vocês verem como a coisa está complicada. 

Eu não tenho partido, eu não me guio por isso. Eu me guio pelo que o candidato me passa, eu voto assim, eu não quero saber se fulano é do PSOL, do PT ou seja lá o que for, embora eu reconheça que (sim, crianças), o cara precisa estar incluído em alguma frente, porque senão é ditadura. Mas o que eu quero dizer é que não voto olhando pra ~tabela~, eu voto porque quero saber do cara, do que ele está falando. Nas próximas eleições eu votarei dessa forma, porque é essa a forma que eu acredito. Não adianta eu ir pra rua, fazer parte disso tudo e chegar na eleição e votar em qualquer um. A manifestação das ruas tem que chegar na urna.

Na passeata em que eu estava, o Freixo apareceu. Por acaso, foi nele que eu votei na última eleição, embora ele tenha perdido para o Eduardo Paes (cuja vitória ainda me gera muitas suspeitas, mas enfim). Freixo sempre foi rotulado como o candidato dos jovens, principalmente do povo universitário, porque (veja bem), ele é um professor. Ele suou tanto quanto nós vamos suar. E ele estava lá, protestando, causando algum alvoroço incômodo (porque acho péssimo gente que vai pedir autógrafo como se o movimento fosse um show de rock e o Freixo estivesse lá para se exibir e tocar guitarra). Eu não tô aqui pra fazer campanha pra ele, eu garanto. Eu só estou dando um exemplo de como é possível, sim, ainda acreditarmos em alguns (poucos) políticos.

Mas há quem acredite que ele só estava lá para se promover. Muita gente acredita que partidos de diferentes frentes se envolveram para se promover. Eu também acredito nisso. Acho isso terrível, porque a maior parte do pessoal repudia o partidarismo do movimento. O movimento não foi impulsionado por ninguém, isso é um fato. Mas é também um fato que os políticos estão preocupados com isso. E sabe por quê? Porque diferente de mim, de você e de toda a galera jovem que tá nas ruas, eles votam pelo partido, e não pelo candidato. Isso é cultural, é de geração. A distância de idade nunca foi tão gritante. Metade do Congresso não entende o que tá acontecendo porque nossos motivos não seriam claros há 30 anos ou mais. Mas, eles também têm experiência nesse sentido, e sabem que a ausência de um partido representa uma ameaça nacional, não uma ameaça somente à Dilma. A ausência de partido só pode significar uma coisa e ela não é nada atrativa.


A copa para eles (governo) é uma vitória. Não só pela copa em si, mas porque desvia a atenção de todo mundo para uma coisa grandiosa que acoberta os problemas internos. Não dessa vez, não é mesmo? Você já parou para pensar em todos os campeonatos brasileiros, e todas as torcidas fanáticas por aí? Você já parou para pensar que futebol pode ser uma arma? Pare de gritar pelo Brasil, pelo Flamengo, pelo Corinthias. Grite por você, pela sociedade. Metade dos jogadores ganha muito mais que o dobro do seu salário. Muitos deles não terminaram o ensino médio. E você ainda vai ao estádio para aplaudi-los de pé, quando na verdade eles é que deveriam ir te aplaudir por você ter chegado à faculdade.

O que me dá mais medo nessas manifestações é que, quando há muita gente envolvida, a liderança e o foco são difíceis de discernir. Não é à toa que existe uma presidência: é para manter a ordem. As pessoas desesperadas sempre estão (também) desesperadas por alguém que lhes mostre a luz, que lhes diga o que fazer. Porque o pânico paralisa, e se ninguém estiver lá para dizer que "vai ficar tudo bem", você surta. E o povo anda surtando, anda se perdendo, anda muita coisa, menos fazendo democracia, vocês me desculpem. Democracia é respeito. Parem de manchar o movimento.


Hoje a Dilma convocou uma reunião extraordinária para tentar entender isso tudo. Eu acho que muita coisa se resolveria de forma prática de eles parassem de roubar (todos os partidos, porque né, o congresso inteiro anda cansando a todos nós), mas eles não vão fazer isso. Na verdade, acho que a essa altura, tem mais coisa em jogo do que só o roubo. Tem gente na internet falando em ditadura, impeachment da Dilma, eu acho isso um horror. Não tem como tirar alguém do poder se não tem quem colocar no lugar. A gente não tem quem colocar no lugar, não temos sequer partido (e isso, não me canso de repetir, é muitíssimo preocupante). Mas acontece que, se tirar o Cabral do poder, o Eduardo Paes, o Haddad... Everybody, no matter. Se a gente tirá-los de lá, vai entrar alguém pior. E se não entrar, vai ser alguém no mínimo tão ruim quanto. O problema não são as pessoas, o problema é que a gente tinha que confiar em que está nos governando. O governo não tinha que roubar, a corrupção não devia existir. Enquanto essas coisas acontecerem, podem mudar 30 vezes o governador, o prefeito, a presidência. Nada vai sair do lugar.

Mas a conclusão real é: desse jeito que tá, não vai funcionar. O único movimento no qual eu fui me envergonhou. Não acho que os primeiros tenham sido assim, eu tenho certeza que não foram. Nós precisamos parar de nos perder, exatamente como o governo frente à nossa manifestação. Eles dizem não entender o que tá acontecendo.

E você? Você entende o que tá acontecendo?

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3 comentários

  1. Preciso parabenizar toda a galera pelos posts que vocês estão fazendo e pelas discussões que estão levantando.
    O rumo do que era para ser um dos maiores atos democráticos do nosso país está praticamente se tornando uma guerra civil.
    Não sei mais o que fazer no meio disso tudo. A decepção está tão grande que eu e alguns amigos estamos cogitando sair do país.

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  2. Não chame de "manifestantes radicais". Essas pessoas NÃO SÃO manifestantes, são vândalos. Que estão aproveitando esse movimento pra se "divertir" e manchar a imagem dos manifestantes, assim como mancharam pra você.
    As pessoas esperam que protestem apenas POR UM problema, mas ESSE problema foi à gota d'agua de muuuuitos outros... outros que desde o primeiro, não tiveram coragem de protestar, e esse é o resultado. É O ACÚMULO. Não importa se cada um está lutando por um ideal, por um problema... o grito do povo é de cansaço! Não importa se é por uma, duas, três causas...
    Eu também fui ao protesto, e saí orgulhosa pela GRANDE maioria, maioria que se escondia e abaixava a cabeça pra tudo o que acontecia... maioria que só sabia reclamar via internet. Foi um manifesto de opiniões, um grito pra saberem que a partir de hoje, as coisas vão mudar, que a partir de hoje, não seremos os mesmos acomodados.
    A passagem abaixou, não o suficiente, mas essa pequena mudança serviu pra mostrar que podemos sim ter voz ativa!!

    Quanto às destruições, só podemos lamentar, por esses bandidos que NADA tem a ver conosco. E que a polícia cuide(prenda, meta a porrada mesmo).

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  3. Nunca sei quem postou. Oh Jesus!

    Então galera do Conversa Cult. Concordo com esse post e a maioria das opiniões em outros posts aqui do blog. Aliás, parabéns pela "cobertura" de vocês. Utilizei alguns links de vocês quando (ontem!) comentei no blog sobre o assunto, espero que não tenha problema.

    Sobre esse post, concordo principalmente com a questão do medo. Desde a semana passada que não apareço na universidade porque não consigo pegar ônibus aqui em Aracaju. Ou eles estão parados, ou eu tenho medo do desfecho das manifestação. Muitos professores cancelaram aula. Um horror isso tudo.

    Acho que conseguimos muitas coisas e é hora de colher frutos. Não adianta parecer um monte e Rebeldes cheios de causas... enfim.

    Beijo!
    www.milalices.com.br

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