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O Sol é Para Todos: Contextualizando o Livro

29.1.13Conversa Cult


Heeey, todo mundo! Não tinha forma melhor de começar a nossa contextualização de O Sol é Para Todos do que com a primeira página do livro onde a personagem faz exatamente isso (leia acima). Ela tenta entender onde toda essa história começou e, com ajuda do pai, entende que vários motivos influenciaram aquilo. Alguns deles ela não cita diretamente - e são deles que nós vamos falar aqui hoje!

Se você leu, não leu, gosta de aprender ou quer discutir O Sol é Para Todos, essa é a sua chance. A intenção é mesmo “contextualizar”, e não dar spoilers sobre a história em si. Como diria o paramore: vamos ver tudo com brand new eyes.

Racismo, Guerra Civil e Crise de 1929. Como tudo isso se encontra em O Sol é Para Todos?

O racismo existia e existe no mundo inteiro, de diversas formas, mas em 1930 isso era uma questão delicada nos EUA por um fator crucial da história americana: a guerra civil.

favor não usar para colar em prova!!! -nn
Mesmo que o norte tenha vencido e a escravidão "acabado", as coisas não são bem assim. Uma coisa é vencer a guerra, outra coisa é virar de cabeça pra baixo uma cultura enraizada. A população dos Estados do sul, inclusive do Alabama e da cidadezinha fictícia de Maycomb, cenário da história, não gostaram nem um pouco disso. Eles não aceitavam o direito de liberdade dos negros, não aceitavam que eles estivessem no mesmo patamar social que os brancos. Isso era tão forte a ponto de organizações serem criadas para exterminar os afro-americanos. Já ouviu falar em Ku Klux Klan?

Então mesmo 30 anos depois do fim da escravidão, os negros não eram vistos como iguais (nem perante a lei) e ainda havia um ressentimento geral no sul. Era uma época de conflitos entre costumes antigos e novos.


O fato é que “O Sol é Para Todos” retrata muito bem esse choque. Um exemplo que nem precisaria citar é o julgamento, um dos acontecimentos principais da segunda parte do livro, onde Tom Robinson, negro, é acusado injustamente de ter abusado de uma jovem branca*. A maior parte da população branca da cidade pouco de importava em enxergar a verdade sobre os fatos, tudo o que pensavam era com base na teoria da cor (acabei de inventar, mas faz sentido dentro desse contexto): “se o indivíduo é negro, logo está errado”.
*só pra constar, isso já é esclarecido na sinopse, portanto não é spoiler.

Uma outra cena que acho bem interessante é quando Atticus e sua irmã discutem sobre Calpurnia, a empregada negra da casa, e ele diz que confia nela plenamente, que ela é como se fosse um membro da família. Mesmo sendo branco, Atticus não discrimina pessoas de outra cor, muito pelo contrário. E esse é outro ponto muito bem pensado do livro: assim como há os negros sofredores e os brancos preconceituosos, o oposto também existe. Isso também é visível quando Lula, uma senhora da igreja de negros, não quer deixar Calpurnia entrar com as crianças brancas das quais toma conta no recinto. Perceberam a inversão de papéis? O preconceito racial está presente em todas as suas versões, o que torna o livro ainda mais real.

A Harper Lee não é a Lady Gaga, mas ela vai ainda mais longe nessa história de preconceito com o "diferente". No início fala sobre a perseguição aos metodistas que levou seu ancestral a viajar para os EUA, com a aproximação da Segunda Guerra Mundial foi possível fazer uma comparação entre branco vs. negros e nazistas vs. judeus e até Boo, o vizinho estranho, pode ser encaixado nessa lista.

Quando você acha que vai acabar aí, ainda tem mais nessa história. O livro se passa quando o país era afetado pela Crise de 29, a Grande Depressão.


Ninguém estava numa boa situação financeira, e isso é claramente visto em Maycomb. Não sei se vocês que já leram o livro perceberam, mas eu tive que escrever este post para me lembrar de quantas pequenas referências a esse acontecimento vemos presentes no livro.
“As pessoas moviam-se devagar naquela época. Passeavam pela praça, percorrendo sem pressa as lojas que as rodeavam; (...) Não havia pressa pois não havia onde ir, nada para comprar, nem dinheiro para tal (...)”
É muito interessante ver aos olhos da Scout, a protagonista que nasceu em uma família da elite local, o que ela pensa sobre essa situação. Em determinado momento, ela questiona ao pai sobre sua situação financeira e a de outros habitantes de Maycomb, e vê com bastante inocência toda a dificuldade que as pessoas passam. Também é legal comparar o estilo de vida privilegiado da Scout (que parece simples quando nos baseamos nos padrões atuais) com o de outros personagens do livro, que vivem em completa miséria.

Maycomb é uma cidade rural, onde a economia gira quase totalmente em torno da agricultura, então os fazendeiros foram os mais afetados pela crise. Me perguntei váras vezes, durante a leitura, se todo esse clima de pobreza contribuiu para a tensão geral que toma conta da cidade.
“(...) Mr. Cunningham [fazendeiro] dissera antes de sair:
- Mr. Finch [advogado], não sei quando poderei lhe pagar.
- Não se preocupe com isso, Walter. (...)
(...) Indaguei a Atticus se algum dia Mr. Cunningham ia nos pagar.
- Não em dinheiro – respondeu Atticus – mas antes que o ano termine ele saldará a dívida. Espere e verá.
   E vimos. Certa manhã, Jem e eu encontramos um carregamento de lenha no quintal. Tempos depois, um saco de nozes apareceu na escada dos fundos. No Natal recebemos um caixote de salsaparrilha e azevinho e, finalmente, na primavera, quando achamos uma saca de nabiça, Atticus disse que Mr. Cunningham já pagara mais do que devia. (...) Não tendo dinheiro para pagar um advogado, os Cunningham simplesmente pagavam com o que tinham.”

E famílias como os Ewell, que vivem ao lado do lixão? Acredito que a crise também serviu para as famílias brancas descerem do pedestal e ficarem na mesma situação que os negros. De um modo ou de outro, ajudando nessa aproximação.


Já demos muito o que conversar, hoje nós vamos parar por aqui. Se prepare para a segunda parte onde iremos pular para 1960 - o ano que o livro foi lançado.

Ah, e digam nos comentários o que acharam do post! A ideia inicial é fazer o contextualizando com os livros do Charlie’s Booklist e, se der certo, adaptar e trazer pra fora do projeto depois. Por isso é muito importante saber o que vocês acham da ideia, assim a gente faz o que for melhor para todos.

- joão e dana

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1 comentários

  1. Parabéns pelo post. Ótimo para contextualizar o livro para quem está ou não participando do projeto. Eu tinha percebido alguns desses pontos que vocês ressaltaram e outros também. Acho que a discussão será muito proveitosa.

    Bjoss
    http://monopapo.blogspot.com.br/

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