clube de escrita Dana Martins

Versão sem cortes: Escrevendo lixo e deixando ideia crescer

17.7.07Dana Martins

Como vocês conseguem escrever tanto e não desanimar da história?

A Anna perguntou isso lá no grupo e me fez pensar, eu decidi comentar aqui juntando mais uns assuntos que eu queria falar no Clube de Escrita. Bem... o tema do dia é: se permita escrever lixo. De verdade. Porque se você está com algum bloqueio, é porque você não está se permitindo.

Apagar seu editor interno e se permitir escrever lixo é quase o mesmo. Vou falar aqui como acontece comigo, porque vai que né...

Bem, acho que como eu, todo mundo aqui gosta de escrever histórias. Gosta de imaginar histórias. Se não você nem teria se interessado em vir aqui.

Quando eu tinha uns 12 anos, descobri o mundo das fics e comecei a escrever. Eu escrevia todos os dias: no word, no msn, no flogão e em todo lugar. Eu e uma amiga. A gente passou UM ANO escrevendo uma fic quase que diariamente pelo msn e até com direito a convidados para lerem/rirem/discutirem. Minhas incríveis histórias eram postadas diariamente e até duas vezes no mesmo dia, recebendo uns 30 comentários a cada trecho de postagem.

Agora um trecho magnífico do começo de uma:

"À algum tempo atras uns 105 anos. 2 amigos viviam juntos, Frank e Ry. Eles viviam juntos, festas, ferias, escola, td q se pode imaginar! (nem td eles sao crianças hein ¬¬)

Um dia após a aula, como sempre faziam foram para o esconderijo deles, onde passavam a tarde td e comiam balas (besteiras). Qnd estava anoitcndo eles foram para ksa, kda um para sua ksa.

Qnd Ry estava chegando em casa sozinha e feliz cantando uma musikinha viu uns policiais e mt gnt em volta de sua ksa. Ela se assustou e foi pelo "caminho secreto" para o quarto. Ela entrou escutou umas vozes em casa e escondida foi ver o q era.(...)"

As pessoas liam, adoravam, se divertiam, eu me divertia, eu escrevia, todo mundo comentava e tinha um monte de pedidos estilo "escreve fic assim", "escreve uma fic comigo e fulano" e por aí vai.

Então esse negócio de fics cresceu no Brasil, os leitores/escritores foram crescendo, a coisa foi ficando mais exigente, surgiu a onda de betas para corrigirem as histórias e eu, decididamente, não sabia nada de regras de português para escrever algo direito. Comecei a ler fics melhores também, além de mais livros.

Moral da história: eu não sabia escrever algo elaborado e simplesmente parei. Por anos eu me dizia: eu não sei escrever, eu não sei terminar histórias. Cheguei até a tentar escrever outras, cheguei a escrever uma que eu dizia a história e a minha amiga escrevia, mas nada assim.

Tinha uma mentira que eu me contava que eu adoro: só sei o final de história. Se eu só sei o final da história, como vou escrever tudo?

Sei que levei anos, até o ano passado quando tudo mudou. Minha mãe foi sequestrada, eu descobri que sou um ser mágico, apareceu um interesse romântico em potencial e BOOM. Minha vida mudou completamente.

Não, infelizmente isso aqui não é uma história YA. Eu acho que foi juntando. Nos últimos anos eu venho juntando ideias de histórias que eu quero escrever, rabiscando pedacinhos, imaginando e coisa assim. Acho que o CC e o hábito de escrever diariamente posts me ajudou bastante também.

Foi aí que eu encontrei o NaNoWriMo e decidi terminar uma história, que até hoje eu não terminei (motivos). Eu sei que esse processo todo foi demorado e tudo isso para eu descobrir só uma coisa: escrever é só escrever.

Agora mesmo, eu to travada sem saber direito como escrever esse post e volta e meia eu paro e olho pra o nada. Toda vez que eu encontro algo que me bloqueia eu paro: como eu vou escrever essa frase aqui e será que quem está lendo vai entender que eu estou falando exatamente dessa frase que você tá lendo? Isso tudo ficou confuso e no momento eu não sei como mudar, então eu travo.

E a cada vez que eu travo eu fico mais tempo parada sem escrever até que eu escrevi bem pouquinho só e fico desanimada. Eu já, aliás, considerei fechar *pausa para coçar o olho: procrastinar* fechar esse documento e escrever outro dia. Aliás, nesse momento eu supostamente deveria estar terminando de escrever meu conto, que eu estou uns 2 dias atrasada.

É um bom motivo para me fazer parar, mas eu não vou.

Quando eu travo, tipo agora, eu me pergunto: O que eu quero realmente dizer?

E eu me respondo:

Bem, 1- quero falar de escrever lixo, o que é realmente se permitir escrever lixo. Escrever lixo não é só escrever palavra errada ou sem acentuação, é confiar nos próprios instintos e escrever TUDO o que passar pela sua cabeça. É difícil, porque você fica se editando o tempo inteiro, suas próprias críticas interferem com detalhes e você encontra muitos dilemas que te obrigam a ligar o editor para resolver. Às vezes, você esquece o que estava escrevendo, vai reler e aí se dá conta de que o parágrafo já tá grande e sente vontade de editar na hora. Fuuu

Agora, por exemplo, eu perdi o fio da meada e ainda fui no google pesquisar se "fio da meada" se escreve assim mesmo, o que é um grande exemplo de não se permitir escrever lixo.

A maior parte das pessoas que travam e conversam comigo, até eu mesma, não é questão de não saber o que escrever, é de aceitar que isso é válido pra escrever. "Eu to com uma ideia na cabeça do futuro que não encaixa agora e não to conseguindo escrever agora e..." Vai logo pra o futuro. Se você é mais certinho, abre uma arquivo extra e escreve isso do futuro. Se você lembrou de um detalhe em algo que você já escreveu, reescreve ali mesmo e coloca um aviso pra lembrar que isso acontece lá atrás.

Eu às vezes to terminando uma cena e me dou conta de que está tudo escuro e eu não coloquei o personagem com uma lanterna e ainda narrei ele observando detalhes que não dava para observar, eu coloco algo tipo *colocar lanterna, tirar detalhes e vou em frente. A não ser que eu tenha ideia de algo que eu queira escrever, nesse caso escrevo ali mesmo.

Aliás, hoje mesmo aconteceu uma edição dessa. Eu escrevi:

- Ah, eu sempre soube, Polo. Sempre soube que você não era nada além de um merda. Não ia levar um tempo para você cair nas graças dos doks.

Mas pensei melhor, e coloquei essa depois:

- Ah, só podia ser isso. Você está falando igual a um merda de um doks! Você caiu nas mãos deles, né?

Na versão final você dificilmente vai ver qualquer uma das duas falas. E esse "sempre soube" ainda entrou na fala do Polo logo depois em resposta.

Se permita escrever lixo.

Um outro detalhe importante que a gente esquece falando de escrever lixo é o "se permita." Você tem que dar permissão a si de escrever merda, de ir além das regras.

"Será que eu faço isso? Será que eu posso mudar aqui? Será que essa ideia é boa? Será que isso faz sentido?"

Sei lá se faz, provavelmente não. Mas se permita escrever isso. Se permita ir além.

Vou dizer algo que eu não gosto de dizer muito:

Você pode desistir da sua ideia e começar a escrever outra no NaNoWriMo.

Você pode totalmente largar uma ideia e não escrever mais sem terminar.

A questão é que você precisa ter a confiança de que vai terminar outras coisas. Não vale ficar se prendendo a algo que não quer, mas também não vale usar isso para ficar fugindo. Às vezes a pessoa desiste e nem realmente se forçou a escrever, por isso que eu não gosto de dizer.

Mas vale tudo. Escreve da visão dele, da tia-avó, de Deus, de um dinossauro...

Aliás, um trecho que eu acho genial em um livro é a narração a partir do ponto de vista de uma pedra. Isso aí. No meio de uma história totalmente contada em diários, BOOM, uma pedra narrando os personagens. Não, não é uma história surrealista nem nada, é uma história que se passa no mundo real sem nenhuma magia. Foi só um recurso que o autor usou para transmitir aquela cena.

Se você pensar sobre a sua história:

Minha personagem é meio chata.

Escreva assim na sua história:

Minha personagem é meio chata.

Essa parte é combustível para a edição. É importante até que você seja natural, porque mais tarde quando você estiver frio e olhar para trás vai poder distinguir a voz que te inspirou na história.

Deixa os personagens te guiarem também. Às vezes a gente planeja algo, tipo hoje que era pra o personagem ficar depressivo depois de uma briga. Mas aí ele ficou é puto quebrando tudo. Por acaso, isso tem mais a ver com o que eu tinha planejado pra ele no futuro.

AH, A EDIÇÃO...

Esse é o segredo final. Você não tem noção de até onde pode chegar até que termine a maldita história e faça a edição. A primeira história séria que eu terminei durante a edição mudou nome dos personagens, tipo físico dos personagens, o jeito deles falarem, surgiu personagem, mudou o final, mudou o início. No fim das contas, ficou mais parecido com o que eu tinha imaginado, só que pra chegar lá eu escrevi muito lixo e forcei a edição.

Não só eu. O John Green, por exemplo, falou que em "Quem é você, Alasca?" a fixação do personagem com palavras finais só surgiu na edição. No início, na história do Harry Potter não eram o Harry, Hermione e Rony os principais.

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