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Vamos falar de privilégios?

14.12.18Jota Albuquerque


Privilégio, uma palavra que não causava tanta comoção há vinte anos, hoje é capaz de destruir relacionamentos e qualquer diálogo.

Palavra de origem do latim, privilegium significava “direito para alguns”, hoje podendo ser encontrado nos dicionários de uma forma mais extensa: “substantivo masculino Vantagem (ou direito) atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais; prerrogativa”. Ou seja, privilégio não apaga mérito, assim como não é xingamento. Na verdade, apontar que nossa sociedade privilegia alguns é, da forma mais básica possível, reconhecer a realidade em que vivemos.

Quadrinho por Toby Morris
Quando eu falo sobre gordofobia, machismo, homofobia, racismo e privilégios, não é pra te ofender. É pra reconhecer que existem pessoas que usufruem de privilégios e que poderiam usar desses mesmos para ajudar quem não os têm (em muitos casos, nem direitos possuem). Eu não quero que você fique bravo, nem quero que você se sinta injustiçado, eu quero que você pare para ouvir e reconhecer essas coisas, preciso que você se acalme e antes de negar, aceite que por mais incômodo que seja, vivemos numa sociedade desigual, mas não imutável e que por isso, é importante seu envolvimento e compreensão.

Mas beleza, vocês já devem ter entendido o que significa privilégio, mas como isso se aplica na vida real, no nosso cotidiano, na vida de quem não é privilegiado?


Eu vou dar três exemplos, que são os quais eu vivo/convivo de algumas maneiras, e eles são: gordofobia, machismo e homofobia.

Comecemos pela gordofobia. As pessoas gordas enfrentam dificuldade de encontrar roupas para si, de achar lugares que caibam (como poltrona de avião, ônibus, cadeira de escola, etc) ou que possam transitar (catraca de ônibus, de metrô, etc), são chamadas de doentes ou aberração pelos colegas, amigos e familiares (inclusive pela medicina, que aos poucos vem mudando e trazendo mais provas de que o IMC [Índice de Massa Corporal] é falho e problemático e que ser gordo não necessariamente é ser doente, nem que ser magro é necessariamente ser saudável), entre diversas outras situações.

No caso da homofobia, pessoas não-hétero não conseguem ser livres para andar com seus parceiros de mãos dadas sem sentirem medo de serem espancados ou morrerem, não conseguem andar na rua sem pensar na possibilidade de serem mortos SOMENTE por não serem héteros, enquanto constantemente enfrentam a realidade de uma política que continua a arrancar seus direitos no país que mais mata pessoas LGBTQs no mundo. Focando em pessoas não-cisgênero (que não se identificam com o gênero designado no nascimento), essas pessoas têm um índice de vida de no máximo 35 anos, no país que mais mata pessoas trans no planeta, vencendo até o México. Entre outras diversas situações.


Agora sobre machismo, mulheres ainda recebem cerca de 30% a menos que homens pela mesma função, elas são assediadas na rua, são culpabilizadas por sofrerem abusos sexuais, são culpabilizadas por qualquer coisa que um homem tenha feito e não assumido a responsabilidade, e por aí vai.

Tudo isso mostra uma coisa: existem grupos que são excluídos, maltratados e vistos como errados, enquanto um grupo é privilegiado, isso é, é admirado, é tido como “correto” e modelo a ser seguido, ganhando coisas. Isso é privilégio, ter um grupo com “mais direitos” e até mesmo “ganhando coisas” a mais que outros, tendo vantagem.

Não que, por exemplo, uma pessoa magra que tem barriga “chapada” não tenha o mérito de ter se esforçado pra realizar o que ela queria, mas pelo fato de ela ser magra (e ter condição de ter um suporte como a academia para conseguir a barriga “chapada”), ela tem o privilégio de um mundo que foi feito pra ela, que não a considera uma aberração ou doente por ser magra. Ou que uma pessoa que tenha estudado em escola particular e passado no Enem não tenha o mérito de ter passado nessa prova superdifícil, mas essa pessoa teve o privilégio de uma educação bem melhor, com recursos, enfim, com privilégios que pessoas que estudam em escolas públicas não possuem (eu poderia fazer uma lista sobre isso porque estudo em escola pública desde que nasci, mas um dia falo especificamente disso). Ou que um cara que tenha trabalhado muito pra chegar na posição de CEO de uma empresa não tenha o mérito de ter se esforçado pra isso, mas a mulher que também teve o mesmo trajeto ainda tem uma possibilidade enorme de ganhar 30% a menos que ele, sendo que o trabalho dela pra chegar lá vai ser mais conturbado, bem mais, que o do homem, pelo simples fato dela ser mulher (foquem no exemplo dos jogadores de vôlei masculino brasileiro e do time feminino. Ou do futebol masculino brasileiro e feminino).

Privilégio é sobre como a linha de partida na vida para alguns grupos está bem na frente de outros, a questão não é do mérito (até porque Brasil não funciona na base da Meritocracia), mas do que nós, que possuímos privilégios sobre quem muitas vezes nem direitos possuem, podemos fazer?

O que eu, como branco, posso fazer com o meu privilégio para ajudar pessoas negras?


O que você, hétero, pode fazer com o seu privilégio para ajudar pessoas não-hétero?



O que você, como homem, pode fazer com o seu privilégio para ajudar as mulheres?



O que você, como cis, pode fazer para ajudar pessoas trans utilizando seus privilégios?



O que você, magro, pode fazer para contribuir numa sociedade cada vez menos exclusiva para com pessoas gordas?


Eu poderia responder, mas vou deixar você questionar por si mesmo, procurar mais pessoas de grupos de minoria política para conversar ou ler mais textos do blog nas tags de feminismo, lgbt, gordofobia e racismo.


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1 comentários

  1. Belo texto, João. Incrível ver como a prática só lhe faz bem. Como estudante de jornalismo, eu digo que seu texto e sua consciência social é melhor que de muita gente que conheço.

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