#EleNão CCdiário

Para os familiares: meu medo não é absurdo, principalmente nessa situação política

27.10.18João Paulo Albuquerque

*Imagem retirado do Legião dos Heróis*

Eu compreendo que para quem é hétero e se identifica com o gênero designado no nascimento, compreender o medo de pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero é um passo complicado, cheio de trabalho de empatia e pesquisa, principalmente conversando com essas pessoas, sem tentar deslegitimar a vivência delas, sem tentar dizer que "não é assim", "você tá exagerando", entre outros, mas não é porque é difícil que ninguém deva tentar. Muito pelo contrário, tem que tentar se informar, compreender porque a histeria ao redor da questão "morte de pessoas LGBTQ".

Empatia é difícil para qualquer um, trabalhar na "não-deslegitimização-de-discurso" é difícil para qualquer pessoa, mas ainda mais para quem está cheio de privilégios como uma pessoa hétero-cis, que já está acostumada e "confortável" no seu posto, sem precisar se preocupar com a minoria. E quando falo não se preocupar com a minoria, não é não se preocupar com um ser humano, mas sim não se preocupar com as questões que envolvem as minorias, porque ser minoria não é uma vivência "comum", porque depende de muitos fatores além de "roubo/morte súbita/acidente", envolve se preocupar com sua vida porque você não é o que, desde o surgimento da Bíblia na Roma Antiga, se diz ser "correto", se preocupar em não ter dinheiro porque você não é contratado simplesmente pelo seu gênero ser diferente da sua certidão de nascimento, se preocupar com a lâmpada na cara que você pode levar na esquina, se trata de se esconder durante boa parte de sua época escolar porque se você já sofre bullying por qualquer questão, se souberem que você é LGBTQ, só Deus sabe o que vai te acontecer, envolve você ter medo de existir porque sua existência é odiada por maioria da sociedade que ainda luta para que a gente não tenha os mesmos direitos que eles têm.

Ser LGBTQ é ter um processo de aceitação infinita e cheia de regressão porque você lida com o preconceito em todo lado, e inevitavelmente isso pode enraizar e se tornar mais complicado ainda.


Inevitavelmente, a existência LGBTQ se trata de política. E por que política? Porque a gente existir quer dizer que precisamos de direitos. Porque somos humanos que são desprezados por outros humanos simplesmente por uma característica que foge de nosso controle. Porque a gente tem que lidar com "líderes" religiosos pregando ódio e violência contra a gente. Porque temos deputados e senadores a favor da violência, inclusive instigando-a, tentando retirar nossos direitos ou privar de que consigamos mais direitos.

E é aí que entramos no quesito dessa situação política. Temos um homem que foi deputado por quase três décadas que agora concorre à presidência do país, que tem sua popularidade toda baseada nos discursos de ódio que deu contra pessoas como eu, e se não era contra pessoas como eu, era contra pessoas de outras minorias políticas. Foi falando que ser gay é falta de porrada, dizendo que a gente não tem o que oferecer pra sociedade, que não somos normais, foi falando que ele preferia filho morto que homossexual (porque já estaria morto pra ele mesmo), foi compartilhando fake news envolvendo pedofilia e a comunidade LGBTQ que ele cresceu e tomou boa parte das pessoas. Jair Messias Bolsonaro foi quem falou essas coisas, e por mais que ele negue, tem vídeo, tem entrevista escrita, tem entrevista televisiva.


E esses discursos dão aval, tornam "sem punição" e "sem problemas", para que pessoas preconceituosas ataquem a gente, porque eles veem um homem lá em cima dizendo essas coisas como se fosse tudo bem, desumanizando a gente. Por que acham que tem tanto ataque motivado por homofobia, com uso do nome de Jair Messias Bolsonaro no meio, acontecendo por aí? Por que acham que tem tanto eleitor dele gritando em metrô que "Bolsonaro vai matar viado"? Por que tem tanto relatório de gente que foi verbalmente atacada na rua?

Meu medo não é irracional. E eu, mais do que pessoas hétero-cis, sei do que estou falando. Sei da minha vivência e sei de que é mentira esse discurso de "não será pior do que o Brasil já está" ou "Bolsonaro não vai fazer essas coisas preconceituosas" porque já está acontecendo. São os eleitores dele, é a culpa dele e dos eleitores dele. Não tem essa de "Não controlar eleitor", já que foi desde sempre compartilhou fake news sobre a gente, sempre falando coisas horríveis sobre a gente, que ele tá onde tá.

São os eleitores dele que estão brigando com alemãs tentando dizer que "nazismo foi de extrema-esquerda" e acreditando que ditadura militar de 1964 foi boa e é Bolsonaro quem tem apoio de neonazistas e da Ku Klux Klan. Eu não preciso dizer mais nada pra deixar claro que não tem essa de "Bolsonaro não ser culpado pelo o que os eleitores dele fazem", né?


Milhares de pessoas no mundo morrem por serem LGBTQs. Morrem simplesmente por não se identificar com o gênero imposto no nascimento. Morrem simplesmente por amarem o mesmo gênero. Morrem simplesmente por amarem mais de um gênero. Morrem simplesmente por serem de um espectro humano que se tornou "abominável" com o surgimento do Cristianismo na Antiga Roma, mas que existiu desde sempre. 

Somos nós quem perdemos direitos básicos, somos nós quem perdemos a vida, somos nós quem somos agredidos, então não me venha dizer que é exagero meu, já que todo mundo duvidou do Trump, mas o cara tá arrancando direitos de LGBTQs de lá a torto e a direito.

O que precisa acontecer é que, por mais difícil que seja, já passou da hora de vocês ficarem quietos por um minuto e nos escutar. Vocês precisam entender que tudo não gira em torno de vocês, que tem pessoas perdendo a vida pra apoiadores desse senhor. Precisam entender que apoiar ele não é saída para algo melhor. É necessário parar de depositar a confiança em quem defende a segurança, mas quebra artigos da Constituição, não conhece os básicos dos conceitos de História e não oferece segurança para uma parcela da sociedade.



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