aceitação atração romântica

Aceitação também é retroceder, mas o que isso tem a ver com o filme Todo Dia?

29.7.18João Paulo Albuquerque


Nada, literalmente porra nenhuma. Porém, para mim faz.

Depois que eu vi Todo Dia, algumas coisas que eu vinha lutando mentalmente pareceram começar a se encaixar e me tirar da minha crise que eu estava encanado há dias. Claro que com ajuda da minha mãe, dos meus amigos e da Ariana Grande (já explico isso), isso também foi se assentando.

E o que eram essas coisas? Sexualidade e rótulo. Em boa parte não fazia sentido me questionar porque eu sempre fui muito confortável com meu rótulo e sempre esclareci me atrair só por homens, mas a mente humana não faz sentido mesmo, então várias coisas se juntaram na minha cabeça: teria como eu gostar sexualmente de mulher? Também tinha minhas dúvidas sobre homens trans e homens não-binários (em relação à genitália deles e o que isso poderia significar para mim), um trauma de infância que eu carrego culpa (mas não tenho culpa porque é coisa de criança, é até comprovado cientificamente), meu personagem ser uma representação extremamente fiel de mim mesmo (o que resulta em estar se questionando se o personagem não seria eu mesmo) e por fim, eu estaria traindo minha própria identidade sexual?

E isso tudo parece muito estranho porque desde que me aceitei e me assumi para geral, eu sempre me senti bem, mas com meu tempo ocioso e preguiçoso de férias, eu entrei nessa crise de identidade e regresso na minha aceitação que só por Jesus Cristo... E o mais estranho, para mim mesmo, é que eu sempre lutei por uma liberdade do uso de rótulo, mas eu mesmo me sentia preso no meu? Ironias da vida, tanto que nem percebi uma mensagem que vi há dias no meio dessa crise, cuja só me lembrei quando ela passou:

#ParaCegoVer: Tá tudo bem em utilizar diversos termos e bandeiras para descrever quem você é. Se você se sente confortável fazendo isso, ninguém deveria ficar te incomodando. Não importa o que dizem: você e seus sentimentos são válidos. (da página Rabbit's Drawing)

Tudo começou, creio eu, que do nada. Claro que incentivado pelo meu tempo ocioso + estar escrevendo um livro sobre uma pessoa genderqueer que se identifica como polissexual sentindo atração por homens, mulheres e alguns gêneros não-binários. Não que eu já não questionasse meu rótulo no quesito de me atrair por pessoas fora da binariedade de gênero, mas me questionei se eu poderia sentir atração por mulher, apesar de tudo indicar o contrário. E claro que eu não falei com ninguém a princípio, fiquei matutando sozinho.

E matando a cabeça de tanto pensar, era como se minha mente como se recusasse a aceitar aquilo. E foi ali que eu fiquei "eu não acredito que estou retrocedendo TUDO que eu já evolui em aceitação em relação à minha sexualidade... nossa eu sou muito fodido da cabeça, só pode". Daí fui conversar com galera do CC, enquanto conversava com outros amigos meus também sobre isso, em geral as respostas foram (até um pouco) iguais: adolescência é assim, confuso, e ser LGBTQ é estar em um mundo que não te aceitam, e lidar com isso nem todos os dias vai ser fácil ou estar tudo de bem em sua relação de "Eu interior". 

Mas o primeiro passo pra destruir a crise foi reconhecer que eu não era o único enfrentando aquilo. Conversando com outros amigos LGBTQ, soube que eles também tinham essas sensações de vez em quando, de estar "retrocedendo na sua aceitação".

Em seguida (porque como eu disse ali em cima, eu conversei com várias pessoas ao mesmo tempo), veio a Carol racionalizando meu medo irracional da maneira mais simples impossível:

"Você sendo gay se atrai pelo seu pai ou seu avô? Caso se atraísse por mulher, não iria se atrair pela sua mãe ou irmã. ISSO NÃO FAZ SENTIDO. Se atrair por um gênero não quer dizer que você vai querer pegar todas as pessoas daquele gênero."

Daí conversando com minha mãe ela me deu o meu maior ultimato que fez minha crise balançar para acabar pra valer:

"Eu não quero ter filhos, mas ao mesmo tempo sinto que quero, só que antes eu quero ver se não é por pressão da sociedade ou desejo meu mesmo, sabe?", eu disse após contar tudo que eu vinha passando nos últimos dois (ou mais?) dias. ~e não, eu não sei como entramos nesse assunto de gravidez.
"Entendo... mas você transaria com alguém para engravidar?", ela perguntou, me fazendo pensar em duas coisas antes de responder: primeiro, até onde eu saiba, eu não tenho como engravidar, e segundo, como eu engravidaria um homem (pensando em cis primeiro)?, mas ela continuou: "... Com uma mulher, no caso?"
"Não." Minha resposta foi imediata, com o rosto confuso pela pergunta.
"Pronto, sua dúvida foi esclarecida... você complica muito as coisas para você mesmo, Deus meu!" Ela brincou e eu fiquei parado no meio da cozinha tendo uma explosão mental.

Claramente, como estamos falando de João Paulo (etc, etc, etc porque meu sobrenome é enorme) Costa, nada disso foi o suficiente para eu parar de entrar em combustão interna, mas desacelerou o processo. O que me levou ao teste do pornô (não me orgulho de assumir isso, mas foda-se), vendo pornô para comparar o que eu sentia, e constatando toda vez que eu não sentia atração por mulheres, minha cabeça insistia em ficar "nã, nã, ni, nã, não. Isso não é o suficiente, lembra daquela vez que você...", me lembrando de coisas que nem de fato poderiam comprovar que eu sentia atração sexual por mulheres, mas ainda sim me deixavam derrubado cansado de tanto contestar minha anti-aceitação.

No dia seguinte à todas essas conversas, eu conversei de novo com minha mãe (ainda alternando a conversa com amigos meus), e ela chegou em um ponto extremamente importante que eu não reconhecera: "Eu acho que a sua parte racional entende que você pode sentir atração por homens trans, e entende que eles são homens, mas essa parte... (completei como senso comum) pode estar ainda não reconhecendo que são homens e isso é a maior parte da sua confusão mental". KABUUMMM!

não é a toa que ela sempre diz "eu podia ter seguido carreira de psicóloga..."

E passei um bom dia pensando nisso, vendo vídeos de homens trans e relação de cis x trans, até que em meio à várias conversas sobre isso (tem até o que um amigo meu disse que eu fiquei super feliz e orgulhoso dele: "Olha assim, é normal pessoas que normalmente não são do padrão da sociedade enfrentar batalhas por não ser, porque não são como a sociedade espera, passarem por isso. Mas pelo menos eu sou assim e fico pensando se eu estou certo sabe? Não se culpe por ser encanado."), chegou sexta-feira, dia que apesar de me sentir melhor, ainda sim os pensamentos estavam lá na cabeça e conforme eu dava mais margem, lá era eu possuído por eles novamente.

Eu tinha marcado de ir ao cinema com meu avô ver o filme Todo Dia, que sabia que era LGBTQ e (com base no que sabia do livro) esperava muita representatividade, então apesar de meio pra baixo e cansado de todas as maneiras possíveis, eu decidi que seria melhor sair de casa um pouco, então fui.

Vez ou outra o pensamento vinha à cabeça novamente, até mesmo durante o filme, mas achei interessante o modo como abordaram a atração romântica da garota principal, apesar de o conflito dela não ser o mesmo que o meu, já que o meu era da atração sexual, eu adorei que aquilo de alguma forma (além da representatividade) se conectava comigo. Após o filme (que admito ter no final ter dado uma nota de 7.5/8, eu fiquei reparando em como olhava para cada tipo de pessoa.

Chegando em casa, após jantar no shopping mesmo e andar um pouco por lá com meu avô, eu vim para o quarto e entre várias músicas, escrevendo e conversando com os amigues, me deparo com o vídeo clipe de Troye Silvan ft. Ariana Grande:




Essa era a última chave para destrancar meus problemas. Era o último nó para ser desfeito. Era a última resposta dessa crise. Vendo o clipe, eu cheguei a conclusão que eu tanto procurava: eu sou um gay polissexual, que sabe que pode até transar com uma mulher, mas não sente atração por mulheres.

Conversando com a minha mãe no meu quarto, depois do meu lapso de luz na cabeça, só deu ela falando "Viu que fácil? ai que tudo! Toca aqui! ~high five~ Agora quando alguém me perguntar o que você é, eu falo que você é gay polissexual... ai rótulos são o máximo...". Eu amo essa minha mãe e minha família.

E achei interessante que sim, ainda pode acontecer outras vezes um retrocesso de aceitação ou processo de descoberta novos, eu sei que às vezes questiono outras coisas, mas acho a mensagem mais importante é: tu és válido. Você é válido, rapá. Seja como for, da forma que se identificar, seja mudando ou não de identificação, fluindo ou não.

Não importa se você for gay e, sei lá, por um acaso se atrair por uma mulher, mas ainda se identificar gay (vale lembrar que muitas vezes nos atraímos por pessoas pré-julgando o gênero delas e a probabilidade de uma delas não ser o que você achou que fosse é grande, mas tudo bem, isso não desvalida quem você é e sua identificação ~agora posso falar isso de experiência própria <3). Nem se você mudar de rótulo porque achou um que se encaixe mais em como você se sente. Muito menos se descobrir tarde, se assumir tarde, não sair do armário cedo. Não há problemas em descobrir que seu gênero não bate com o qual designaram no seu nascimento. Tudo bem usar vários rótulos para si mesmo, um só ou nenhum.


Tudo bem ser humano.

TAGS: , , , , , , , , , , , , , , ,

Mostre para o autor o que você achou Recomende:

MAIS CONVERSAS QUE VOCÊ VAI GOSTAR

0 comentários

Posts Populares

INSTAGRAM