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#ComAmor, Jota

13.4.18João Paulo Albuquerque


Depois de ver o vídeo da Louie Ponto com a tag criado pelo Vitor Martins, eu decidi que queria fazer um texto como carta para o meu eu do passado e postar ele aqui no blog, assim vocês teriam acesso e poderiam se identificar/me conhecer mais. Espero que te ajude.

"Oi Jota, esse texto está sendo escrito poucas semanas depois de você completar 16 anos, para o você que nesse momento deve ter 12/11 anos e está se sentindo sufocado, se sentindo culpado e tentando dizer a si mesmo que "não é gay". Apesar de agora poder falar para você que tudo vai melhorar, que você vai ter amigos confiáveis, família que te ajuda e te aceita, que você se afastou de quem nada fazia além de te puxar para baixo, eu preciso relembrar de como deve estar sendo para você nesse momento.

Você deve ter acabado de ver aquele primeiro vídeo daquele site de um cara na coisa sola e repetindo mentalmente, ao menos mil vezes, que não é gay. Tentando se convencer que gosta de uma amiga ou que é só coisa da sua cabeça, confusão. Por mais que nesse momento, lá no fundinho, você saiba que isso é verdade, eu entendo sua negação, eu entendo seu medo (apesar do privilégio familiar que você descobrirá que tem). Você tem medo de decepcionar seus pais, afinal, você acha que não vai poder ter filhos (mesmo que virá a descobrir que não vai querer, mas quem sabe né?), acha que seus pais (na verdade, seu pai) não vão te aceitar e vai ficar tudo diferente, acha que não tem ninguém nesse mundo como você, se sente solitário e perdido, afinal, quem mais seria aquilo?

Mas eu te prometo, você vai se aprofundar no universo de Percy Jackson e isso vai te levar às fanfics (se é que já não levou) e aos poucos, você vai conhecendo Jasico, Pernico, etc, e vai ver que existe - ao menos na ficção - personagens como você. Vai começar a escrever e quando menos perceber vai estar escrevendo hots gay com suas amigas. Isso tudo vai começar a te deixar mais na superfície. Aos poucos, perceberá que gosta do menino um ano mais velho que você. Você e suas amigas (uma delas que você já tentou namorar, mas nem durou 5 horas porque você sentia que algo estava errado), além da recém-amiga feita justamente por Percy Jackson, vão começar a conversar sobre sexualidade e dúvidas e então você não estará sozinho, ao menos o sentimento de solidão começou a ir embora, agora você tem em quem confiar e assume que está em dúvida da sua sexualidade.

Milhões de conversas na quadra descoberta e algumas outras na coberta, te levam a se assumir para suas amigas, o que te deixa ainda mais perto da superfície, mas mais sufocado ainda. Preocupado de que o sentimento de necessidade de falar para sua mãe está muito latente, que você sente que precisa. Não é a toa que você se assume para ela na casa do seu avô, chorando muito, enquanto todo mundo conversava no andar abaixo do escritório, e apesar de ela ter travado por um momento (e esquecido depois disso ~por sinal, ela só vai lembrar do banho dela no mesmo dia que se assumiu onde vocês conversaram sobre isso, sobre ser gay e ela já saber), ela em momento algum te empurrou.


Boa parte da sua coragem na época se devia aos seus amigos (que mesmo que alguns tenham feito merda, como te expor em alguns casos), mesmo que ainda fosse difícil para você se aceitar totalmente. Eu ainda lembro das diversas festas que você tentou perder o bendito BVL com suas outras colegas de classe, sendo que na verdade você queria beijar o garoto da sua sala que estava a três cadeiras de distância de você.

Aos poucos, as coisas iam fazendo sentido, então você já estava pesquisando muito, lendo demais, tentando achar conteúdo até em inglês, mesmo que não entendesse a língua ainda (mas pra isso que existe tradutor, não é?), o que te levou a conhecer mais sobre sexualidade, gênero e atrações do que muitas pessoas (da sua idade ou não).

Isso tudo te levou a assumir que "estava em dúvida" (porque você ainda não conseguia falar que era/é gay) para sua tia Elisa e vocês tiveram uma conversa franca. Nada mudou e isso te aliviou mais ainda. Cada vez menos você se sentia preso, afogando, a luz da superfície estava cada vez mais forte, faltava tão pouco...

Aos poucos, foram professores que souberam, sua irmã, um cara que tu odiava (mas que hoje é seu melhor amigo). E com todo esse tempo, você já estava com mais da metade do braço pra fora da água, não fazia questão de se esconder e mesmo com outras dúvidas vindo e indo (elas continuarão, por sinal), você vinha se descobrindo mais, vinha se desbravando e lutando pelo o quê era certo, se desconstruindo dos seus preconceitos (alguns ainda estarão no processo de desconstrução, faz parte) e aprendendo a não aceitar desaforo, mas ainda sim se blindar para segurança.

Então chegou 2016, ano em que todos da sua escola já sabiam e era seu último na escola Fundamental. Agora seus tios já sabiam e você pensou várias vezes em pegar, sentar ao lado do seu pai e soltar o que estava segurando há anos, mas não o fez, porque sabia que ainda não dava, ainda tinha coisas que seu pai precisava entender e ser ensinado (por ti e sua mãe) antes do passo final para abrir a boca e falar o que ele sabia, o que só ocorreu no ano de 2017, dois meses, se não me engano, depois de ter ingressado no blog.

Ele falou que já sabia, riu, vocês conversaram e todo o nervosismo que sua mãe e irmã sentiram (porque apesar de nervoso, você estava muito calmo), sumiu. O que te levou à Páscoa de 2018.

Foi o dia em que você mostrou e reconheceu que ser gay já não era um escândalo para você, era um detalhe sobre ti que não alterava nada, era normal, porque é normal. Você falou sobre ser gay para seus avós, irmão e mãe da sua avó e amigo deles, numa conversa sobre religião cristã e evangélica e hipocrisia social, convenientemente pouco depois de ter ido ver "Com Amor, Simon" com seu avô (grande influenciador da minha normalização interna).

Hoje, apesar de às vezes eu olhar para você dessas épocas mais antigas e pensar que talvez se você tivesse pêgo leve nas leituras, talvez você não sofresse tanto por ver a realidade, mas hoje eu penso que ao menos você pôde desenvolver a sua empatia melhor, pôde se conhecer e entender a diversidade humana, além de reconhecer que se não tivesse pesquisado tanto, se informado tanto, não seria quem é hoje, na verdade, ainda poderia viver em uma fantasia sem sentido e prejudicial.

Eu não posso te dar conselhos, porque você já está fazendo sua parte e não posso alterar as coisas, mas se lembre sempre de algo: não deixe falarem que você não é normal ou que você é um pecado.

E lembre-se de sempre lutar para melhorar sua autoestima e se amar.

Com Amor,

Jota. <3"


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