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A Elite do Gueto

13.2.18Colaboradores ConversaCult


Quando criança, eu não me identificava muito com os grupos dos meninos. Nas reuniões que tinham em casa, quando não tinha nenhuma outra criança para brincar comigo, eu preferia ficar com a minha mãe e as amigas dela do que com os homens, que só falavam de futebol, carros e mulheres (ou seja, tudo o que não me interessava e continuou não me interessando). Quando fui crescendo, acabei, quase que naturalmente, me colocando mais longe dos meninos que praticavam os esportes e saíam para ficar com meninas. Ainda nem sabia que era gay, mas já estava no mesmo grupo de meninos que, anos mais tarde, também se descobriram gays. Foi minha primeira experiência sobre que era um gueto.

Não gostávamos de nos misturar porque sabíamos que seríamos hostilizados pelos outros meninos. Volta e meia, mesmo separados, éramos hostilizados mesmo assim. E meio que continua assim até hoje. Mas, pensando bem, hoje em dia é um pouco mais complicado.

Nem todo espaço LGBT faz com que eu me sinta bem-vindo. Temos o que eu chamo de 'elite do gueto'. É aquela ideia de que "aqui, somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros". O espaço LGBT padrão, na verdade, é um espaço gay apenas. E não é para todo gay. É um lugar onde os 'feios' não tem vez. E feio, para esses espaços, é tudo aquilo que está gordo ou não está musculoso, que não tem aquelas mesmas roupas e mesmo corte de cabelo (que, sejamos francos? Parecem muito com os que os héteros usam), que gosta de problematizar, que dá pinta, que não é branco, que não tem dinheiro para ir na baladinha da moda. E quem é 'feio' e quer ficar por lá, tem é que se acostumar e aceitar seu lugar. Vão rir de você se você tirar a camisa, ou se você falar com o menino padrão e quiser ficar com ele, ou se você usar camiseta regata, ou se você der pinta, ou se você quiser dar voz às LBTs... Na verdade, eventualmente, vão rir de você mesmo que você não faça nada disso e aceite um papel de 'gordinho simpático' ou 'afeminado engraçado'. Esses espaços existem em algumas boates (sim, The Week, eu to falando com você!), praias (alô, Ipanema, em frente à Farme de Amoedo!), aplicativos (exatamente, to falando com todos vocês, pessoas sem cabeça do Grindr!) e, basicamente, em quase todo espaço 'clássico' que já foi dito LGBT.


Para onde ir então? Para novos guetos. Guetos dentro dos guetos. E aí acabamos nos dividindo mais. Gueto para os bears, para as lésbicas, para os negros e negras LGBT, para os afeminados, para as trans, para os gays nerds... E aí nos sentimos incluídos e aceitos... Por algum tempo.

Vou falar um pouco do que eu estou vendo no meu próprio 'gueto dentro do gueto', e sei que muitos vão relacionar com o que vivem dentro de seus próprios espaços: os gays nerds. Já parou para ver como funcionam as páginas do Facebook pensadas para nós? Além do conteúdo elitista (afinal, ser nerd não é barato e acaba, "naturalmente", chamando mais gente da classe média), há uma clara higienização do conteúdo. Na hora de mostrar gays nerds bonitos, ao invés de mostrar alguém que realmente se pareça com a maioria de nós, temos aquele mesmo gay branco magro musculoso heteronormativo com cara de modelo, sem camisa. Você vai me perguntar "ué, não tem diferença?". Claro que tem. Ele está com um óculos Ray Ban sem lente na cara! "Pronto, é nerd. Tá representando".

Daí, no meio de vocês, deve ter alguém que vai levantar a mão e dizer "Poxa, cara, mas você está sendo preconceituoso! Também tem nerd que é assim, ué". Claro que tem, não duvido. Mas olha em volta. Olhe para nós. Veja bem se aquelas fotos representam a maioria de nós. Veja bem se as nossas belezas estão ali. Não estão. E assim, mais uma vez, temos um grupo que se coloca como superior aos demais dentro daqueles que são diferentes. O gueto do gueto tem sua própria elite também. E quem não está nela, mais uma vez, é 'feio'.


E assim segue nosso bonde, sempre com duas opções: Aceitar que aquele gueto não é mais para nós e criar um novo gueto, também fadado a ter sua própria elite e seus próprios 'feios'; ou não aceitar e lutar contra essa ideia de padrão de uma maneira geral. Lutar contra a exclusão dos LGBTs pelos héteros, contra a exclusão das LBTs pelos gays, contra a exclusão dos fora do padrão pelos gays, contra a exclusão dos mais distantes do padrão pelos gays mais aproximados desse padrão.

Fazendo isso, a longo prazo, podemos não só nos tornar mais unidos como também aprender a enxergar beleza muito além do que nos foi ensinado a ver, e a enxergar irmãos e irmãs em muito mais lugares do que fomos acostumados a encontrar.

***

Sobre a autoria: Renan Wilbert é jornalista e administrador da página “Igreja de Santa Cher na Terra”. Nascido e criado no Rio de Janeiro, procura utilizar sua escrita para tratar de temas como a igualdade, autoestima e sociedade.

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