CCdiscussão CCSéries

The Handmaid's Tale x Game Of Thrones: A diferença entre retratar e banalizar o estupro

8.7.17Colaboradores ConversaCult


Desde que eu comecei a assistir Game of Thrones — lá em 2011—, me sentia altamente incomodada com as cenas de nudez feminina de forma exagerada e recorrente, mas não entendia exatamente o porquê, já que sempre que resolvia falar sobre minha insatisfação, recebia discursos altamente inflamados de que eram situações totalmente justificáveis pelo contexto. Ok, então. Eu parei de reclamar e continuei assistindo. Até o fatídico dia em que ocorre uma cena de estupro coletivo explicito, mas esse estupro é retratado como plano de fundo para uma cena de alguns homens conversando.

Talvez você esteja lembrado desse momento, talvez não, mas ele é muito vivido na minha cabeça porque eu tinha lido os livros e sabia que estupros aconteciam daquela maneira na Fortaleza de Craster (local do ocorrido tanto na série quanto livros), mas o Martin nunca sentiu a necessidade de narrá-los explicitamente, muito menos de colocá-los em segundo plano de uma conversa entre homens. Naquele momento, eu percebi que minha indignação era pela forma como as mulheres e as violências sexuais que elas sofriam eram tratadas na série, não pela existência em si da nudez ou do estupro, eram basicamente objetos de cena ou forma de engrandecer plots de personagens masculinos. 

Desde então, muitas outras cenas de estupro aconteceram na série, cenas completamente questionáveis, tanto como decisão narrativa, contribuição para o enredo, etc, quanto como questão de bom senso. Mas preciso falar que, mesmo que tivesse ficado chocada com a cena da Fortaleza de Craster, o momento da virada entre eu e GoT, o momento em que eu decidi que todos os limites haviam sido ultrapassados, foi quando a Sansa foi colocada dentro de uma narrativa que reduzia sua personagem ao papel de vítima mais uma vez, vítima de um homem abusivo e sádico, não, você não está tendo um dejavu, os produtores da série decidiram que faria todo o sentido repetir a história da personagem mais uma vez porque sim, porque aparentemente isso tem algum tipo de coerência e não é só preguiça de desenvolver o plot complexo no qual ela foi inserida dentro dos livros. Então o único fim para aquela história seria o momento em que ela seria estuprada, já que, é, pelo contexto histórico de uma sociedade medieval fictícia e fantasiosa, as mulheres eram obrigadas a fazerem sexo com seus maridos e isso era aceitável. Mas meu problema com a situação não está na existência de um estupro e sim na forma como ele foi tratado e principalmente porque ele era totalmente desnecessário.


Até hoje temos declarações de produtores, Demônio&Diabo, e da própria atriz que protagonizou a cena sobre o assunto. A mais recente foi a Sophie Turner dizendo que era preciso colocar essas cenas na TV, porque elas faziam as pessoas falarem sobre o assunto e as pessoas deveriam falar sobre o assunto. Eu concordo que é preciso falar de estupro, mas de que maneira? A que custo? Garanto que a forma como Game of Thrones vem fazendo ao longo dos anos não é a ideal, muito menos que eles tenham tido algum tipo de consciência sobre e resolveram alertar as pobres pessoas da realidade horrível que as mulheres viviam/vivem. As cenas obviamente não estão lá como alerta, caso contrário eles não seriam tão arrogantes sobre o assunto. Ou não teriam escrito uma cena de estupro (Cersei) e dito que aquilo não era um estupro porque eles não fazem a menor ideia do que seja essa violência e não tem empatia o suficiente pra entender.

Foi então que The Handmaid’s Tale entrou na minha vida e me fez entender o motivo principal de eu achar que Game of Thrones é um desserviço para as vítimas de estupro e para as mulheres em geral e me motivou a escrever esse texto. Para quem não está familiarizado com a série, ela trata de uma sociedade distópica onde a maioria da população se tornou infértil e um grupo de extremistas religiosos tomou o poder. Isso acarretou em uma série de direitos cortados para as mulheres e uma vida de servidão e opressão para aquelas que eram consideradas férteis, já que agora elas serviriam de incubadora para todos os bebês do mundo, basicamente. O meu ponto trazendo uma comparação entre as duas séries é: as duas tem um contexto em que a existência de cenas de estupro é justificável. Bem, pra quem viu THT, em quase todo episódio existe uma cena de violência explicita contra mulheres seja psicológica, física ou sexual.

"Eu tive outro nome, mas ele é proibido agora"

Mas onde foi que Game of Thrones falhou e The Handmaid’s Tale teve sucesso?

Pra mim o ponto chave é a humanização das personagens. A June, personagem principal de THT, é protagonista da sua própria história, a gente sabe o que ela sente, o que ela pensa, ela nos fala tudo e o que não fala, transparece com gestos e olhares. Os estupros têm consequências ativas na vida dela, não são sem significado. Já em Game of Thrones a maioria das cenas é bastante impessoal ou sexualizada. Chega a ser nojento, na verdade. O que o estupro da Cersei acrescentou para a narrativa da personagem? Isso mesmo, nada. E de onde se tira a ideia de que a Sansa precisava sofrer um estupro para se tornar forte (não são palavras minhas, mas dos próprios produtores da série)? ELA JÁ ERA FORTE E JÁ TINHA SOFRIDO VIOLÊNCIA. 

Então as duas são séries em que o enredo abre espaço para a ocorrência de cenas de estupro, mas THT é altamente responsável e crítica, enquanto Game of Thrones usa isso como fator de choque, como forma de chamar audiência. Que tipo de produtor de uma série, que tem como objetivo alertar as pessoas sobre o estupro, segundo eles, diz que quem não gostou das cenas não deve assistir? Não existe diálogo, não existe autoavaliação e não existe senso crítico. É notável que eles não se importam.


Eu ainda queria discorrer mais sobre esse assunto, porém ele é complexo e esse texto já está ficando bem grande, além de eu ter bastante coisa pra falar sobre, mas vou dar uma pincelada. Existe o problema da falta de mulheres dentro do set, com papel de direção, falta de mulheres escrevendo mulheres. Não que homens não possam escrever personagens femininas, até porque Martin faz um trabalho sensacional nesse quesito nos livros, mas é claro que dentro de Game of Thrones isso se tornou um problema. A maioria das pessoas clama que é um seriado feminista, que empodera mulheres, mas pra mim, fazendo uma análise geral, as personagens são bastante vagas, muitas delas se tornaram máquinas de frases de efeito ou cenas explosivas (Daenerys, Cersei), mas falta nuances, o que mais elas são além disso? Bem, muito mais, pelo menos dentro dos livros. Existe uma noção muito vaga do que é ser uma mulher dentro da série. Precisa falar mais além do “homens fracos nunca mais governarão Dorne novamente” como forma de mostrar uma personagem forte? O problema é que não importam quantas frases desse tipo a Ellaria fale, ela sempre será uma personagem fraca e com motivações sem sentido.

Se vocês quiserem saber mais, muito mais, sobre a questão da falta de mulheres dentro da direção de GoT esse vídeo é excelente e completo, embora bem grande e em inglês: 



Vou encerrar com uma fala que um dos produtores executivos da série disse em resposta ao diretor Niel Marshal que não queria colocar uma cena de nu frontal em um dos episódios: “Olhe, eu represento o lado pervertido da audiência e eu estou dizendo que quero um nu frontal nessa cena”. Dá pra acreditar que eles realmente se importam em causar uma discussão sobre estupro de forma consciente e não apenas para fazer as pessoas falarem mais ainda sobre o show deles? Bem, eu duvido.

***

Sobre a autora:

Thaís Giffoni, 22 anos, estudante de Serviço Social e inconformada com as injustiças do mundo. Forte consumidora de filmes e séries, busca sempre ter uma visão crítica de tudo o que assiste. Uma feminista amante das Crônicas de Gelo e Fogo e vegetariana. Você pode encontrá-la no seu Facebook.


TAGS: , , , , , , ,

Mostre para o autor o que você achou Recomende:

MAIS CONVERSAS QUE VOCÊ VAI GOSTAR

11 comentários

  1. Sempre quando eu assistia Game of Thrones ficava incomodada com o excessivo nu das mulheres sejam secundárias ou das personagens principais, mas não sabia explicar do porquê aquilo me incomodava.E vem esse maravilhoso texto explicando os sentimentos que tive ao assistir as duas séries que mostram o estupro de forma diferente. The Handmaid´s Tale é realmente muito bom ao não banalizar os estupros e mostrar o que está acontecendo com as aias são ESTUPROS recorrentes que elas passam todo mês.Obrigada ConversaCult por trazer esses textos que nos fazem refletir sobre a cultura pop em geral com um olhar crítico.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu não assisto a série, mas acredito que as mulheres que aparecem nuas são todas dentro do padrão? Lembro de um comentário que uma das atrizes principais queria tirar a obrigação de fazer cenas nuas do contrato e o pessoal tava reclamando que ela era atriz e tinha que fazer?
      Cansada dessa violência toda, prefiro não dar audiência.

      Excluir
  2. Eu amei seu texto. Com cenas de estupro começaria uma discussão mas torna gatilho para várias outras pessoas que já passaram/vivem por isso. Existem intervenções e intervenções, e GOT não traz uma que tente resolver o problema. Já a THT é eficaz, caracteriza bem melhor a personagem e traz uma crítica para quem assiste.

    ResponderExcluir
  3. Se o filme "uma linda mulher" fosse lançado hoje não seria uma história romântica. Seria o culto à prostituição. E não teria o sucesso estrondoso que teve. Menos mínimo gente. Ficção retrata realidade e fantasia. A Globo nas novelas faz muito pior que isso há anos..

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. uma linda mulher é uma bosta e as novelas da globo também. e...? qual é o seu ponto?

      Excluir
    2. O ponto é essa geração mimimi que acha problema em tudo. É bosta na sua opinião. Ganhou diversos prêmios. Não sabem a diferença entre ficção e realidade. Titanic (que também ganhou prêmios) hoje seria promoção do adultério. O poderoso chefão seria apologia às drogas e armas. Van Damme e S chwarzenegger faziaM apologia à violência. Ahhh gente. Que preguiça de vocês. Vão discutir algo realmente útil.

      Excluir
    3. É sobre estupro e não sobre premiação, GOT é trata estupro como forma sexualizada e banal isso é fato não há nem o que discutir sobre

      Excluir
    4. Assiste filme sobre borboletas então. Ou sobre o céu, ou sobre o mar. Ou sobre joaninhas. Ou sobre flores do campo. Neles não tem batida de carros, violência, sexo, estupro, traição, ódio, golpes mortes e outros que são tratados de forma como vc chamou de "banal" em grande parte dos filmes. Novamente mimimi. Continuo com preguiça de vcs...rs (viu só, não falei de prêmios).

      Excluir
  4. Maravilhoso! Sem mais. Esse é só um dos motivos que me fizeram desistir de assistir Game of Thrones.

    ResponderExcluir
  5. Seu texto está bacana, vejo que há a procura por uma justiça e um sentido maior nas narrativas, mas não esqueça que elas não tem que fazer apelo à algo maior. Ficções são ficções e ponto, não precisam trazer reflexões atrás de tudo. Estupro é nojento sempre, ao retratar a banalidade do estupro a série mostra a realidade do tempo e do cenário, não é em primeiro plano. Na realidade não há nada de bom nos estupros, não há sentido e nem tem função alguma na vida da pessoa que sofre essa violência. Estupro é nojento e só realizado por um.motivo, PQ uma pessoa acha que tem o poder sobre a outra e quer mostrar isso. Isso é na realidade é na ficção. Então não podemos esperar que uma cena de estupro Seja vista como algo normal, entendemos que faz parte da ficção, mas será sempre algo deplorável na realidade.

    ResponderExcluir
  6. volta e meia eu vejo que tem comentário aqui e decidi ver o texto pra entender o que tava acontecendo. Só queria dizer que é um texto muito legal e importante. Outra série que mostra isso também é Sweet&Vicious. Acho que estupro não é pra ser banido e escondido da TV, pelo contrário, precisa ser desenvolvido. Mas não é o que GOT faz. Eles literalmente se divertem com o choque de ver mulher sendo agredida pra nada. Além da temporada ruim, foi tão ruim o ep da Sansa que eu parei. Eu acho que a discussão sobre as mulheres na série é um caso maior, não dá pra classificar tudo como se fosse ruim, ou como se fosse bom, porque a gente perde nuance. Mas é preocupante como correm pra abafar e tentar negar todo o problema de como o estupro é apresentado na série.

    enfim, gostei do texto. obrigada por escrever pra o cc <3

    ResponderExcluir

Posts Populares

INSTAGRAM


Instagram

FALE COM A GENTE!

Nome

E-mail *

Mensagem *