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Discobiografia Legionária, Chris Fuscaldo

1.6.17Taiany Araújo

"O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus." 
Oswald de Andrade

(Citação que aparece no CD A tempestade, último lançamento da banda com o Renato ainda vivo).

Eu praticamente li todo o livro de uma tacada só. Normalmente não leio biografias, nem é por não gostar, é mais por não ter oportunidade. Entretanto, cada um dos livros sobre a Legião Urbana ou sobre o Renato que caíram no meu colo foram devorados e quando a leitura te prende, como é o caso, o efeito que ela causa é de felicidade pura.




O Discobiografia Legionária  é, além de um acervo da Legião Urbana, um relato real sobre como funciona o processo de criação de um álbum, o que é estar dentro de uma gravadora e ter que responder a ela... É um livro não só sobre uma banda, mas principalmente sobre as pessoas que cuidam dessa banda. Com esse livro, escrito pela jornalista Chris Fuscaldo, a editora Leya nos presenteia com relatos de histórias, bastidores, curiosidades das gravações. Do primeiro LP aos discos póstumos, passando pelos trabalhos solo, discos ao vivo e coletâneas, somos convidados a olhar de perto uma das maiores bandas de rock da história do Brasil.

Durante a leitura eu ia cantando as músicas da Legião, eram tantas emoções, estar ali ouvindo um pouco mais sobre a minha banda favorita, a banda que diz tanto sobre mim. Mesmo com algumas histórias já conhecidas pelo grande público, como a confusão em Brasília em 1988, outras são como achados valiosos. Como quando num sábado no final de 1989, Renato Russo encontra o presidente da gravadora com sua família no pátio do estacionamento do prédio onde ficava a EMI Odéon e o aborda, garantindo o lançamento do disco As Quatro Estações ainda para aquele ano e cantando o disco inteiro a capela para a pequena plateia.

O livro conta sobre os bastidores dos processos da banda e da carreira solo de Renato Russo e traz depoimentos de pessoas que viveram próximas dos integrante da Legião, incluindo um fã que depois passou a trabalhar com eles (seria meu sonho? q). Temos aqui um vislumbre da dificuldade do trio formado por Russo, Marcelo Bonfá e Dado Vila Lobos em se adequar a indústria da música que quase os fizeram desistir de gravar o seu primeiro álbum em 1984. Além da série de desentendimentos com os músicos, produtores e com a própria EMI que os levaram a conhecer Mayrton Bahia, que viria produzir todos os discos da banda a partir do Dois (1986), podendo ser chamado de homem dos recortes (leiam o livro para entender).

Desde “a crise do segundo disco” até a rapidez para montar o álbum “Que País É Este 1978/1987” pelo medo que o Renato Russo tinha de perder as músicas do repertório do Aborto Elétrico (sua antiga banda) para a Capital Inicial (que tinham músicos da Aborto Elétrico), vamos acompanhando cada fato que para uma pessoa de fora podem ser pequenos, mas que para fãs, apreciadores de biografias e profissionais da música são um conjunto de histórias, aprendizados e amor.


De modo geral as biografias costumam perpassar a vida de um artista para tentar costurar com a sua obra. O contrário, observar a obra para tentar descobrir a pessoa por detrás, é um caminho que pode trazer não só surpresas como fatos que talvez passassem despercebidos. E mesmo que a Legião não seja uma banda de técnica, é inegável sua sensibilidade e verdade, nas letras. Encabeçada por um rapaz tímido, mas que em cima do palco trazia à luz sua veia dramática e questionadora, os meninos de Brasília deixaram sua marca de forma quase messiânica. Não por acaso, essa entrevista dada pelo Renato em 1993 parece com algo falado por alguém dos dias de hoje:

“Eles estão fazendo com que o Brasil seja um país de assassinos. É garoto de 15 anos sendo morto pelas costas, pela polícia. É menininha de 15 anos sendo estuprada. É essa porrada na cabeça o tempo todo...Se eu falo de coisas boas, parece irreal. Eu acho que hoje em dia os jovens estão sendo massacrados, a situação está péssima e a gente não sabe mais para onde ir. As pessoas não tem mais senso de civilidade e respeito. Para sobreviver, você tem que ter uma rede de amigos(...)”

Quando estourou, a Legião Urbana era a voz de uma juventude que tinha acabado de sair da ditadura militar, uma juventude que estava engasgada e com vontade de viver, as músicas da banda passaram a ser cantadas como hinos de protesto, esperança, como um grito ensurdecedor à muito preso na garganta. Só que mesmo tendo se passado 32 anos do lançamento do primeiro CD, a Legião ainda é atual, principalmente quando começamos a olhar o que está acontecendo no país hoje e sobre as coisas que o Renato falava lá na década de 80. Se você nunca ouviu nenhuma música da banda, sugiro que dê uma chance, mesmo que esse não seja seu gênero de interesse, essas letras precisam ser (re)vividas, pois apesar do discurso um tanto idealista, é um discurso cheio de autenticidade. 

“Em se tratando de um país onde as pessoas realmente não tem poder aquisitivo, é impressionante como o público, ao escolher seu artista favorito, acompanha o trabalho desse artista, sabe o que está acontecendo e compra. Eu acho que o país tem memória, sim, Eu acho que o que acontece é que as pessoas não tem poder aquisitivo. Cultura hoje em dia é bem de consumo, entende? É por ai”. (Entrevista concedida pelo Renato)


Tão bebês nessa foto.
Talvez o que eu mais tenha gostado durante a leitura do livro foi essa coisa nostálgica que ele me trouxe, sensação essa que foi suscitada muito pela lista com as músicas de cada disco com os devidos créditos que veio dividindo os capítulos. Ou talvez tenha sido só o nome Legião Urbana que por si só já me deixa com lágrimas nos olhos.

Outra coisa legal foi ver mais uma vez o Renato na sua sensibilidade difícil, arredia e ao mesmo tempo solitária e carente de atenção. Sinceramente não sei se teria uma boa relação com o Renato (olha as ideias) porque ele viva num mundo tão dele que as pessoas envolta ficavam perdidas, mas definitivamente eu seria alguém que gostaria de ouvi-lo falar. Discobiografia Legionária me proporcionou um pouco disso, a possibilidade de ouvir, mesmo com interferências, esses meninos que queriam fazer rock, falar.

Urbana Legio Omnia Vincent

Nota:


Ficha Técnica:




Autor: Chris Fuscaldo
- Editora: Leya
- À venda em: Livraria CulturaSubmarinoSaraiva







O livro foi cedido pela Editora Leya, muito obrigada por me fornecer a chance de ler essa história incrível <3

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