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A mulher em Guardiões da Galáxia Vol 2

2.5.17Dana Martins


A sua análise de representatividade porque... por que não? Como a Ariel já fez a resenha de Guardiões da Galáxia Vol 2 que diz o que eu achei, vou deixar aqui meus pensamentos sobre representatividade no filme. Não só da mulher, mas o filme me fez pensar em uma coisa especificamente sobre a representatividade da mulher. 

Primeiro, vamos falar da Gamora, que é a única protagonista mulher no meio de 4 homens porque #igualdade. 

O que mais me perturbou foi que no final a Gamora não faz quase nada. Ela fica: em pé parada. Depois ela cai. Depois ela fica presa pendurada. E quando ela decide fazer algo, leva um choque pra evitar estragar o momento dramático do homem. Eles não tinham nada pra fazer com a personagem porque a storyline (secundária) dela com a Nebula já tinha sido fechada. E até nessa storyline a Nebula é muito mais protagonista. OK. 

Isso ainda é quase um caso de Síndrome Trinity, só não é 100% porque eles realmente pararam pra dar um arco próprio envolvendo a irmã. Mas a sensação é de que... o que? Tipo, qual o ponto da Gamora nesse trecho final do filme? Qual é a utilidade dela? É quase como se ela tivesse existido em um filme paralelo. Até a Nebula é mais útil quando leva aquele choque pra ativar a nave. E é essa realmente a utilidade da Gamora ali: desenvolver a história de redenção da Nebula, que foi muito mais interessante.

tão relevante pra história que não achei nem gif direito


Outra coisa que acontece é a relação Gamora/Peter, que os roteiristas estão sofrendo lágrimas de heteronormatividade por não fazer acontecer de fato, mas alguém deve ter dito pra eles que mulheres devem ser independentes e não podem se interessar por homem, então não pode!!!!

O resultado curioso disso é que dá mais personalidade pra o casal. Finalmente um filme onde estão dando tempo pra desenvolver o romance entre os dois, brincando com o "unspoken thing", e até eu fico daqui GENTE, FICA JUNTA LOGO.

 Também favorece a Gamora como personagem, porque ela é aberta com ele em privado e por fora continua com a fachada de "Não Danço", o que traz praticamente a única nuance da personalidade dela, além do estereótipo  de "mulher rabugenta super inteligente e maravilhosa". Pensando agora, Gamora/Peter é praticamente Hermione/Rony.

Mas enfim, a parte chata é que a abordagem da história parece uma criança de 3 anos mimada porque não pode ter o que quer (centralizada no Peter), em vez de explorar por que a Gamora se sente assim e eu não consigo criar muita simpatia por isso. Fica óbvio como parece que eles enxergam representatividade como regras de "pode/não pode" em vez de aprender a tratar outros seres humanos como, hm, humanos.



Outra coisa que deve ser considerada é como Gamora é interpretada por uma atriz negra e um grande problema de representatividade para mulheres negras é o estereótipo do "independente", de que não precisa de homem, de que nunca é o interesse romântico, etc. Casais interraciais também sofrem com precisar de muito mais desenvolvimento e justificativa pra acontecer, do que casais entre gente branca (Um ex: Kara/James em Supergirl vs. Kara/Mon-El). 

No geral, Guardiões da Galáxia 2 é muito exemplo de um filme que o pessoal entende que tem que incluir mulher, mas não quer abrir mão do pensamento machista. 

Ainda é algo focado em homem, que se vangloria de ver mulher como a garota cool que você pega no final. A sensação do filme inteiro é um grupo de homem fazendo piada sexual, rindo e então se dando conta de que tem uma garota entre eles e "hm, senhora," eles dizem sem jeito, porque não fazem ideia de como lidar com mulher. Imagina se elas são sexuais!!!!

Acontece algo muito interessante aqui também: o resultado de usar muito a mulher token, o trope conhecido como princípio da Smurfette (saiba mais aqui). São essas histórias com grupos de homens que tem uma (01) mulher (Ex: Guardiões da Galáxia. Os Vingadores. Rogue One). Só que no caso, Guardiões coloca mais ou menos uma mulher por núcleo. A vilã dourada, uma mulher entre os saqueadores (no final), uma mulher com o pai do Peter, uma mulher com os Guardiões e no primeiro filme uma mulher com os vilões (a Nebula). Só que sendo esse filme continuação, com a mistura de storylines essas mulheres acabam se misturando e aí, mesmo que por acaso, a gente consegue um filme que tem pelo menos 3 mulheres mais ou menos interessantes. Wow. Quase tanto quanto os 7 homens, que ainda são protagonistas e carregam a história!!!

Aliás, o princípio de Smurfette é tão claro nesse filme. Eles tiveram uma dúzia de possibilidades de colocar mulheres: mais delas entre os saqueadores do Yondu, o personagem feito pelo Sylvester Stallone podia ser uma mulher, o ajudante leal™ do Yondu podia ser uma mulher (...), mas eles continuam povoando o universo com homem (ou seres lidos como homem) toda vez. É homem primeiro, depois um grupo de homens e aí, se eles lembrarem, uma smurfette ali no meio. E algo interessante que eu reparei agora é que esses dois personagens (Sylvester e ajudante.. ah, e o pai alienígena do Peter) têm feições e são representados humanizados, enquanto todas as mulheres da história (Nebula, Gamora, Mantis e a Vilã dourada) são apresentadas mais alienígenas.



O filme ainda teve uns momentos que eu queria ter passado sem, como a forma como eles tratam o povo dourado "criado artificialmente" - OK, existe aí uma discussão interessante sobre criar uma sociedade onde cada pessoa é criada especificamente pra uma função. Mas do jeito que foi montado - uma mulher líder, o foco na artificialidade e o Peter fazendo comentários sexuais sobre "te ensinar a reproduzir do jeito melhor", foi nojento. Estamos em uma história em pleno espaço com tecnologia, outras espécies e uma árvore falante, mas ainda assim conseguem meter homem cis opinando em reprodução.

pra mim essas mulher  e as mulheres do povo parecia um monte de Sophie Turner (Sansa de Game of Thrones)


Outro detalhe em relação ao povo dourado é como tem muito mais figurantes mulher ali no meio. Aí você compara com a nave do Yondu ou na cena dele naquele lugar com música eletrônica, onde 99,9% dos homens são lidos como homem (0,1% no caso é o robô "mulher" que fica implícito que tá ali pra o Yondu usar pra fazer sexo). Mas isso mostra que eles fizeram um esforço pra apresentar o povo dourado como predominantemente feminino, só pra zombar da forma de vida deles e o fato de que são reproduzidos artificialmente. (enquanto o ambiente masculinizado dos saqueadores é celebrado)

Ah!! E quase esqueci mas tive que confirmar, na cena pós-créditos nós vemos a mulher dourada (descobri que o nome é Ayesha) acabada e correndo risco de ser exterminada por falhar, só que então ela levanta a cabeça, diz que está fazendo algo que vai fazer o conselho(??) mudar de ideia, aí mostra um ovo da Lady Gaga ou sei lá, mas um troço criando um novo ser, que ela diz que vai ser melhor e superior e mais perfeito, e ela chama de "Adam". Em um filme que discute reprodução e criação divina e uma mulher depois de falhar cria algo pra dar certo, que faz referência a Adão e Eva, e esse personagem ainda deve ser o Adam Warlock que deve ter papel relevante nos próximos filmes, talvez dos Vingadores (Infinity Wars), em vez de ser apenas um vilãozinho fajuto usado pra comédia como ela (Aka. O povo perfeito cria o ser mais perfeito, o homem, que aí vai ter relevância no universo Marvel). É triste demais.

Além disso, até a própria demonstração que o pai do Peter dá sobre ele se reproduzir com diferentes alienígenas - um universo inteiro e não conseguem imaginar algo além da reprodução binária macho/fêmea que até dentro do nosso próprio planeta tem mais diversidade. OK. 

Acho que o ponto aqui é: mais uma história de ficção científica que consegue imaginar situações extraordinárias, mas só o extraordinário que serve ao homem.


Enfim, acho que o filme consegue fazer muito bem quando faz o que quer fazer: contar a história sobre paternidade do Peter e o que significa família. Mas para por aí.

Agora, alguns detalhes pra comentar:

1) legal como eles colocaram coisa tipo o homem todo musculoso falando pra o outro "você quebrou nosso coração" ou coisas como o Drax sendo emocional sem medo. Ainda é colocado pra comédia, mas também valoriza homem se abrindo emocionalmente.
2) "Você parece uma velha falando" "Por que eu sou sábio?" - diferença cultural melhor coisa e eles estavam atentos a esses comentários e valorizar a mulher.
3) Nebula/Gamora parece ter sido uma storyline que veio de críticas ao primeiro filme e essa busca por corrigir e tentar fazer melhor deve ser notada. 
4) Na parte do lugar de música eletrônica todo masculinizado dos saqueadores, a câmera para um momento num trecho que tem um casal de homens juntinhos conversando no fundo. Olha que representatividade maravilhosa. Inclusão. Não pisca pra não perder!!!!!



E fora isso tem toda a Mantis, que é a nova personagem interpretada por Pom Klementieff, uma atriz canadense descendente de coreanos. Olha... a forma como o Drax trata ela e o filme ainda usa isso pra comédia... eu me senti muito desconfortável assistindo. As piadas são boas, mas fazer isso em um filme que já é difícil ter mulher e quando tem mulher é com antena na cabeça, ainda mais sendo representatividade asiática, eu me senti muito mal. Eles colocam a Gamora cortando isso, mas a "seriedade" da Gamora é sempre mostrada como comédia e algo que o Peter vai mudar, e no geral o filme ainda celebra o Drax. 

Ou seja, é um filme pra homens. Sobre homens. Que quer colocar mulher, mas não consegue ver mulher além da ideia de "mulher" e não sabe o que fazer direito.




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7 comentários

  1. Eu concordo com você em alguns ponto outros não. O pobre desenvolvimento da Gamorra e o relacionamento truncado com Peter. Acho que foi dura na sua análise, parece que você não se divertiu no filme. E Guardiões da Galaxia não é ficção Científica é fantasia, assim como Star Wars. As duas tem elementos de ficção científica.

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    1. dá pra se divertir e fazer análise crítica ao mesmo tempo

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  2. Acho complicado ver um filme como esse, que tem acima de tudo o propósito de divertir a TODOS, procurando por elementos que de alguma forma "diminuem a mulher". Muito pelo contrário: desde o primeiro filme, Gamora é fundamental para toda a vitória dos Guardiões, e no vol.2 não acredito que tenha sido diferente. Tanto que a própria história da Nebulosa citada no texto, depende de Gamora tanto quanto vice-versa. Parte dos elementos emocionais que ajudam muito para todo o ritmo perfeito do longa dependem de Gamora. E acima de tudo, é fundamental citar que Guardiões da Galáxia brinca com estereótipos... é proposital. Estereótipos de raça, de sexo, homens e mulheres, relacionamentos amorosos. Todo o humor da franquia se baseia muito nisso: parodiar o cotidiano. Por isso os filmes acabam sendo tão naturalmente engraçados para todos os públicos (ou ao menos quase todos...)! :)

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    1. Não assisto filme procurando fazer análise. E eu me divirto fazendo análise depois.

      Brincar com estereótipos de propósito e ser engraçado não significa que deixa de ser ruim.

      Você pode parodiar o cotidiano sem sacanear minorias.

      O resto sobre a Gamora é um comentário válido, mas não contradiz nem tem nada a ver com os pontos levantados aqui.

      O que acontece é que você gostou do filme e você queria que ele fosse perfeito, e quer justificar as partes ruins pelas partes boas. Isso é comum. A boa notícia é que: você pode gostar do filme tendo problemas E sem ter que arranjar desculpa pra fazerem as coisas ruins.

      obs: esse post não é sobre gostar ou não do filme

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    2. Mulher é minoria? Ok... Abraço!
      P.s.: Os demais estereótipos são ignorados. Homens mulherengos, megalomaníacos, dinheiristas, brutos e sinceros demais. Agora o pouco estereótipo relacionado a mulher é levado como uma ofensa. Certamente não é uma questão de ter gostado ou não do filme. É uma questão de ter senso de humor ou não... :) Passar bem! o/

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    3. Aqui já tem um post explicando o que é minoria:
      http://www.conversacult.com.br/2015/02/por-que-mulheres-sao-uma-minoria.html

      Depois que você entender o que é minoria, vai entender por que os poucos estereótipos de mulher são um problema, enquanto de homem não.

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  3. Acho que o filme foi um grande avanço no que tange a mulheres em filmes de super herois. Nesse filme, temos gamora, que é indispensavel para o desenvolvimento do longa, junto com sua irmã nebulosa. Cabe ainda dizer que temos outras personagens relevantes na trama como Mantis e Ayesha

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