assexual assexualidade

A assexualidade faz parte do movimento LGBT+?

12.3.17Isabelle Fernandes


À primeira vista, essa pergunta pode até parecer meio idiota, principalmente pra quem já conhece a assexualidade. Se você aí por acaso não sabe, o CC tem vários posts falando sobre mas vou dar uma rápida explicação aqui mesmo: assexuais são pessoas que não sentem atração sexual, ou sentem raramente, ou sentem sob circunstâncias específicas. Então você lê isso e pensa, "ah, é mais uma orientação sexual, né? Claro que entra no LGBT+" (inclusive existe a sigla LGBTQIAP+ e o "A" não é de amor, hein).

Só que HÁ CONTROVÉRSIAS e eu mesma até agora não sei bem o que pensar sobre isso, mas vamos lá. Talvez eu chegue a alguma conclusão no final desse post.

Enquanto eu ainda estava me questionando como ace fiz muitas, mas muitas pesquisas pelas interwebs. Eu lia (e ainda leio) sites/fóruns em inglês e também algumas páginas do facebook e a maioria delas não hesitam em incluir a assexualidade dentro do movimento LGBT+, o que afinal faz sentido, né? É uma orientação sexual diferente da heterossexualidade.

Mas aí, se a assexualidade se caracteriza em geral pela ausência de atração sexual, então ela não poderia ser considerada uma ausência de orientação? Porque orientação diz respeito a que gênero a pessoa se sente sexualmente atraída, então se a pessoa não se sente sexualmente atraída por nenhum gênero....

Como eu me senti quando me dei conta disso HAHAHAHAHA

Até então eu estava pensando na comunidade LGBT+ como um espaço onde diversas orientações sexuais e expressões de gênero lutam por direitos e visibilidade, então vendo a assexualidade como uma ausência de orientação, realmente não faria muito sentido ela se unir ao grupo. Pensando também sobre pautas, nós assexuais queremos visibilidade sim, mas também lutamos contra a sexonormatividade. Nós questionamos essa ideia de que todo mundo sente atração sexual, que todo mundo quer fazer sexo, o que já entra em conflito com a militância LGBT+ em geral que luta pelo reconhecimento de outras formas de atração sexual que não a heterossexual. Foi lendo um rascunho da Dana (que pelo jeito ela largou de mão, muito triste porque era ótimo) que eu me dei conta:

Para nós assexuais, a rejeição dessa cultura sexual é um resistência.
Para quem sente atração pelo mesmo gênero, demonstrar sexualidade dentro da sua orientação é resistência.

Só que aí pensando sobre isso fiquei louca da cabeça e recorri à Dana. Ela leu a primeira versão do post e::::

"to lendo, cheguei na parte de orientação e pequeno comentario: tava falando isso com meu irmao ontem quando ele perguntou se agenero era gênero. não acho que seja um gênero exato, mas é uma forma de se expressar dentro da categoria de gênero. e eu usei a assexualidade pra comparação. mesmo que não seja orientado a x, ainda é uma forma de expressar sexualidade. tipo, não ser é uma categoria porque é uma das possibilidades.

ontem por acaso tbm tava pensando sobre uma personagem e "blank stare", quando o rosto da pessoa não tá passando muita expressão, é impassível(??). mas a questão é que a falta de expressão é uma forma de expressão também. Ela tem um significado. (mostrando só que é a msm logica)"

Eu, depois desse momento
Fiquei tão maluca que fui atrás de textos HAHAHAHAHAHAHAHHA. Porque assim, eu, Isabelle, que me identifico dentro da área cinza da assexualidade e sou heterorromântica (ou seja, me atraio romanticamente pelo gênero masculino) não consigo me ver dentro do LGBT+. Tanto porque em geral sou lida como heterossexual então não sofro discriminação, tanto porque também não sinto que a comunidade ace seja percebida pelo grupo, ou mesmo bem vinda. A maioria das pessoas ainda desconhece totalmente a assexualidade e quando ouve falar, fica ridicularizando. Vejo muito por aí pessoas falando que assexualidade é coisa de tumblr (como se isso fosse negativo?? sdds lógica) ou fazendo brincadeiras sobre demissexualidade e a Demi Lovato (até hoje não acredito que presenciei isso).

Por outro lado, durante todo o processo de escrita desse post (que está na sua terceira versão), eu e a Dana debatemos muito sobre tudo isso e eu comecei a entender umas coisas. A primeira é que como em toda comunidade com grupos de pessoas diferentes, vai haver tretas. Vai ter grupos com mais visibilidade, outros apagados, à sombra desses. Vai ter preconceito contra um, desconhecimento total sobre outro, vários entrando em conflito porque levantam pautas que não conversam entre si....enfim. É até natural tudo isso acontecer porque né, estamos falando de seres humanos e socialização.

A comunidade LGBT+ reúne uma pá de grupos com vivências muito diferentes e o lance é esse mesmo. Não é todo mundo igual, nem mesmo dentro desses mesmos grupos. Se chama comunidade porque todo mundo ali tem uma coisa em comum: fogem da norma vigente na sociedade, seja de identidade de gênero, orientação sexual, o que seja. E vamos combinar, a assexualidade também foge dessa norma.

Então, respondendo a pergunta no título: e por que não seria?

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6 comentários

  1. "Porque assim, eu, Isabelle, que me identifico dentro da área cinza da assexualidade e sou heterorromântica (ou seja, me atraio romanticamente pelo gênero masculino) não consigo me ver dentro do LGBT+. Tanto porque em geral sou lida como heterossexual então não sofro discriminação, tanto porque também não sinto que a comunidade ace seja percebida pelo grupo, ou mesmo bem vinda. A maioria das pessoas ainda desconhece totalmente a assexualidade e quando ouve falar, fica ridicularizando."
    COMIGO É IGUALZINHO! Inclusive pensei várias vezes sobre quão contraditório é que boa parte do movimento LGBT+ simplesmente ridicularize e descarte a gente --e como isso às vezes torna eles mais parecidos com os héteros do que outra coisa. (??)
    Então... não sei. Minha linha de raciocínio foi igualzinha à da Dana, mas, por mais que eu ache que deveria fazer parte, e que em teoria faça, na prática parece que não tem lugar pra assexualidade no movimento ~~deles. Não ainda, pelo menos.

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    1. O problema também é que se a comunidade assexual ficar esperando magicamente que o mundo inteiro saiba sobre a gente e nos aceite, não vai rolar. Acho que tá hora de começar a fazer barulho

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  2. Assim... Faz sentido ficar sob o termo LGBT, já que não é um termo apenas para orientações sexuais. Pessoas trans estão lá também, então, não vejo problema da assexualidade entrar.

    Mas quando eu penso se é uma orientação sexual... Não sei.

    QUESTÃO: Teoricamente, eu sei que sim, mas, na prática, tem como uma pessoa sentir atração sexual por um gênero e atração romântica por outro?

    Porque, em caso negativo, o que as pessoas realmente têm é uma orientação romântica e frequência sexual, dizendo assim a grosso modo. Aí acho que a coisa toda fica mais fácil de entender.

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    1. Acho que pra saber a prática só achando alguém que se veja nisso HIGFDHGIUFDHGIUFDHGIUFDH é uma boa questão, inclusive. Até já li um texto sobre, aqui: http://everydayfeminism.com/2016/07/cross-orientation-101/

      Excluir
  3. Excelente discussão! Como gray homorromântico, minha identificação com o movimento LGBT+ é muito clara, afinal tenho sentimentos - e, ocasionalmente, relações - por pessoas do mesmo sexo. Mas entendo a confusão para aqueles que são heterorromânticos ou arromânticos.
    A assexualidade tem tantos espectros que se é difícil até para nós nos identificarmos ou não com o movimento, imagina para quem é totalmente ignorante no assunto. Porém, como li numa discussão no facebook, o conceito de um movimento LGBT+ é quase utópico: apesar de estarmos todos
    juntos, apenas os representados pelo "G" se sentem parte do movimento.

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  4. Mas a própria comunidade é uma bagunça. Já vi gente incluindo pessoas que fazem sexo só quando gostam mesmo de alguém como assexual. Pelo amor de deus, então o "normal" é transar com geral? Mas pera aí, isso era errado há 40 anos! Então minha avó e minha mãe são assexuais?
    Aí quem REALMENTE é assexual fica pior ainda. Se você, por mais específica que for a circunstância, gostar de sexo, não é assexual.
    Agora, se você quer ter um filho e topar transar para ter o filho, mas só para isso, tem sentido. Ou se transa apenas para satisfazer o parceiro mas não gosta disso ou não sente nada, também.
    Eu sou totalmente assexual, me sinto menos representada e mais "et" quando falam que assexual pode gostar de transar. Eu não sinto excitação com nada, e a idéia de ter alguém me pegando, mrsmo qur seja meu crus platônico da calçada da fama, me dá medo.
    Tem muita gente que acha que ser lgbt+ faz das pessoas algo wspecial e quer se revoltar contra tudo então acha um negocio pra se encaixar (depois de vários anos diz que é uma fase). Isso é péssimo, e por isso somos considerados idiotas. A Susan boyle só foi se relacionar depois dos 50 mas não e assexual.
    Quanto a ser parte do lgbt+ eu aceito numa boa; nunca achei que o movimento falava de ser sexual, mas sim de contestar a normatividade sobre relações humanas e identificação de gênero. Mas como vc falou, o movimento pouco reconhece.

    Há pouco tempo que vem sendo divulgado de escritores/musicos/etc famosos que nunca transaram, e de personagens, como o sherlock holmes. Mas no Brasil isso é ridicularizado - aliás, tem uma parte da entrevista do Gogol bordello no jo soares em que ele fala que o Gogol (escritor) nunca trans ou. O idiota do jo, com mente limitada, fica debochando, mas o cantor fada com muita naturalidade que isso é normal. Quando eu tiver mais "controle sobre minha vida" (independencia) tenho vontade de começar a divulgar isso. Quando falei pra minha mãe que sou assexual (nunca namorei nem nada mas eu não tinha muita idéia de que eu nunca quis isso tb) ela só me disse que é normal e que toda família hoje em dia tem algum lgbt+ hahaha (no caso da minha sou eu xD)

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