CCSéries cubano

One Day At A Time e eu nunca ri tanto com uma série

15.1.17Dana Martins


Então, essa série do Netflix, One Day At A Time, foi lançada e eu comecei a ouvir algumas coisas sobre, mas de cara eu não me interessei porque: é sitcom. Eu acho o pôster horrível, parece essas coisa de família, sei lá. Eu sei que não é o meu estilo, eu não queria.

Aí eu vi essas imagens:

Não, mansplaining é quando-

É quando um homem explica algo pra uma mulher...

que ela já sabe, mas ele age como se tivesse ensinando a ela.



Eu fiquei: Hm... ok. Isso parece legal.

Sei lá, imagina Sai de Baixo só que as piadas são sobre machismo?? Talvez... talvez eu veja.

Daí em algum momento fui colocar só um episódio pra ver, nos primeiros minutos eu já tava rindo e no final do primeiro eu já queria mais. Assisti One Day A Time inteiro em um dia, mesmo que a série nem seja tão boa pra maratonar já que é mais episódica. E no dia seguinte ainda queria mais e continuo querendo mais, tanto que já forcei meu irmão a sentar e reassisti 3 episódios com ele.

Ok, daí vem umas discussões né.

One Day At A Time é sobre essa família latina com três gerações de mulheres cubanas(/descendentes) e é bem cotidiana. Eu sinceramente não sei se as séries nos EUA não são cotidianas normalmente, ou se por ser uma família latina é mais parecido com o nosso cotidiano. Mas daí é que trata de um monte de questões e perspectivas... que a gente vê por aí.

Por exemplo, eu tava discutindo com o meu irmão que ele disse que a série fazia slutshame, porque a avó falou que batom vermelho era batom de puta.

Tem um outro momento de One Day At A Time em que as personagens avó/mãe discutem "o que você precisa é de um homem!" e até um momento o filhinho inventa que "é o homem da casa e vai ser o provedor da família". 

Tenso. 

Só que ao mesmo tempo... a avó fala do batom vermelho de puta, só que ela só usa batom vermelho. A avó diz que a mãe precisa de um homem, mas quando a mãe se abre falando que sente falta mesmo de ter um companheiro, a avó é quem assume esse papel de estar ali e dar conforto. A própria temporada inteira, é uma jornada de mãe solteira pra ela assumir essa posição independente de homem.

Então o que eu acho que One Day At A Time faz bastante não é fugir da realidade. Porque é, tem aquela avó que acha que a neta tem que ter namoradinho e tem preferência pelo neto homem e acha que a filha precisa de um homem. Só que não é uma realidade como normalmente usam - pra justificar mostrar merda. É uma realidade discutida, contextualizada, onde a gente vê as ironias e, no fim, trabalha pra ser empoderador.

"Tudo bem, a gente pode concordar que se tem um Deus, é de gênero neutro,
não um ele ou ela?"

"Não! Deus é um homem."

"Se ele fosse mulher existiria menos problemas."


A primeira temporada de One Day At A Time é baseada na quinceañera da filha, Elena, que é basicamente a festa de 15 anos. O primeiro episódio começa com a avó e a mãe insistindo pra fazer isso porque COMO ASSIM VOCÊ NÃO QUER TER UMA FESTA DE 15 ANOS. É TRADIÇÃO!!! A VALSA!!! O SEI LÁ O QUE!!! Só que a Elena é cria da internet e pesquisou sobre o que é quinceañera, uma tradição misógina que é basicamente quando apresentam a filha pra sociedade pra atrair homem blablabla. Aí a mãe responde "deixa de ser chata, começou assim, mas agora é só uma festa. vamo aproveitar." Mas a garota não quer. Então conforme as coisas acontecem no episódio, a discussão da mãe/avó empurrando a quinceañera pra a filha e ela negando se desenvolve, até no fim a mãe aprender a reconhecer a vontade da filha e, mais do que isso, reconhecer que a festa de 15 anos era mais sobre o seu desejo de fazer um festão e provar pra o mundo que ela mesmo mãe solteira ainda tinha tudo sobre controle.

A partir daí, ao longo dos próximos 13 episódios, a gente vê essas questões se desenvolverem. Todo o processo dela como mãe solteira, trabalhando, cuidando da casa, lidando com a interferência da mãe na sua autoridade sobre os filhos, novos relacionamentos e até problemas pessoais, já que ela é veterana do exército e lida com doenças mentais.

Aliás, isso é uma das coisas mais interessantes sobre a série. One Day At A Time é comédia, eu ri demais, só que aqui e ali rapidamente se transforma nesses momentos dramáticos cheios de sensibilidade que parecem naturais na história. A Justina Machado, atriz que interpreta a protagonista Penelope Alvarez, é muito boa. Ela muda as emoções em um segundo. E ela também é incrível como mãe, porque ela tem muuuuuuita cara de mãe, só que convence como ex-militar e isso pra mim é muito interessante, porque trabalha ser mãe como uma mulher que... é mais do que mãe. Sei lá, você sente ela como uma pessoa realmente que tem toda uma vida e isso a gente esquece até mesmo das nossas mães, imagina com personagens mães que só são Mães™. Nunca imaginei que eu estaria aqui gostando tanto de uma personagem que é só mãe, mas eu tô.

(Na verdade, eu gosto de todo mundo em One Day At A Time e isso é estranho)

Uma outra coisa muito legal que a série faz é trabalhar essa diferença entre três gerações de mulher. Cada uma vê o que é ser mulher de um jeito, cada uma tem a própria noção do que é empoderador, e isso muitas vezes entra em conflito ao longo da história. Só que em vez de ficar isso de desmerecer um ou outro, One Day At A Time as coloca pra discutir entre si, aprender uma com a outra e respeitar as diferenças.

Tem uns momentos muito de VOCÊ TEM QUE FAZER ISSO ASSIM, aí a outra "mas isso é desconfortável pra mim." E no fim as personagens se entendem: "Pera, então o que é confortável pra mim é desconfortável pra você? Wow" 

E a série também trata muito do limite de cada visão. Por exemplo, uma mulher não precisa do homem, mas... e se ela sente falta de estar com um homem, de ter alguém pra dividir a carga do trabalho? Tipo, o ideal é que ela viva independente yeeey, só que a vontade pode estar ali, até mesmo a insegurança de que ela precisa de homem ou até mesmo ter o ensinamento enraizado de que precisa. Então o quê? Tu fala "ah, não precisa" e acabou? Não, porque essas questões da realidade ainda vão estar ali, mesmo que não seja algo bom. E aí a série não esconde isso, mas trabalha pra buscar relações saudáveis.

Acho que já falei pra caramba. HAUHAHA Mas uma coisa que eu tava pensando, e foi até o que me fez escrever isso, é que pelo formato de sitcom tem até uma outra questão: quando os personagens agem de determinada maneira, é mais como se fosse uma espécie de teatro, tipo "sabe aquela tua avó que age assim?". Isso é diferente de uma série/filme/livro com personagem machista porque é machista mesmo, que leva a sério e apresenta como normalizado.

Agora 2 coisas que eu queria comentar.

1- Personagens Latinos

Eu gostei muito de ver uma série assim, porque pra mim faz muito pouco tempo que eu tenho aprendido o que é ser latino. Quer dizer, nós somos latinos e sempre fomos, só que esse não é um termo que a gente usa muito aqui??? Pelo menos não eu. E eu sempre senti que o Brasil era meio separado do resto da América Latina porque nós fomos colônia de Portugal, e quando filmes americanos falam de latino normalmente mostra tudo relacionado a espanhol. Pra mim, o ponto em que isso ficou claro foi quando eu assisti Orange Is The New Black e inconscientemente vi que eu me identificava mais com o grupo das ~brancas~ do que o das latinas. E aí o meu irmão uma vez me perguntou: "todas as latinas são assim?", e eu fiz uma pausa. "Tino, todo mundo que você conhece é latino. Eu sou assim?"

Só que aí, ano passado, eu tive umas experiência louca. O que importa é que, por alguma razão, eu percebi que as pessoas latinas se aproximam mais - de vários países de américa latina e latinos nos EUA. Até hoje não sei direito o que causa isso. Só sei que eu fiquei pensando "gente, o que que a gente tem em comum que é mais em comum entre nós do que no resto do mundo?" 

Eu também pesquisei bastante sobre o que é ser latino (tem gente que acha que europeu é latino e tem a ver com a língua HAHAHA) e a identidade latina tem muito a ver com a formação e história dos nossos países no contexto mundial, o que influenciou muito em como nós somos, de maneira estranhamente parecida.

Então ver uma série protagonizada por personagens latinos, que toca bastante e de maneira natural no que é ser latino, foi muito legal. Eu acho que nunca vi nada americano tão parecido com a minha família. A avó é praticamente a minha avó sem doença mental e com mais energia. Em um momento a mãe reclama que a avó tá transformando a casa praticamente na capela sistina, de tanta cruz e coisa religiosa, E ESSA É LITERALMENTE A MINHA CASA. EU MORO COM DOIS VELHINHOS. TEM CRUZ E IMAGEM DE SANTO E FOTO PENDURADA NA PAREDE EM TUDO QUANTO É LUGAR.

A mãe age igual a minha tia. A filha parece as minhas primas. O CAFÉZINHO.

Até os palavrões.

HUAHUAHUAHUAHUAH

Só sei que mesmo elas sendo cubanas e com todas as diferenças que existem na América Latina, ainda tem muito mais semelhança e foi legal assistir uma série com isso.

2- A história da menina lésbica

Foi muito bom, olha, muito bom. Só que tem umas coisas que eu queria comentar também. O primeiro episódio que toca no assunto é a avó desconfiada. Acaba que não é nada disso. Mas só sei que foi invasivo e usado pra comédia, queria que tivesse sido trabalhado melhor. E a outra questão é resumido por um artigo que eu fiz "FINALMENTE UMA HISTÓRIA SOBRE SAIR DO ARMÁRIO CONTADA DA PERSPECTIVA DOS PAIS". Tipo, eu achei muito importante, porque trabalhou a mãe não se sentindo confortável pela filha ser gay e isso acontece mesmo. A gente tem tanta homofobia internalizada que mesmo quando a gente super dá suporte, quando acontece com alguém perto da gente, a coisa fica diferente. Nossa, eu já pensei muita merda. E foi muito importante a mãe indo buscar ajuda pra se informar e saber lidar com a situação de outras pessoas gays. Só que aí eu queria muito que fosse trabalhado o fato de dizer que ela tá sendo homofóbica mesmo, de falar que a gente tem homofobia internalizada e que precisa desconstruir isso. Essa narrativa foi feita mais pra assegurar a mãe de que ela não era uma pessoa horrível por se sentir mal com a filha gay do que pra discutir as coisas tóxicas que ela faz. Ou seja, é realmente uma história sobre ser gay voltada pra gente hétero. E é ruim, né? Pelo simples fato de que as pessoas gays é que se fodem com a homofobia e ainda têm suas histórias usadas pra fazer gente hétero se sentir bem, contada de uma forma que não ajuda?????? MAS. Como eu disse, é um detalhe que ficou na minha cabeça, porque a história ainda traz muita coisa importante. A mãe indo pra um site real LGBT+ pra pesquisar sobre e poder ajudar a filha. A mãe confrontando a homofobia do pai. E, principalmente, a preocupação da mãe em tornar o processo seguro pra filha.

Uma das coisas mais legais é que ela diz em um momento "O que que eu tenho que fazer pra ela ter a melhor história de contar que é gay o possível?" - basicamente, a mãe sabia que ela estava errada em não aceitar e, mesmo com os sentimentos conflitantes, queria fazer tudo de melhor pra filha. E isso é muito importante.

E a reação da avó também foi maravilhosa, usando o Papa e a religião pra justificar por que aceita, porque aconteceu isso comigo??? Não comigo, mas quando o meu pai veio conversar sobre o namorado do meu irmão, ele literalmente usou o Papa da mesma forma de exemplo. Ele também usou séries que tinha personagem LGBT+ de exemplo. E é por isso que representatividade importa, tanto na televisão quanto figuras famosas estando abertamente em apoio. E em uma cena One Day At A Time mostrou por quê.

Resumindo: 
Acho que o principal de One Day At A Time é a comédia. Enquanto eu assistia, eu não pensava em nada disso. Eu só ria, ria mais e continuava rindo. Foi tão tranquilo e bom de assistir. E REFLITA QUE ELES FIZERAM UMA SÉRIE INTEIRA DE COMÉDIA QUE FALA DE QUESTÕES SOCIAIS SEM SER OFENSIVO. WOW. (tudo bem, eu não posso dizer que não foi 100% ofensivo porque eu não posso falar por todos os grupos, mas pela quantidade de coisas que eles trataram, eles estão muito muito acima da média). Foi só... tranquilo e divertido.

Tão bom assistir uma série assim pra variar. E OS ATORES TODOS SÃO TÃO FOFINHOS.

Dá vontade de sair fazendo 3298239832 gifs.

Mas, como eu disse, não basta isso, ainda é feminista af e trata de muito assunto importante. 

Não sei pra os outros como vai ser, só sei que eu QUERO A SEGUNDA TEMPORADA.


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5 comentários

  1. Fiquei interessada.

    Mais uma série pras 483738 que quero assistir, mas cadê ânimo? :(

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    Respostas
    1. Gente, comecei a ver a série agora na hora do almoço, despretensiosamente, e já se foram 6 episódios!! A série é muito legal MESMO e a abuelita, pra mim, rouba a cena. Melhor pessoa, hahaha!

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  2. Eu to amando a série. Assistindo aos pouquinhos para não terminar logo (mas é uma missão impossível). Quanto ao que vc disse, algo sobre tirar voz dos LGBT+,não me incomodou. É interessante ver como os heteros agem para a diferença (o que na raiz da palavra, hetero, seria o diferente), principalmente ver uma mãe passar por aquilo e assumir pra si mesma q é difícil aceitar o diferente. Recentemente eu disse pra minha mãe que sou gay. Ela aceitou, mas disse q ora a Deus q eu case com uma mulher. Ela e minha avó acham que é uma fase (espero que essa fase não passa nunca ahahaahah). Mas a questão que achei linda na série e representou muito minha família é: as pessoas traçam nossas vidas e acham que certas coisas é o melhor pra nós, assim como pensamos o mesmo delas. Mas com amor envolvido, acabamos aceitando as diferenças. ❤

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  3. Assisti no começo do ano e amei! Bem o tipo de série que gosto. Depois que acabei de ver, fiquei com umas coisas na cabeça, pensando sobre como mostraram o estereótipo dos cubanos/latinos, como mostraram o lado negativo de Cuba, como mostram os EUA como a pátria salvadora dos que fogem da ilha de Fidel... Mas também fiquei bem contente de ver dramas reais de uma mãe solo, de uma adolescente confusa, de uma família fora do modelo tradicional pai+mãe+filhos... Enfim, agora espero por uma segunda temporada e estou curiosa pra ver a série original e comparar. Preciso de tempo pra procurar em algum canto só. rs
    Se interessar, tem um post no meu blog sobre a série também. http://caixadesapato.blogspot.com.br/2017/02/one-day-at-time-netflix.html

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