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10 Merdas que gente hétero fala sobre representatividade

20.9.16Dana Martins


Volta e meia tem alguém discutindo representatividade, e não importa o assunto, o filme, a série, quem faz ou o quê, sempre os mesmos argumentos batidos aparecem. Então aqui eu vou responder 10 dos mais idiotas.

*Esses exemplos eu peguei naquela tag ruim pra JK Rowling, que eu comentei no outro post. Pessoalmente eu não tô nem aí pra o Sirius Black ser gay ou não, mas a tag provou que muita gente não entende nada de representatividade e usa os piores argumentos pra tentar justificar que a tag foi ruim.

1. O livro é do AUTOR, não do leitor.


Gente, o livro pode ser do Papa, mas não impede ninguém de criticar uma decisão merda.

E se for uma decisão que impacta pessoas na vida real, foda-se que o livro é do autor. É um livro contra a vida de pessoas reais. Só uma pesquisa rápida no google bastou pra encontrar esse link sobre uma pesquisa que mostra o impacto de má representação em pessoas negras. Ninguém é obrigado a ficar calado só porque não é dono do livro.

O autor faz o que quiser. As pessoas também.

E se o autor tem interesse em fazer algo positivo, quando chamam a atenção é a oportunidade pra aprender e melhorar.

2. Escreva o seu próprio livro se você não gostou


:) amorzinho :)  Injustiça sistemática mandou lembranças.

Se a JK usou abreviação no nome pra esconder que é mulher, porque isso dificultaria a venda, IMAGINA PRA UMA PESSOA LGBT+. Livros de minorias e com minorias são rejeitados, censurados, não recebem o mesmo espaço. Esse estudo aqui mostra como autores negros não tem acesso a publicações de ficção científica.

Isso ignorando todos os outros problemas na vida real que impedem pessoas de minoria de seguirem o mesmo caminho. Então não é tão simples. Não é só "vai lá e faz o seu".

E mesmo que fosse, o que tem de errado em pedir que pessoas que se dizem "aliadas" sejam... aliadas, de fato?

3. "Você não precisa um personagem um livro pra se sentir aceito, apenas seja feliz como você é"


Essa é a coisa mais privilegiada que eu já li. Acho que esse texto aqui já fala muito sobre isso. Ou toda nossa tag sobre representatividade, ou nossa tag LGBT+. Um personagem em um livro não só te ensina que você pode existir em um mundo onde sua existência é completamente apagada, e sufocada com comentários assim. Ela também ensina pra os outros que você existe.

4. "Tem coisas muuuuuito mais importante do que ficção, como a luta REAL das pessoas LGBT+"


Representação tem a ver com ter voz, com ser ouvido, com ser visto como parte da sociedade. Existe representação na política, nos esportes e... sim, na mídia. Uma coisa não vai excluir a outra. Lutar para que pessoas de mesmo gênero possam casar é importante, lutar pra criar leis que evitem pessoas LGBT+ de morrerem na rua ou sejam submetidas a "tratamentos de cura" é importante, lutar pra criar abrigos para pessoas LGBT+ que são expulsas de casa é importante. Mas também lutar para que essas pessoas sejam representadas com dignidade é crucial.

Pra que elas sejam vistas, na cultura, não como um tabu, mas com pessoas que merecem respeito como qualquer outra hétero.

Se você não vê o impacto violento que colocar um homem cis pra representar uma mulher trans tem na vida real, você não vê os problemas da vida real. E dizer "tem coisas MAIS importantes" é só uma forma de fugir do assunto sem fazer nada.

5. Você ainda pode imaginar que o personagem é gay!


1. Pedir pra uma história confirmar um personagem LGBT+ é sobre legitimação. Isto é, imagina que a sua irmãzinha mais novo diz "isso é certo", e todo mundo ignora. Aí vem o pai e fala "esse é o certo" e, BOOM, vira lei. Legitimação existe, e histórias de ficção famosa dão essa proteção. É tipo como o Papa falando que não é pra rejeitar, é importante pra aceitação no mundo real.

2. Isso ignora toda a realidade interna de fandom (homofobia) e de pessoa LGBT+, que normalmente têm a própria sexualidade tratada como loucura, doença ou coisa da própria cabeça. E isso só reforça que ser gay é algo que pode acontecer escondido, mas não com a mesma liberdade que pessoas hétero. Mt bom.

6. Para de reclamar porque a história não aconteceu do jeito que você queria


Essa é uma questão importante, porque... fandom e luta por representatividade às vezes se confundem. As pessoas queriam que o Sirius fosse gay, porque é importante pras pessoas LGBT+, ou porque é... é o que ela queria que acontecesse??? Tem muito dos dois, e a forma de reagir é a mesma. Mas em um lado é literalmente Duda Dursley reclamando que recebeu um presente a menos do que no ano anterior, no outro é uma questão séria. Então para pra pensar antes de falar merda. Ainda mais porque a única pessoa que se fode quando você tenta proteger uma série em vez de discutir a representatividade, são as minorias que já são silenciadas normalmente.

7. Mas ela não odeia pessoas LGBT+!


Gente, eu sei que ela é uma pessoa do Bem™, com boa a intenção, mas não muda nada o fato de que ela não tá ajudando e, em alguns casos, contribuindo pra algo que machuca pessoas reais com perpetuação de estereótipos, etc. A JK nem é o pior exemplo disso, mas apenas: esse argumento só protege o escritor. Não resolve o problema. Não discute o fato. Nada.

Por que você corre tanto pra proteger o escritor em vez de discutir a situação?

8. Mas pra que a sexualidade importa?? O personagem é mais do que isso


Lá vai o privilegiado falando merda outra vez. E o fato de que você pode viver se importando com outros valores além disso, é só uma prova de que a sua sexualidade nunca foi usada pra te ameaçar e fazer sentir medo. Sexualidade importa. Sexualidade não é um detalhe na vida da pessoa LGBT+, mas algo que molda toda a vida dela todos os dias. E importa por todas as razões já citadas aqui.

(Acabei de rever e alguém usou pra desvalidar o assunto com a hashtag #MoreThanASexuality. Nessas horas fico repensando, Harry Potter como grande exemplo pra ter empatia e se importar com injustiça não serviu pra merda nenhuma)

9. Mas fulano da série X é pior!


Não é só porque tem um problema pior, ou alguém faz pior, que o problema em questão deixe de ser ruim. Isso não tem nada a ver com o assunto??? Não ajuda em nada a resolver o problema. Pelo contrário, se tem mais gente fazendo é porque é um problema muito maior que precisa ser resolvido.

10. Mas o Dumbledore é gay


7 livros, 9328329823 personagens, 9 filmes, 1 peça, site, jogo, um universo inteiro e... 1 personagem que você só sabe que é gay porque ela disse. E mesmo que sexualidade nem romance sejam o central da história, ela não teve o menor problema de escrever 92383232 casais, descobertas de romance, subtramas de romance e parar pra Hermione e o Rony se beijarem no meio da batalha de Hogwarts (momento que eu amo, a propósito). Colocar umas 3 palavras a mais pra dizer que o Dumbledore era gay no livro, de repente, foi difícil.

Pf adoro que o Dumbledore seja gay, mas isso não muda em nada os problemas.

E isso vale pra todas as histórias que colocam aquele personagem de minoria de fundo, e eles sempre são trazido à tona como prova de que tá tudo bem quando alguém tá indicando um problema. É cota??


Sabe, não seria ruim se a JK Rowling reconhecesse a falta de rep na histórias dela em vez de se esconder atrás do Dumbledore. Não precisa nem escrever a história diferente, se não quer, mas reconhece os problemas.

11. Mas a história já está completa

E não é sobre mudar a história que já foi escrita, mas mais sobre 1) Mudar o impacto que ela tem agora 2) Ter a chance de fazer melhor no futuro. Como o Felipe disse nos comentários, só reconhecer (E NÃO JUSTIFICAR) os erros, é um começo:

Eu queria que um dia ela falasse: "Nossa, realmente, escrevi 436234896 livros e não representei gay algum, talvez eu não esteja mesmo dando muita atenção ao assunto, mas PODE DEIXAR que no meu próximo livro eu vou tentar melhorar, já que eu me importo".
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Enfim, tag pra JK Rowling, ficar pedindo pra ela fazer o Sirius gay ou dar ataque e acabar com a escritora porque ele não é gay, é uma merda. Mas não por nenhum dos motivos acima.

No fim, a questão é: Por que você tá tão preocupado em negar que ele seja? Por que tá tão preocupado em defender a JK Rowling? Pra que precisa desvalidar a importância dele ser gay? Por que não para pra pensar por que isso pode ser importante pra outras pessoas?




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Em outras notícias, o Batdrama agora é enviado por email, só se inscrever nesse link. Eu falo sobre todo tipo de coisa que eu aprendi na semana, pequenos casos e observação que não valem um post, mas ainda quero compartilhar. 

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15 comentários

  1. Nossa, esse argumento do Dumbledore ser gay chega a ser um abuso. Quando a JK Rowling veio com esse papo do Dumbledore, alguém tinha que ter dito A SENHORA TOME VERGONHA NESSA CARA. Quer dizer, GENTE. É meio cara de pau da parte dela até. Isso não conta. Se ela escrevesse um conto deixando a sexualidade do Dumbledore evidente, até ia, mas só de boca assim... Eu nem sei se ela tem poder pra afirmar algo que não está escrito, sinceramente.

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    1. AHUHAUHA eu nem acho ruim isso do Dumbledore, o problema é só quando isso é usado pra ignorar e apagar toda uma conversa importante sobre melhor representatividade nas histórias. tipo tudo bem que é legal, mas pf vamo parar 1 segundo e falar disso direito

      ~mas só um lembrete de que não importa se é algo tão simples quanto o da JK ou um problema sério em uma história, esses 10 argumentos são usados~

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    2. Eu queria que um dia ela falasse: "Nossa, realmente, escrevi 436234896 livros e não representei gay algum, talvez eu não esteja mesmo dando muita atenção ao assunto, mas PODE DEIXAR que no meu próximo livro eu vou tentar melhorar, já que eu me importo".

      (Mas nem tchun, porque saiu Cursed Child e nada dela representar, risos)

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    3. Tu é perfeito <3 <3 <3 porque é isso, é tão simples. Não precisa escrever o livro. Mas reconhece isso. Cara, não precisa nem falar "mas PODE DEIXAR QUE", se não quer fazer, nem faz. Mas fala por que não tá fazendo, ou promove gente que tá fazendo, ou fala que não vai fazer e ponto, sei lá. Isso é mais aliado do que não fazer, e ficar nessa "mas apoio".

      Se a intenção é ser aliado, é claro.

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  2. É estranho como dez formas de dizer algo podem ser usadas como dez formas para dizer exatamente o contrário.
    Ou melhor, não é estranho.
    http://colunastortas.com.br/2016/09/13/gregorio-e-clarice-o-discurso-da-internet-cria-seus-objetos/

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    1. não acompanhei o caso do gregorio, mas esse texto aí tá tão fora do ponto que não tá nem no mesmo universo

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    2. Não falei sobre o tema. Falei sobre as formas de dizer algo. Na falta de exemplo melhor - ou tão específico quanto - esse texto sobre o caso do Gregorio e da Clarice falam sobre esse lugar de poder que o leitor acredita ter.
      Nem sempre é real. Ainda bem.

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  3. eu sei, eu tava falando disso. se quiser conversar mais sobre o assunto, avisa que aí a gente desenvolve HUAHUAH

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    1. Então, tem um ponto na tua fala que soou tipo UÉ, que é quando você fala "merdas que gente hétero fala". Como é que você sabe a natureza sexual de quem "não deveria" falar ou não é bem vindo a falar sobre um assunto? E sexualidade é tão definidora assim do locus de fala de alguém? Eu já ouvi merda saindo da boca de gente de todas as sexualidades possíveis catalogadas na Pokédex - se tem uma coisa em que a democracia funciona, é na habilidade de falar merda.

      Dito isso, olha a quantidade de merda dita por feminista sobre o Duduvier - e o mais legal: pelas mesmas que o alçavam a um pedestal de homem ideal até um tempinho atrás. De repente "precisamos falar sobre Duduvier". Não, não precisamos, a vida não nos compete e o fato de ele e a Clarice serem pessoas públicas não os tornam menos pessoas adultas capazes de se resolverem sozinhos.
      Até onde eu sei, eles não pediram ajuda para isso.

      E daí entra o teu post, again: representatividade importa? Opa, e como! Eu fiquei feliz DEMAIS com a série de livros Os Instrumentos Mortais e com o beijo do Magnus Bane e do Alec. Achei tipo WOW a cena do seriado The Magicians na qual ocorre um ménage completamente inesperado (e mega contextualizado). Sense8 dispensa qualquer fala. Mas, aparentemente, as séries citadas foram construídas pensando nisso, nesse clímax e tal. O oposto é verdadeiro: embora Lúcifer (a série) mal resvale no Lucifer da Vertigo, tipo, são personagens COMPLETAMENTE diferentes (o Lucifer da Vertigo beira a assexualidade, o Lucifer do seriado é um flerte ambulante), a série é bacana, mesmo pra um fã do selo Vertigo. Por que? Porque eu literalmente não fico caçando meus valores ali.
      Harry Potter não foi pensado para a temática LGBT+, isso é notável. Isso não torna os livros menos importantes (entra aquele discurso todo que você já conhece sobre best seller e cânone etc).
      O que fica esquisito é tipo "vamos reclamar de J K Rowling porque não existem personagens gays na obra dela, vai que um dia ela lê e pensa 'puxa! Vamos criar um personagem gay porque eu li aquele blog em português e vi que minha vida não fez o menor sentido até agora. Preciso escrever um personagem pra Dana". Torço para que isso aconteça, mas...
      O lugar do autor é soberano. A história é dele, e ainda mais nesse caso, em que a história já está completa, acho que beira a bizarrice começar a discutir sexualidades dos personagens agora - algo que não fez a menor diferença para a história. Não era o foco.
      Já foi bizarro ela afirmar a homossexualidade do Dumbledore, já que isso não teve nenhum impacto na trama. Queria falar sobre isso? Poderia - veja bem, PODERIA - escrever um livreto one shoot sobre as relações do Dumbledore. Mas... Até que ponto isso é interessante para ela escrever?

      Indo assim, no limite, é como caçar sexualidade em Moby Dick ou em o Velho e o Mar. Qual é a intenção de representatividade num caso como esse? Ainda mais que 1. o tema sequer resvala nisso e 2. os autores estão mortos?

      Rowling está viva, ela PODERIA escrever pensando em representatividade, mas, se ela não escrever, TUDO BEM.
      A obra é dela. Ninguém pode forçá-la a nada - se ela escreveu Harry Potter no tempo dela, independentemente da quantidade de gente lotando o e-mail dela, imagine se agora, obra pronta, ela vai se dar ao trabalho de se irritar com esse tipo de pressão..!
      E aí a gente toca nas suas questões 1 e 6. Você até pode falar o que quiser (questionável isso num nível, mas...), achar que a obra tem que ter o ponto x ou o y ou o z e o autor falhou nisso...
      ...e o autor vai continuar escrevendo o que ele quiser.
      Quem sai ganhando?
      (Particularmente, acho que sai ganhando quem busca histórias que lhe agradem, só acho).

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    2. Então... vou começar te indicando pra o post do "Not All Men", que você pode ler como "Not All Straight"
      http://www.conversacult.com.br/2015/03/o-meme-not-all-men-o-problema-do-nem.html

      Todo mundo fala merda, eu sei bem disso. Ainda mais dentro da comunidade LGBT+ - dois dos filmes recentes com personagens trans são interpretado por atores cis LGBT+, ou seja, tá mais claro que tem muita merda interna.

      Mas isso não muda o fato de que, por ser LGBT+, existe uma experiência semelhante que pessoas hétero não tem. E esse post é todo sobre privilégio hétero, e pessoas privilegiadas nesse sentido na maioria das vezes são as que promovem esses tipos de pensamento e são beneficiadas por eles. Em outras palavras, são pensamentos que beneficiam a heteronormatividade.

      Então mesmo que todo mundo fale merda, ainda cabe. E aí te indico novamente pra o texto do Not All Men.

      Além disso, existe o contexto cultural onde "hétero" é uma palavra usada como forma de defesa, mas aí é uma discussão maior.

      ------

      Sobre o caso do Duviviver, é o que eu digo sobre estar fora do ponto. Ninguém tá nem aí pra vida do Duvivier, a questão é que é isso mesmo - ele está em um pedestal, ele tem poder de voz, e quando ele fala algo, é considerado como certo. Então se ele fala de algo reforçando valores machistas, esses valores são reforçados como um todo >na minha vida<. E, mais do que isso, as pessoas tratarem um texto desse como se fosse romântico, é uma evidência de como, na nossa cultura, nós aprendemos a romantizar coisas tóxicas para as mulheres.

      Não é sobre se meter na vida do Duvivier e decidir o que ele faz. Imagina isso como a análise de um texto em um livro de história - uma análise do que o texto representa sobre a sociedade da época. No presente, essas análises também servem pra gente questionar e modificar esses valores. É menos sobre DUVIVIER NÃO FAZ PROPAGANDA, e mais sobre: por que >a gente< acha isso romântico? por que >a gente< tá colocando ESSE cara num pedestal? como a gente pode celebrar pessoas que produzem uma cultura mais positiva >pra gente< (no caso, as feministas)?

      Além disso, como ele reproduz o discurso dominante, reforçando valores que já existem, esses textos trazem outros pontos de vista - e é uma sorte que eles tenham ganhado espaço o bastante para fazerem parte da discussão. Não é sobre substituir um valor pelo outro, é sobre os dois existirem.

      E aí se você quer reforçar as coisas machistas que o Duvivier falou, vai lá. Mas isso me dá, ainda mais como mulher, a opção de saber que eu não preciso aplaudir gente falando merda de mulher.

      (e ainda assim não é uma utopia onde as duas opções têm o mesmo peso. a maioria das pessoas só vê o que o duvivier disse. e é por isso mesmo que espera-se que, se ele tem algum interesse em ser aliado, ele repense o que está falando. mas enfim, é uma opção pra ele.)

      -----

      Sobre JK, então... Pra começar, pessoas LGBT+ não são uma temática. São pessoas reais, que existem no mundo, assim como mulheres, pessoas negras e de 239832 etnias. Ainda assim, na ficção, nós só vemos um tipo de pessoa.

      E aí a gente abre a discussão, e lembra que ficção não existe no vácuo.

      Primeiro, é um fato como minorias têm menor acesso a ficção, tanto em termos de produzir, quanto de aparecer nas historias em si. No caso das pessoas LGBT+, ainda, chega ser uma questão de RISCO a pessoa dizer que é LGBT+. Esse é o mundo em que vivemos - onde ser LGBT+ coloca sua vida em risco, sua carreira, suas amizades, sua chance de escrever um livro ou de ser ouvido.

      O que isso nos diz? Nos diz que tem uma minoria que tem um controle da voz.

      Aí a gente - cria medidas pra ter mais dessas minorias aparecendo, pede pras pessoas que estão lá incluírem as minorias. Não que ninguém seja obrigado. Mas eu também sou obrigada a ficar aqui dizendo TÁ TUDO BEM, É COMPLETAMENTE NORMAL APLAUDIR ESSE BANDO DE GENTE QUE IGNORA MINORIAS, VOU FICAR AQUI EM SILÊNCIO COMO SE TIVESSE TUDO OK.

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    3. Ainda mais que, vamos lembrar, representatividade não se limita a "fiquei feliz". De muitas formas, isso literalmente salva vidas. Literalmente.

      Resumindo toda essa parte: Pessoas LGBT+ existem, é importante que elas apareçam nas histórias e no momento existe um bloqueio quanto ao aparecimento delas na história, e aí ou você tá ajudando a melhorar essa situação, ou tá ajudando a manter essa situação.

      Você pode escolher o que quiser, o que naõ dá pra querer é que as pessoas fiquem caladas e aplaudindo enquanto isso tá acontecendo.

      --

      Agora, na prática aqui, com esse texto. Duas coisas:

      1. Repito o que eu falei sobre o Duvivier. É menos sobre se meter na vida da JK, mais sobre a gente aqui. Por que a gente tá aplaudindo aqui os livros dela que são uma merda de rep, em vez de procurar algo melhor? (e no caso dela, ainda tem a questão do Dumbledore que o pessoal usa pra apagar todos os outros problemas) Além disso, todos os 10 comentários acima foram escritos por pessoas comuns, leitores como eu e você. E esse mesmo discurso repetido 293832 vezes na tag. E não só nessa tag, eles aparecem em TODA DISCUSSÃO SOBRE REPRESENTATIVIDADE. Então é pra você que tá lendo isso, pensar sobre essas coisas, entender que todos esses "argumentos" listados, são falsos e só fortalecem a heteronormatividade, em vez de ajudar a buscar uma história mais positiva pras pessoas LGBT+.

      Porque é importante a gente saber que não precisa aceitar isso. É importante a gente discutir a importância de rep. Quanto mais a gente aprende, A GENTE busca histórias melhores. A gente vai assistir um Jogos Vorazes, um Mad Max, sem falar merda. E eu não sei nem o relativo desses pra pessoas negras, ou LGBT+. Isso faz jovens escritores repensarem. E mesmo que nem todo mundo vá ler o meu texto, muita gente vai conversar com gente que leu o texto. Ou vai ver no texto coisas que viram em outros lugares e se sentirem mais seguras pra buscar uma representatividade melhor.

      2. vamos reclamar de J K Rowling porque não existem personagens gays na obra dela, vai que um dia ela lê e pensa 'puxa! Vamos criar um personagem gay porque eu li aquele blog em português e vi que minha vida não fez o menor sentido até agora. Preciso escrever um personagem pra Dana". Torço para que isso aconteça, mas...

      Já aconteceu. De onde exatamente você acha que saiu a Hermione negra?


      --

      Sobre o "pra Dana", eu te direciono ao número 6 no texto acima.

      Sobre "o lugar do autor é soberano", te direciono ao número 1.

      Sobre "A história é dele, e ainda mais nesse caso, em que a história já está completa," te direciono ao número 10 e 11 (que eu acabei de adicionar).

      "já que isso não teve nenhum impacto na trama", te direciono ao 8.

      Sobre "(Particularmente, acho que sai ganhando quem busca histórias que lhe agradem, só acho)", te direciono pra 3, 4 e 8. Mas acho que se resume a: poder sair ganhando com uma história (porque, como eu disse acima, isso tem impacto em minoria) sem se importar com representatividade, é um privilégio.

      ------------

      Resumindo, acho que você não entende muito bem o que é representatividade, e o impacto disso.

      E os questionamentos que ficam é: o que você ganha com isso? o que você ganha protegende o Duvivier das críticas - porque é isso que você faz quando fala das críticas como se fossem desnecessárias? O que você ganha quando começa o texto dizendo que "nem todo hétero fala assim", mas insiste que são as "feministas" que estão falando do Duvivier? O que você ganha falando "tá tudo bem, deixa ela em paz, a JK não tem nenhuma obrigação" quando alguém diz o que essencialmente é "JK, você disse que você se importa com a gente, cadê as pessoas LGBT+ nas suas histórias? o que aconteceu?". o que você ganha? por que você precisa defender esse posicionamento?

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  4. "Escreva o seu próprio livro se você não gostou" pior que mesmo com tudo que cê falou nós estamos escrevendo e as hetera nao para de gritar "MAS É TUDO GAY AGORA!!1!" ué lindas cês nao falaram pra gente escrever? tamos escrevendo

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    1. siiim. (mesmo que eu não saiba onde é esse lugar onde tudo é gay agora)

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    2. se descobrir me avisa pfvr porque também nao sei

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  5. "Se você não vê o impacto violento que colocar um homem cis pra representar uma mulher trans tem na vida real, você não vê os problemas da vida real." Exatamente, e muito bem dito! Adorei o texto! Obrigada!

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