Bianca Rosa CCdiário

Até mesmo o comum é resistência

29.8.16Colaboradores ConversaCult



Eu acordo. Tento acordar a minha mulher devagar, mas ela tem um sono de pedra. Às vezes eu fiquei muito tempo acordada na noite anterior, então ela acorda antes. Uma de nós duas se levanta pra fazer café da manhã e vamos para a academia. Ou dormimos até tarde e babulciamos algo sobre ir na academia à noite ou no dia seguinte. Vamos na academia juntas, revezamos as compras no mercado, às vezes vamos juntas fazê-las. Recebo mensagens pedindo pra levar coisas como sal ou macarrão quando voltar pra casa. Tem dias que a gente vai comer fora, tem dias que cozinhamos em casa. Quem cozinha fica com preguiça de lavar a louça (super justo). Temos que colocar comida pros gatos, limpar a caixa de areia, lavar as roupas, estender as roupas, pagar as contas, garantir que a geladeira tem comida pra semana. 

BORING ALERT. 

Mas é tudo muito lindo também <3


Não existe nada de muito diferente na nossa rotina. Nada que nos torne muito diferentes de qualquer casal heterossexual. Mas nós somos duas mulheres. Será que isso muda algo?

Pra mim, não. Eu não me sinto diferente. Trato tudo isso com extrema normalidade. Minha sexualidade não é anormal, a vida que eu levo não é anormal. Mas a cada segundo, sinto que sou resistência. Em qualquer situação que seria normal para um casal heterossexual, sinto os olhares recaindo sobre nós. Sob constante vigilância, curiosidade, como peixes num aquário. Tento abstrair.

Cansei de me esconder. Não quero gaguejar na entrevista de emprego se me perguntarem se sou casada. Não quero esconder minha vida enquanto o colega de trabalho fala abertamente sobre a dele. Não quero sentir que preciso fazer isso E não vou.

Mas vocês não tem noção do medo que dá. Especialmente nas primeiras vezes, com pessoas novas. "Ontem minha mulher fez um hamburger." é uma frase tão simples, tão comum de se ouvir da boca de um homem, mas que quando eu falo, eu preciso tirar força sei lá de onde pra conseguir formar. Cada vez que eu consigo externalizar meu relacionamento com naturalidade, eu ganho confiança. A confiança te ajuda a se colocar numa posição que qualquer homofóbico vai pensar duas vezes antes de falar alguma graça.

Ser mulher e ser casada com uma mulher não é muito diferente de ser casada com um homem e não deveria ser tão difícil assim de externalizar. Minha esperança é que no futuro não seja. Enquanto isso, segue a luta.

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Sobre a autora:

Bianca Rosa é uma carioca que escreve códigos e gosta de dias nublados. Também usa o twitter.

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