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Dia com Karol Conká Parte II: O lado desalmado da realidade

14.5.16Valentino Martins


Estou com medo de escrever sobre isso, medo mesmo. Não é pena, nem dó, é tristeza por reconhecer pessoalmente uma realidade racista e opressora. Tristeza por, indiretamente, fazer parte disso. Tristeza porque isso é errado. 

Você não precisa ler pra entender esse post, mas a primeira parte é essa: Dia com Karol Conká. Lá no início da aventura, quando todos nós estávamos indo buscar a Karol e, ao som das músicas dela, observei algo. Parecia mágica e se eu acreditasse no poder de mudar a realidade dos Deuses, diria que foi algum deles. 

Eu estava no fundo da vã. Olhando. Os outros dançavam e ao fundo Karol cantava:

"... meninas se fantasiam negando suas naturezas. Cobertas de incertezas, com medo, se sentem presas. Escondem a esperteza sonhando com a realeza" 

"A mocinha quer saber por que ainda ninguém lhe quer. Se é porque a pele é preta ou se ainda não virou mulher. Ela procura entender porque essa desilusão, pois quando alisa seu cabelo não vê a solução" 

"Dona Maria levanta cedo de segunda a segunda. Segue acostumada com uma rotina que nunca muda. De joelhos e olhos fechados, pede pro santo uma ajuda: que ilumine a cabeça de sua filha caçula que sai de saia justa, salto alto e mini blusa se sentindo madura com vergonha da pele escura. Se decepcionando com o reflexo do espelho e querendo o mesmo visual dourado da modelo"

Só ouvindo a letra da música minhas lágrimas começaram a cair rosto abaixo. 

Uma das meninas bateu no peito enquanto cantava essa letra, era como se seu corpo gritasse. Naquela hora eu vi o que é a representatividade e qual a importância. Nós somos feitos de coisas que nos identificamos, mas é difícil ver isso acontecendo entre nós e o que gostamos. É difícil ver o quão isso é importante. Imagine ver esse "clack" acontecendo. Se aquela menina algum dia sofreu racismo, machismo, se algum dia ela se sentiu marginalizada, Karol Conká ajudou ela a bater no peito e ser orgulhosa do que é. Ali eu via uma garota o oposto da música. Se algum dia ela escondeu a esperteza e sonhou com a realeza, ali eu vi a realeza em si. Não me leve a mal e desculpa o palavrão, mas Karol Conká é FODA DEMAIS! 

Não sei mais se as lágrimas eram pela realidade horrorosa ou pela admiração por esse feito da Karol Conka. 

Falta de representatividade? Porque novelas, séries, revistas e passarelas estão massivamente compostos por brancos? Porque se tu não for hétero, cis, branco e rico, você não é retratado?
Padrão de beleza opressor e branco? Porque o bonito é o fino, o magro, o branco, o europeu, o "mais claro"? Que quando eu paro e reparo, as pessoas ao meu redor, NENHUMA delas se acha bonita de verdade?

Sociedade machista? Porque quando estou ao lado de algum """macho""" observo que se passa uma menina de saia justa, salto alto e mini blusa ele se acha no direito de avaliação e assovia e dá um olhar tão invasor? Que ele faz isso com crianças na porta de escola? Desde quando saia curta é convite? Desde quando existir é convite? Sociedade que não quer ver? Que quando olha pra todas essas causas, se recusa a enxergar e ainda acusa de vitimismo? 

Eu não sei pensar nisso o que é de mais errado. Se é o fato de que tudo isso acontece e é um problema real ou as pessoas que se negam a ver isso? Onde foi que ficamos tão desumanos assim?

Não digo que sei o que é ser mulher. Não digo que sei o que é ser negro. Não digo que sei o que é ser mulher e negra. Não digo que: sei o que é ser cantado por estar de saia ou só por existir, não digo que sei o que é ser perseguido pela cor da minha pele, não digo que sei o que é olhar no espelho e me odiar, não digo que sei o que é olhar pra TV e não me ver, entre outras diversas situações. 

Digo que, como classe média alta, branco, cis e pansexual, eu me importo. (se é que posso dizer algo) Digo que vou ceder meu privilégio e enxergar. Sou gente o suficiente pra olhar pra isso, não achar legal e lutar contra. Lutar por um mundo melhor. Eu não vou olhar pra uma situação dessa e ignorar, se ignorar, te garanto que isso vai queimar em mim por muito tempo. Se ignorei, é por pura ignorância. 

Não faço isso só porque quero. Faço porque é errado. Porque ninguém devia ser desvalorizado. Porque, a partir do momento que dividimos o mesmo espaço, a sua opinião vai importar tanto quanto a minha. A sua vida vai valer tanto quanto a minha. Se é utópico ou não, não interessa, economizo minhas reclamações e poupe as suas, o que vai fazer diferença é se começarmos agora a lutar pelo amanhã.

Não. Vamos fazer isso pelo agora. 

Não cabe a mim falar por essas pessoas, mas procure pra entender o ponto de vista delas contado por elas mesmas. Por isso exista uma diferença entre a Karol Conká falar e eu falar.  Você pode começar assistindo um vídeo da Nátaly Nery.

Só vim mostrar o que reparei e dizer que isso me afeta profundamente, tô compartilhando meu coração e minha mente com vocês. Quero dizer que eu não vou me calar e farei o possível dentro do que me é permitido pra construir um mundo melhor.  

Enfim, no fim do dia, muito obrigado Karol por existir e me permitir ver tudo isso. Você tem o meu mais sincero aplauso e admiração. 

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