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Uma garota gorda assistindo The DUFF

18.2.16Dana Martins


DUFF: Designated Ugly Fat Friend, em português: o amigo feio e gordo. 

Quando eu ouvi falar do filme The DUFF, minha reação foi EU QUERO VER ISSO, porque: história de high school, ainda protagonizada pela Mae Whitman que eu sempre gostei e nunca tinha assistido nada relevante com ela. Aí fui assistir o trailer... e, pera aí, é uma história sobre a amiga gorda que é interpretada pela garota magra? Taanta abertura pra gordofobia, sos. Acabei deixando pra lá, até que nesses dias uma leitora do CC por causa do meu Batdrama sobre identidade veio indicar esse filme. Mais por acaso ainda, os planetas se alinharam e eu tive a oportunidade de sentar com meu irmão pra ver um filme aleatório e esse estava de cara lá no Netflix. 

Quer saber? Vamos ver o que acontece.



The Duff é o filme de high school de sempre legalzinho pra passar o tempo, com uma mensagem de "o poder é ser quem você é" e acho que indicaria de maneira geral, mas eu não quero fazer uma resenha do filme. Eu quero falar dessa história de DUFF e como o filme apresenta isso.

gifs do filme

eu tão vou usar isso numa fanfic vlw flw

Logo no início o cara gostosão da escola explica o que é DUFF: o amigo gordo e feio designado. Não é realmente uma pessoa gorda, mas é aquele amigo mais feinho que as pessoas mais bonitas têm, não só pra elas ficarem mais bonitas, mas pra eles também servirem como porteiros. Veja bem, sabe aquela pessoa LINDA que você morre de medo de falar? E se ela tivesse um amigo feinho que parece mais amigável? Então você fala com esse amiguinho, sonda as suas possibilidades, e vai em frente (ou não). 

Em uma cena do filme, por exemplo, a personagem marca de sair com um garoto e YEAH, ENCONTRO!, mas quando chega lá o garoto tava esperando as amigas dela aparecerem, porque... o convite era um "código" pra ele pode conhecer as outras garotas, né? 

E durante a explicação do próprio filme sobre o que é DUFF, diz que não é nem necessariamente é uma pessoa gorda, e mostra vários DUFFs - garotas e garotos mais feinhos perto dos amigos, sendo ignorados. (nenhum deles é gordo) 

Aí você pensa: legal, né? Não tá falando das pessoas gordas, todo mundo pode ser um DUFF!



Faz tempo que eu tô querendo falar sobre ser uma pessoa gorda no CC, e toda vez que eu chegava no assunto dava um tilt porque TEM TANTA COISA PRA FALAR. E um dos temas que eu queria abordar é que ser gordo é sinônimo de "não aceitável". Termos como DUFF mostram que as pessoas não estão preocupadas nem realmente se são gordas quando falam de estar gordas, o que as pessoas estão tentando dizer é "eu não sou boa o bastante". 

Sei lá como isso aconteceu, mas já virou sinônimo. A pessoa se sente mal sobre o próprio corpo, ou acha que tá falhando em algo, e É PORQUE SOU GORDO. 



O DUFF é a pessoa que você acha feia, não considera nem como interesse romântico, que precisa de ajuda pra ser "consertada". 


só que existem pessoas gordas crescendo e ouvindo essas merdas

E é curioso, que você vai ver uma pessoa gorda que se sente bem com o próprio corpo, e ela vai dizer "eu não sou gorda", porque Ser Gordo é tão mais associado a um sentimento de ser ruim do que a realidade do próprio corpo. Além disso, se você perguntar pra qualquer ser humano vivo, ninguém vai dizer YEAAH EU QUERO SER GORDO, porque dizer que QUER ser gordo é quase como dizer "eu quero ser esse ser humano incompleto que não é bom o bastante e to contente em ser essa merda". Tô pegando pesado? Talvez. Mas é nesse nível o que é associado a ser Gordo. 

Aí você me faz o filme, que usa uma sigla que tem "gordo" com esse significado, e não tem nem uma pessoa gorda em cena. Acho que só no final em uma das cenas aparece uma pessoa gorda, e depois de pesquisar umas imagens pra esse post tenho quase certeza de que é a própria autora do livro que originou o filme fazendo uma ponta! Tem noção do quão absurdo é isso?

Uma garota gorda escreve um livro usando o termo DUFF. 

Eles fazem um filme sem pessoas gordas, onde "gordo" tem um significado de "não ser bom o bastante".

Aí vamos pra segunda parte. 

Mae Whitman


A pior parte é que eu acho que a Mae Whitman realmente se identificou com a personagem, até porque
ela é realmente a garota gorda de Hollywood. Ela podia receber papeis tão mais legais :(

Isso é uma pessoa gorda e feia pra Hollywood.  

E essa aqui é a autora do livro:


As duas juntas:



Tipo, a coisa é tão sinistra que eles fazem um filme sobre a pessoa "feinha" que não tem nem uma pessoa feinha, porque quem colocaria uma pessoa feia pra protagonizar um filme??? Fica difícil acreditar na sua mensagem assim, gente.

Na época que o filme tava lançando vi até alguém comentar, "a noção de Hollywood de pessoa gorda é uma garota magra com roupa larga". É como se ser gordo fosse um estilo! Me passa aí uma camiseta larga, deixa eu vestir pra ficar gorda. Parece piada, mas não é. Já vi mais de uma vez a personagem "gorda" sendo uma atriz magra usando roupa larga. 

Esses dias eu encontrei um tweet sobre a Eliza Taylor, com uma parte de uma entrevista onde ela fala sobre ser grata de poder ter um papel onde não estão mandando ela emagrecer. Essa é a Eliza Taylor:



Tipo, ela é considerada a pessoa gorda pra Hollywood. Ela sofre críticas por não ter corpo magro o bastante. Wtf. 

Acabou?

Não, terceira parte: 

A história. 

Na história a garota percebe que é mesmo a DUFF, que ninguém nem sabe que ela existe direito, e faz um acordo com o cara bonitão da escola pra deixar de ser a DUFF. Ele leva ela pra fazer compras, ensina a garota a usar sutiã pra mostrar melhor os peitos, coloca ela pra perder a vergonha dando em cima de 20 caras aleatórios no shopping. É quase aquele outro filme adolescente antigo, que uns amigos fazem uma aposta acho que algo tipo "duvido você transformar aquela garota feinha na garota gostosa", e ele aceita. E funciona. (alguém lembra o nome??) 



Só que em The DUFF o que acontece é que mesmo depois disso tudo, ela ainda é vista como a DUFF e, pra variar, até o garoto bonitão que ajudou ela não está muito feliz porque isso fez ela perder o próprio estilo. Aí a garota entra em crise, como toda garota normal que precisa lidar com essa merda, e no meio disso percebe que a solução é ser ela mesma. YAY. 

Ela vai lá, pega o vestido bonito que ela tinha comprado durante a Transformação e a camisa quadriculada dela e, com ajuda da amiga estilista, faz um vestido híbrido que reflete quem ela é! Vai pra festa de formatura arrasando. Pega o garoto. Enfrenta a Garota Draco Malfoy. YAY 2.

Só que, verdade seja dita, o filme passa 90% do tempo falando que ela tem que mudar e criticando quem ela é. Até os últimos minutos do segundo tempo, isso é o que conta. Até quando ela decide ser ela mesma, ela vai lá fazer o vestido??? 

E a cereja no topo da bolo: a escolha dela é validada pela capacidade de seduzir o cara bonito.



Isso é outro problema sobre ser gorda, que mistura com feminismo. Veja bem, culturalmente o valor da mulher é baseado na capacidade dela de atrair um homem. A mulher é constantemente julgada por isso. Se você é gorda, já fodeu, porque você não tem valor pra homem. E se você não tem valor pra homem você não é boa o bastante. Pra que além disso uma mulher vai servir, né? hahaha... (aliás, é por isso que é mais culturalmente aceito mulheres casadas engordarem, porque elas já conquistaram o homi, né? já fizeram o trabalho, não precisam mais ficar magras!) (e isso afeta também os homens gordos, só que em um grau muuuito menor) 

Pega as músicas da Meghan Trainor, por exemplo, que são horríveis de uma perspectiva feminista, já que são todas voltadas pra validar o próprio corpo através de aprovação do homem (All About That Bass - os caras gostam de ter o que pegar, então é ok ter o meu corpo). Mas de uma perspectiva de uma pessoa gorda, é um grito de liberdade. É uma mulher gorda que está dizendo finalmente que é boa o bastante. (Walkashame - sobre ter uma vida sexual e não ter vergonha)

Pra uma pessoa gorda, ser tratado como alguém desejável e que merece respeito é uma revolução. 

e queria dizer que super vi raven/octavia nessas amigas dela. mas que não foi nada legal como elas são
jogadas pra escanteio assim que o cara aparece (mas é legal que mesmo brigadas ajudam a amiga)


Mas ainda assim preferia uma narrativa que a validade da mulher não é definida pela capacidade dela de atrair homem. 


Quarto - eu e a personagem

Assistir filme assim mexe no ponto sensível, né. E não ajuda que a protagonista do filme, a Bianca, também adore zumbis. Eu usaria a maior parte das roupas que ela usa (menos aquele vestido no final pf). Na verdade, ela deve até usar no filme algumas roupas que eu literalmente tenho. Se eu assisto esse filme com meu pai ele ia virar pra mim e falar "você", e eu ia responder "cadê o primo do stephen amell sendo meu vizinho" -nnn Mas assistir isso foi melhor do que eu imaginava.

ele é o primo do stephen amell. e isso é uma cena do filme

Tem um momento muito bom que, quando a personagem percebe que é a DUFF e que todo mundo trata ela como invisível, ela fica puta e no dia seguinte vai pra escola vestida de qualquer jeito - usando meia e crocs!!!! 



Se você é invisível, vamos aproveitar a invisibilidade, né? E aí aqui em casa depois de assistir o filme eu conversando sei lá sobre o que com meu irmão, só sei que disse "também vou de qualquer jeito. até porque, até quando eu me arrumo, o pessoal diz que eu tô desarrumada". O diferencial aqui é que é um assunto que talvez eu ignoraria, tipo como se eu tivesse me sentindo culpada??? Sei lá, mas sabe quando você tem vergonha de falar sobre algo? Então. E de alguma forma depois de ver o filme me deu mais uma liberdade.

Aliás, eu estou até aqui FINALMENTE fazendo um post sobre ser gorda, né?

Então entre todos os problemas, teve alguns pontos positivos. Só espero que no próximo eles usem uma garota gorda de verdade. Aliás, espero MUITA coisa, porque representatividade de pessoas gordas é tão fodida que nem o pessoal que fala de feminismo, etnias, LGBT+ e todas as mil vertentes sociais chega nisso direito. 

kylie jenner, a amiga gorda e feia


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5 comentários

  1. Devem existir uns 34837 filmes desse naipe, mas acho que "aquele outro filme adolescente antigo" é "Ela é demais".

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  2. Ai como eu amo esses seus posts e a forma como vc avalia criticamente as coisas.
    Tinha visto o filme, mas só consegui perceber certas coisas agora. É bem típico desses filmes teens tratar representatividade de forma leviana. Tipo quando eles pegam uma atriz estilo "padrão" e enfeitam ela com óculos e aparelho e no final tiram tudo e a transformam numa princesa da disney, tipo, isso não ajuda ninguém a se aceitar. Esse lance de tudo girar sempre em torno de um romance perfeito também é muito chato, pq é sempre um cara padronizado que só percebe o quanto a garota é incrível depois que ela se transforma em outra pessoa. No caso do filme o cara podia ter se apaixonado por ela de macacão por exemplo.
    É por isso que eu gosto de "My mad fat diary" pq (pelo menos é impressão que eu tenho) não é só sobre a garota gorda que se apaixona pelo garoto perfeito. É uma série sobre problemas reais. E eles tratam tudo de forma realista. E no fim a Rae percebe que se montar como as garotas magras e populares não a torna mais feliz, e o fato de ela ser gorda não impediu que alguém se apaixonasse por ela e ela termina a série sendo exatamente do jeito que ela é.
    Enfim...Por mais textos como esse!! <3 <3

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  3. Eu detestei esse filme, mas acho que detestei mais o livro. Uma coisa que me irritou muito foi que a mensagem de tudo era "ah, todo mundo é DUFF de alguém". O que ok, verdade, insegurança é foda e realmente todo mundo é DUFF de alguém.

    Mas fiquei irritada com isso. Porque tipo, minas padrão dizendo que são DUFFs pra miga não padrão? Tipo "ai, todo mundo é inseguro, mesmo magras" e eu fiquei tipo zzzz. Eis que eu percebi, meses depois, que eu faço isso também. Não sou uam pessoa magra exatamente, mas é inegável que ainda me encaixo em vários padrões, não tenho (muitas) dificuldades por isso e tal. E eu tenho amigas que realmente n]ao conseguem comprar roupa, sofreram bullying na escola, são maltratadas no trabalho, essas coisas, porque são gordas.

    Enfim, acho que a vibe de DUFF é muito isso de "todo mundo tem inseguranças" porque a Bianca não é de fato feia e gorda, só mais feia e gorda, mas o que eu aprendi e as amigas dela deviam ter aprendido é que falta uma perspectiva. Muito fácil pra Kylie Jenner dizer que é a DUFF de alguém.

    Mas gostei de várias coisas, tipo a Bianca ter controle da própria sexualidade ou eles mostrarem que o cara legal não era tão legal assim. Pequenos detalhes de histórias adolescentes do século XXI que mostram um progresso, ainda que lento.

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  4. Amei o fato de você ter finalmente começado a escrever sobre esse assunto, porque você comentou muito que queria fazer e eu tava aqui só esperando.

    Eu não assisti o filme, mas deu curiosidade pra ver só pra me sentir mais encabulada. E lendo agora me senti como se eu fosse a DUFF a vida inteira! Sempre cercada de inseguranças (ainda sou, e muito) como apontou a Lorena no comentário anterior.

    Sobre a dúvida do filme lá creio ser "Não é mais um besteirol americano" que é até com o Chris Evans e ele não passa de nada além de um filme que reúne milhões de referências dos filmes adolescentes dos anos 80 (que tem lá seus problemas, mas ainda prefiro). Sem falar de quando a personagem "faz" seu próprio vestido, me lembrei na hora de outro dos anos 80 chamado Garota de Rosa-Shocking, mas a protagonista era magra, bonita e ruiva *____* kkkk. Porém OK OK, a sociedade é fucked up mesmo.

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    Respostas
    1. Acho que é o Ela é Demais, não? E se não me engano, o Não é Mais Um Besteirol Americano zoa esse filme e outros do gênero.

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