CCLivros diário

Licença-ausência: quando a vida não te deixa cumprir suas obrigações

10.8.15Paulo V. Santana


(imagem representativa de todos os meus problemas e livros se acumulando)

- um texto-paliativo, um texto-justificativa, um texto-desabafo

Acabo de olhar a minha conta no Skoob e a última vez que marquei um livro como “lido” foi em junho, bem no iniciozinho. Era Começo, da poetisa francesa Nathalie Quintane, que, por mais curto que seja, levei semanas para terminar - e só o fiz porque era uma obrigação. Houve o fator dificuldade dos poemas aí no meio, mas já era um prelúdio do que viria a seguir: dias e mais dias sem ler, livro começados e largados depois de poucos capítulos.

Todo mundo que lê bastante costuma passar por períodos de baixa no ritmo de leitura, eu mesmo tenho uma fase dessas todo ano. Os motivos variam, já fiquei sem ler tanto por falta de vontade quanto por levar uma rotina corrida em que não cabiam livros de entretenimento. Dessa vez, não foi o desejo que sumiu (pelo contrário, andei me interessando por mais e mais livros), o problema foi que eu andei tão desanimado e cansado e distante de tudo que não conseguia ler. Era uma sensação bem estranha até, porque a vontade de pegar um livro para ler estava ali, só que entre o querer e o fazer havia um buraco. Sabe quando você tá com a cabeça tão cheia que ler uma história só vai ser mais um peso?

Tá, mas por que isso é um grande problema? Se eu leio só por mim mesmo, para satisfazer um desejo pessoal, ficar um período sem ler não é um grande problema. A merda começa quando você faz isso por “trabalho”, quando há um compromisso na leitura. Como conciliar suas questões pessoais com suas responsabilidades profissionais? Apesar de não serem um vínculo legal, as parcerias que estabelecemos com editoras e escritores são acordos legítimos e, portanto, devem ser respeitados.

Esse é um dilema que tem me preocupado ultimamente. Digo isso do alto de minha inexperiência e ingenuidade quanto ao mundo adulto, já que o máximo de responsabilidade que eu tive até agora foram projetos de iniciação no colégio. Imagina se eu preciso entregar um relatório até determinado dia para o meu chefe e até lá não consigo desenvolver nada porque estou... tristinho? O que acontece no âmbito pessoal justifica falhas na esfera profissional?

Pensando nisso, lembrei de uma das propostas da oficina literária que participo, cujo tema era justamente as licenças da vida. Criamos leis fictícias para justificar ausências, e o texto de introdução descreve perfeitamente o meu questionamento atual:

“Quais licenças são necessárias para contemplar os estados de exceção em que as circunstâncias da vida lançam o trabalhador? Qual é, diante dos imprevistos da vida, o trabalho necessário para que se continue trabalhando, mesmo que para tanto seja necessário interromper por um tempo o tempo de trabalho?”

O meu estado de exceção impediu que eu cumprisse o prazo de publicação das resenhas das minhas leituras-dívida. Não consegui avançar muito em nenhuma das histórias - uma delas por não ter gostado muito, confesso - e fiquei num ciclo de pegar um, ler algumas páginas, largar, pegar o outro, largar e assim por diante. Aliás, na realidade, os três livros* em si também dificultaram o processo; cada um tem sua especificidade, mas todos compartilham de narrativas densas. E, bem, torna-se especialmente complicado ler um livro que exige de sua cabeça quando ela está cheia dela mesma. 
* A título de curiosidade, são: O gigante enterrado (Kazuo Ishiguro), A balada de Adam Henry (Ian McEwan) e O que não existe mais (Krishna Monteiro). 

Se você, querida pessoa leitora, achou este texto confuso… você está certíssima. Isso aqui é uma evidência de como é difícil produzir algo realmente bom quando se está numa fase ruim. Este é um texto que não pediu para ser escrito, que foi forçado a nascer para tapar um buraco. Eu precisava agrupar palavras para serem publicadas até hoje, então eu simplesmente saí escrevendo o que eu pensava sem ter realmente uma ideia clara de tudo.

Ainda não encontrei nenhuma solução, apenas esse paliativo, mas seria ótimo se na vida houvesse uma licença como essa:

Licença-ausência
Artigo único. É reservado a cada indivíduo o direito de afastar-se de suas atividades obrigatórias quanto a vida estiver uma bagunça e for necessário tempo para se recuperar. 

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5 comentários

  1. Normalmente, eu sempre comento com textão, mas nesse caso, só quero dizer:

    TAMO JUNTO MIGO

    (E estou super precisando de uma licença dessas pro trabalho.)

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    1. Confesso que também adoraria essa licença Andrea...
      Me sinto exatamente assim Paulo. Esses últimos meses tem sido angustiantes no que diz respeito a leituras acumuladas. Eu entrei em uma de começar livro, largar livro, começar outro, etc... No fim das contas li só um livro em junho e achei até que havia algo errado comigo, pois nunca havia sido tão difícil ler um livro todo.
      Agora, pelo , menos sei que não é só comigo, rsrsr, e isso é meio reconfortante. (Embora não resolva nem o meu e nem o seu problema, mas tudo bem!!!)

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  2. Tamo junto! Tô passando pelo mesmo problema. Ás vezes, a vida simplesmente não te dá uma pausa. Por isso, você precisa apertar o botão do F#%@-se e largar tudo de mão. Depois você pede desculpa pras editoras, corre atrás do prejuízo...mas não dá pra forçar a barra, porque senão a tendência é piorar. Eu estou revendo seriamente as minhas prioridades em relação ao blog, pois estou me sentindo refém dessa relação blogueiro/editora.

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    1. Sobre isso de blogueiro/editora: eu abandonei logo no início do CC. No início foi legal a ideia de poder livros de graça em troca de resenhas, mas depois eu sentia que não tava valendo a pena. Aí cortei todas as relações. Felizmente, tem outras pessoas na equipe e elas levaram em frente. O Paulo aqui é o responsável por manter isso esses anos todos, hoje já tem mais gente. E mesmo assim nós somos fazemos as que queremos mesmo. Tem editora que chega a ser abusivo e apenas: não.

      Enfim, se você achar necessário, tire a licença ausência! Foque no que você gosta. Pra mim, tem sido recompensador. :)

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  3. Ao mesmo tempo... queria incluir aqui: qual é o limite? Em um exemplo babaca: a gente aprendeu a ter que escovar os dentes, usar a privada, vestir roupas, etc. Nada que veio com facilidade. Então qual é o limite entre forçar pra criar o hábito ou ser algo ruim? Esse texto aqui é um texto muito importante, mesmo saído a força. E aí? O que é verdade?

    Acho que talvez a verdade seja o tempo. Se é algo que tá sempre sendo um problema, se é algo que não vai em frente, talvez seja um esforço desnecessário. Se é algo que é ruim e é superado, é porque vale a pena.

    De qualquer modo, obrigada por escrever esse texto, Paulo. Por vir aqui mesmo quando você não tinha certeza ou vontade. Por cuidar da parceria da Cia. Por fazer todas essas coisas que você faz por muito tempo. E espero que você saiba que, se você não quiser fazer, a gente pode conversar.

    Espero que você esteja melhor e conseguindo ler. Eu te amo. <3

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