Alif o Invisível Alif the unseen

Alif, O Invisível tem sci-fi e fantasia, mas o melhor é a realidade

22.7.15Dana Martins


Pra quem não sabe, a autora do livro, G. Willow Wilson, foi uma das criadoras da super-heroína Kamala Khan - a Ms. Marvel, americana/paquistanesa, muçulmana e provavelmente umas das personagens novas mais legais do mundo dos super-heróis. Então quando eu vi que a Rocco lançaria um livro de fantasia YA escrito por ela: EU QUIS MUITO LER. 

Kamala conhecendo Wolverine. Basicamente eu vendo sobre Alif, O Invisível

Só que aí o livro demorou pra chegar, eu tava numa ressaca literária e desanimei. Quando eu comecei a ler Alif, O Invisível, depois da 10 primeiras páginas eu já tava pensando "Só estou lendo isso porque é de parceria, se não abandonava agora e nem olhava pra trás." Logo em seguida fechei o livro e tive certeza do seguinte: lei de murphy é uma desgraçada. Soube, inclusive, que faria essa introdução dizendo "ainda bem que esse era um livro de parceria e eu não abandonei".

Alif, o Invisível começou diferente do que eu imaginava. Eu imaginava que seria algum YA de fantasia moderno que em vez das mitologias comuns ocidentais, teria mitologia oriental / árabe. O livro é isso. Mas não exatamente isso.

Começamos a história conhecendo Alif (esse não é o nome dele, Alif é o nick que ele usa online, é a primeira letra do alfabeto árabe), que é um hacker e trabalha para manter sites clandestinos que seriam proibidos em um país que tem uma censura online bizarra. Não é nada tão nobre quanto parece. Alif é muito bom em burlar a censura e ajuda qualquer um que possa pagar.

e se eu falar que só depois que eu comecei a ler eu percebi que isso na letra do título Alif é um pattern de placa de computador? 

Eu preciso falar mais sobre isso, porque foi algo que me chamou atenção de cara. Uma internet sem liberdade de expressão. Qualquer pessoa que diga algo que o governo não concorde é banida da internet. E, se tiver azar, da vida real também. Ditadura, sabe como é? Mas Alif, o Invisível não é um livro distópico. Isso que é o mais aterrorizante. É a história de um mundo real. Do nosso mundo. Em um país onde eu poderia parar na cadeia e ser torturada por ter um site como o ConversaCult. Ah, e ser estuprada também. Eu sou mulher.

Agora, eu não sei até que ponto Alif, o Invisível e a História real do Oriente Médio se encontram. Meus conhecimentos sobre a cultura de lá e os países são poucos a um nível vergonhoso (por isso a importância de livros assim). O que eu sei é que Alif vive em um emirado fictício e que é como uma referência geral aos países do Oriente Médio (coisas que não sei: a diferença de país e emirado). 

Uma curiosidade que eu encontrei no site do próprio livro foi um texto (superimportante) sobre por que a autora decidiu escrever Alif, o Invisível, onde em um trecho ela explica como a internet é importante em alguns "países de terceiro mundo" e que o livro foi a forma dela de mostrar como o que acontece online é importante. Como os blogs e redes sociais não são "só diversão de mentira", mas têm o poder de mudar a realidade. 

Ali ela fala, também, da coincidência de lançar o livro ao mesmo tempo que acontecia a Primavera Árabe - protestos e revoluções que aconteceram recentemente em vários países árabes e foram motivados em grande parte pela internet. Uma coincidência tão grande que eu cheguei a pensar que esse livro era uma forma de recontar o que aconteceu na Primavera. Não é, mais poderia ter sido. E para pessoas como eu que estão por fora, é um grande ponto de partida. É acordar para uma nova realidade. 

Acho que não é à toa que o livro fale sobre o invisível



Então ver um mundo assim em Alif O Invisível, pensar no que poderia acontecer se as pessoas no poder decidissem calar as opiniões contrárias... é mais assustador do que qualquer livro distópico que eu li. E perigosamente próximo da nossa realidade.

Voltando à história, Alif é alguém que consegue burlar essa censura. Pelo menos até o livro começar, que é quando a Mão, como eles chamam a "coisa" (um programa? uma pessoa? um grupo?) que trabalha para o governo indo atrás dos dissidentes, consegue localizá-lo. E ele, um garoto que poderia ser eu (tem até a mesma idade!), vê todo o mundo digital em que ele vivia bater na porta de casa.

Aí o de sempre: fuga. Mas eu não vou contar a história, só que está faltando dizer metade do que acontece. Alif, O Invisível é uma história de fantasia, então no meio dessa jornada Alif acaba envolvido com uns elementos misteriosos da religião...? Olha, outra coisa que eu não sei. Mas não precisa saber que religião é ou detalhes assim. Só que é como se coisas das crenças que as pessoas lidavam como "fantasia" vão se tornando reais.



O livro é um pouco como ler Percy Jackson, só que tem esse lado do personagem ser um hacker e batalhas digitais que me lembram a Neuromancer, do William Gibson, (o livro que inspirou Matrix). Então você tá dançando entre a ficção científica e a fantasia. Em uma história cheia de detalhes desconhecidos de uma cultura diferente, mas que na essência é bem parecida com tudo que nós conhecemos e nossas vidas reais.

Aliás, digo que é mais parecido com o nosso cotidiano até mais que alguns livros contemporâneos, tipo os do John Green. Eu me identifico com os personagens e dramas do John Green, mas nenhuma garota ia aparecer na minha janela de madrugada, ou eu ia fazer uma aventura até a Europa pra conhecer um autor, ou uma road trip com os meus amigos. Enquanto em Alif de algum modo parece real. Como se eu tivesse ouvindo a história de alguém que mora em um bairro aqui do lado. Mas aí usa aquele véu na cabeça e toma uma Mecca-Cola.

até a história do refrigerante é interessante

Eu não sei dizer o que eu mais gostei no livro. Se foram as discussões filosóficas, que me lembraram muito aos meus textos sobre Crise Existencial (chega a falar de algumas coisas parecidas e, em outros casos, responder perguntas). Ou se o que eu gostei foi conhecer essa cultura tão parecida e tão diferente ao mesmo tempo. Ou se foi esse mundo de fantasia/ficção científica, com elementos que não são comuns nas histórias ocidentais.

Se tirar esses retratos culturais e pensamentos interessantes (por que você faria isso?), o que sobra é um livro de aventura juvenil-adulto com fantasia. A versão crescida de A Bússola de Ouro.

Os personagens, em si, não foram tão atraentes assim. Alif é um idiota (e todo mundo faz questão de mostrar isso, o que é divertido) e eu não pude deixar de me perguntar por que a G. Willow Wilson não nos deus uma protagonista emblemática. Por que mais um garoto (mesmo que ele não seja branco)? Minhas suposições são que 1) Ela inevitavelmente precisaria lidar com estupro; 2) Ela quis criar um livro de aventura em fantasia como os outros, mas moldado na cultura árabe, então pra fazer "a versão árabe de todos os outros" ela precisava manter o protagonismo do homem; 3) Uma mulher nessa cultura não teria as condições como Alif de chegar a esse ponto da história.



Ah! Além de detalhes culturais, também tem análises feministas e sobre etnias no livro. Desde Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie, (leia minha resenha aqui) esse é o primeiro livro que eu leio que tem essa narração atenta que nos ensina a ver o racismo de outra perspectiva. O protagonista mesmo, Alif, é filho de um segundo casamento do pai e é meio árabe e meio indiano. Então a história mostra como o tom de pele e origem influenciam para ele conseguir (ou não) coisas na vida.

Detalhe: E quando eu digo "segundo casamento" significa que o pai é casado com duas esposas ao mesmo tempo.

Nossa. Quanto mais eu falo mais eu percebo que tem coisas que eu quero comentar no livro.


Vou falar que eu adoro como a G. Willow Wilson na história tem essas personagens mulheres em uma cultura claramente machista, ou seguindo tradições diferentes, e faz isso de um modo respeitoso e que coloca a mulher no controle. Até coisas que eu fico com os pézinhos atrás e olhando com suspeita, eu não consigo claramente dizer que é negativo, porque é tratado com muito cuidado. Um exemplo é Dina, a vizinha de Alif que decide seguir uma parte mais rígida da religião que cobre o rosto/cabelos e tem muitos limites, tipo a dormir perto de homem ou sei lá, que pra mim é algo alienígena. Mas é mostrado de modo que nos ensina a compreender e respeitar. O próprio Alif é a versão deles de "católico não praticante" (só que a religião deles) e é machista, mas ao longo do livro não só é desenvolvido como o modo dele de ver o mundo não desvalida nenhum outro.

Ah, é muito bom. É uma aula de fazer histórias inclusivas. Vai pra minha lista de "histórias que provam que o problema não é o que você mostra, mas como mostra".



Sobre a leitura, o início foi lento porque eu prefiro histórias que já vão direto ao ponto, mas depois das primeiras 20 páginas a coisa anda. Eu tenho a impressão de que depois disso tem uns pontos que o ritmo cai, mas o que eu lembro: Fui lendo um pouquinho cada dia. De repente eu não queria mais largar. De repente eu tava acordada até amanhecer terminando o livro. De repente eu estava triste porque a história terminou. E já deve fazer uns 5 dias desde que eu terminei, e eu só sinto a tristeza de não ter mais Alif pra ler.

Ia dar 4,5, mas vou dar 5 porque foda-se. Não é só uma leitura legal (E é), é também um livro importante.



Título: Alif, o invisível
Autora: G. Willow Wilson
Editora: Fantástico Rocco
Páginas: 352
Ano: 2015
No Skoob
Para comprar: Saraiva - Submarino - Amazon
Book Trailer

Nota:
(5/5 conversinhas - Nota máxima!)


***
Este livro foi cedido pela nossa parceira, a editora Rocco. Obrigado por publicarem esse livro :)




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2 comentários

  1. Uma coisa que eu gosto na suas resenhas, é que elas não parecem resenhas (?) ahhaha

    Eu não sei se esse seria um livro que eu daria atenção assim na livraria, mas agora parece que tenho que ler, porque A) mostra um cultura diferente (cara, não sei quase nada dos emirados árabes/ oriente médio)
    *a propósito, caso você não tenha ido pesquisar ainda: https://pt.wikipedia.org/wiki/Emirado*
    B) quero ver como as questões de etnia e das mulheres são tratadas, porque do modo como você descreveu parece interessante de ver. e C) porque "não é o que você mostra é como mostra". São coisa que quero aprender a fazer, eu acho? Ou sei lá, conhecer, no minimo.
    Isso me lembra que eu já devia ter lido Americanah (gente, cadê o tempo e a organização?) Enfim...

    Gostei da resenha, caso não tenha ficado claro e gostei do layout do site do livro, também (!!).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. HUAHUAHUAHUHAUAH provavelmente porque sou eu falando tudo o que achei do livro ;-;

      Não tinha pesquisado. Vi agora e fez sentido. Obrigada <3

      Cara, é muito legal essa parte B mesmo. Agora mesmo tava lembrando de uma parte que uma mulher com aquele véu tá andando na rua, aí uns caras que passam ficam falando merda por causa do modo como ela se veste. Tipo, A MULHER INTEIRA COBERTA E OS CARAS FALANDO. É uma coisa tão poderosa, porque em uma cena silenciosa sem nem comentar desarticular toda essa crença de que é por causa do modo que as mulheres se vestem.

      E pra constar, Americanah e Alif são beeem diferentes, mas é a forma como eles contam e mostram as coisas de outro ponto de vista que é igual. Nossa, fiquei com saudade de Alif agora ;-; mais livros da G. Willow Wilson assim, pf

      Obrigada pelo comentário <3

      Excluir

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